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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O ÍNDIO




Entra e vê como alguém está à espreita, 
como olha de esguelha através da floresta, 
como procura em vão apagar os sinais 
desses touros vermelhos do cotidiano. 

Entra e vê como se cumprirão as escrituras 
de tudo isso que se fez verbo e protocolo 
e que se vai amontoando nos sambaquis 
como relíquias dos filhos de tupã. 

Tudo isso que te faz verbo e protocolo 
e que te vai roendo e te fazendo sonoro: 
harpa de vento pendurada na mangueira, 
santo de pau oco num altar barroco. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)




O índio 


Entra e vê os mil pequenos entraves 
e depois escuta, põe teu ouvido no chão: 
e a música da minha flauta transversa 
ou da minha flauta mambi - 
dessas de índio brasileiro, 
de cócoras, 
distraindo a solidão das borboletas. 

É a música da minha flauta transversa 
que talvez te atravesse e te acorde 
no meio do oceano: 
ela vai demarcar a tua área, 
vai erguer as paredes de tua ocasa, 
reunir teus peixes, bichos, carrapatos, 
curar a tua maleita, tua doença de branco 
e te fazer sonhar com a voz de uma iara 
esquecida numa curva de rio 
ou num grotão de cerrado. 

Mas vai também te vestir de penas, 
como se fosses mesmo o inesperado chefe 
de uma tribo perdida na linguagem. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)



O índio 


Sou mesmo um índio: boto meu ouvido 
no chão e fico assim a tarde inteira, 
quem sabe se até meio distraindo 
na conversa de amor de uma estrangeira. 

Sou capaz de escutar o vôo do inseto 
e a canção da semente germinando; 
meu poder de captar o longiperto 
me transforma em tupã, de vez em quando. 

E eu vejo tudo: o mais pequeno galho 
quebrado numa trilha - um rasto, brecha, 
um aceno de luz, qualquer atalho, 
vulto entre folhas, deslizar de flecha. 

Meto sempre o nariz, descobrindo 
a forma, a cor, o som, algum sinal 
do que ficou sem cheiro, algum resíduo 
do que ficou sem tempo, como um saldo. 

Pelas pontas dos dedos é que enxergo 
o outro lado das coisas - o sem-nível, 
a imagem veludosa com seu verbo, 
seu corte de navalha no invisível. 

Na minha língua o rubro da papoula 
ainda sabe o mel e ainda canta: 
tenho um gosto de sol no céu da boca, 
tenho um travo de beijo na garganta. 

Então sou mesmo um índio: deito o ouvido 
na curva de teu ventre e à tarde inteira 
quem sabe se eu não ando comovido 
um coração batendo à brasileira. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O ÍNDIO




Entra e vê como alguém está à espreita, 
como olha de esguelha através da floresta, 
como procura em vão apagar os sinais 
desses touros vermelhos do cotidiano. 

Entra e vê como se cumprirão as escrituras 
de tudo isso que se fez verbo e protocolo 
e que se vai amontoando nos sambaquis 
como relíquias dos filhos de tupã. 

Tudo isso que te faz verbo e protocolo 
e que te vai roendo e te fazendo sonoro: 
harpa de vento pendurada na mangueira, 
santo de pau oco num altar barroco. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)




O índio 


Entra e vê os mil pequenos entraves 
e depois escuta, põe teu ouvido no chão: 
e a música da minha flauta transversa 
ou da minha flauta mambi - 
dessas de índio brasileiro, 
de cócoras, 
distraindo a solidão das borboletas. 

É a música da minha flauta transversa 
que talvez te atravesse e te acorde 
no meio do oceano: 
ela vai demarcar a tua área, 
vai erguer as paredes de tua ocasa, 
reunir teus peixes, bichos, carrapatos, 
curar a tua maleita, tua doença de branco 
e te fazer sonhar com a voz de uma iara 
esquecida numa curva de rio 
ou num grotão de cerrado. 

Mas vai também te vestir de penas, 
como se fosses mesmo o inesperado chefe 
de uma tribo perdida na linguagem. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)



O índio 


Sou mesmo um índio: boto meu ouvido 
no chão e fico assim a tarde inteira, 
quem sabe se até meio distraindo 
na conversa de amor de uma estrangeira. 

Sou capaz de escutar o vôo do inseto 
e a canção da semente germinando; 
meu poder de captar o longiperto 
me transforma em tupã, de vez em quando. 

E eu vejo tudo: o mais pequeno galho 
quebrado numa trilha - um rasto, brecha, 
um aceno de luz, qualquer atalho, 
vulto entre folhas, deslizar de flecha. 

Meto sempre o nariz, descobrindo 
a forma, a cor, o som, algum sinal 
do que ficou sem cheiro, algum resíduo 
do que ficou sem tempo, como um saldo. 

Pelas pontas dos dedos é que enxergo 
o outro lado das coisas - o sem-nível, 
a imagem veludosa com seu verbo, 
seu corte de navalha no invisível. 

Na minha língua o rubro da papoula 
ainda sabe o mel e ainda canta: 
tenho um gosto de sol no céu da boca, 
tenho um travo de beijo na garganta. 

Então sou mesmo um índio: deito o ouvido 
na curva de teu ventre e à tarde inteira 
quem sabe se eu não ando comovido 
um coração batendo à brasileira. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)
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