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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

EU TE ESPERO



Eu sempre te esperei.
Eu sempre te esperei em uma nuvem de neve
tão diáfana e sutil, tão vaporosa e leve
e, num halo de luz, vinda de onde não sei,
Eu sempre te esperei.
E eu sei que tu virás.
E eu sei que tu virás num sonho alucinado,
na brancura de paz de um silêncio ondulado
e, suave como um luar de finos tafetás,
eu sei que tu virás.
E nem sei quando vens.
E nem sei quando vens. O tempo é um hiato.
Só o amor é verdade, e tudo o mais, abstrato.
Só o amor é que encerra o supremo dos bens,
e nem sei quando vens.
Mas te espero feliz.
Mas te espero feliz e entre anseios te aguardo.
Hás de chegar um dia e nessa espera eu ardo.
Sempre, por toda a vida (é minha alma que o diz)
Te esperarei feliz.


Gilberto Mendonça Teles
(HORA ABERTA - poemas reunidos - Ed. Vozes, 2003)

DO LIVRO POEMAS REUNIDOS

Madrugada 


Ainda há estrelas no céu, tremelicando, tontas,
e a manhã já vem vindo, indolente e indecisa,
até que o passaredo o concerto organiza
para esperar-te, ó sol, que dos longes despontas.

Um rego d'água corre e um vento brando alisa
as franças do capim ridente,em cujas pontas
o orvalho da manhã esplende como as contas
de explêndido cristal que o sol, beijando , irisa.

As aves cantam numa alegria incontida;
a terra cheia, ri-se o capinzal molhado;
e toda a natureza é um hálito de vida.

E de há muito que está o caboclo de pé,
olhando, preguiçoso, e no sonho abismado,
a fumaça a subir do rancho de sapé.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



Simplicidade

Tudo é tão simples nesta vida e fica
às vezes tão confuso ou tão bisonho
que a linguagem das coisas se duplica
ante os olhos atônitos de sonho.
E essa simplicidade, clara e rica
de sensações indefiníveis, ponho
no pensamento real que frutifica
na ambiguidade em que me decomponho.
Mas o cenário vai mudando. E a vida 
se lança calma e convenientemente
na foz do tempo. E eu continuo , a esmo,
minha jornada interrompida,
procurando o horizonte inexistente
na planície impossível de mim mesmo.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

IV

Há na espera um prenúncio de incerteza
sobre a alegria que não sei mais terna.
Tudo me leva a ti, e eu sigo mesmo
tocando estrelas cada vez mais perto.

Não desconheço a exatidão da noite
nem o horizonte que te ausenta sempre.
Um dia acordarei para teu corpo
e só ternura de palavras entre

os teus cabelos te direi, de encanto.
Minha linguagem rútila terá
a eternidade que terei, cantando.

E tudo o mais será como o silêncio
pesando sobre a noite, a noite e o campo,
e o campo que não mais se esquecerá.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


MELODIAS


Ternas melodias de longínquas plagas,
nas manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas terras vindes me encontrar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância do poema, no ar?

Ou vindes dos astros - de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha;
são as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha

Essas melodias que a minh'alma douram ,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



HINO AO SONO


À noite, quando sinto o meu corpo sentindo
a fadiga, o cansaço e o tédio do trabalho,
tu vens, ó sono bom, vens lentamente vindo
enrolar-me na lã do teu fluido agasalho.

E, como uma flor branca embebida de orvalho,
a suave languidez de tua alma se diluindo
cobre todo o meu ser e no teu ser me espalho
como um som que se escuta a ampliar-se, sumindo...

Em ti, como num mar distante, cujas águas
refletissem a dor , as tristezas e as mágoas
de quem de cedo tivesse o desprezo da sorte,

todo o meu ser se abisma, ansioso, e se evapora!
Porque tu és, ó sono, essa essência sonora
tranquilizante a vida poetizando a morte.


Gilberto M.Teles
In Poemas Reunidos


POEMA


De ti me vem esta alegria pura,
singela como o som de flauta rústica,
irradiante como o sol
na manhã rumorosa,
cheia de orvalhos,
cheia de pássaros,
cheia de luz
e da ansiedade imensa
de completar
o amor!

De ti me vem esta alegria silenciosa
e inexplicável de saber que vivo
na cadência feliz da sintonia
universal dos elementos.
De ti me vem
o sussuro das vozes sonorosas
e a linguagem inefável
deste amor.

De ti me vem esta alegria
de ser livre e de estar sozinho te esperando
nalgumas dessas ilhas afastadas,
perdidas no Pacífico do Sonho.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos

CANTIGA I

Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda 
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda.

Há tanto silêncio,
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavravida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
-Alguém docemente
pensará na vida.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


CANTIGA III


Soprei na esquina do vento
a condição do meu canto:
- "Que os homens todos me entendam!"
Mas, como um rio em silêncio,
fui-me no tempo ocultando.

Era preciso, e falei.
Gritei as minhas palavras.
Tinha esperança, e de lei.
E hoje, cansado, nem sei
se alguém, de longe, escutava.

Surpreendo agora na curva
repentina do planalto
a noite que vem na chuva
de uma tristeza tão muda
que nem sei mais o que faço.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos


HINO À NOITE

Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei contigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos







do livro PLURAL DE NUVENS



LUDUS


Tolle, lege. 
Santo Agostinho

Toma a palavra, e principia. Tudo 
tem um pouco de ti: um sol, um sema. 
No fundo, teu desejo:
............................. lodo e ludo, 
jogo de truque e blefe de poema.

Toma este livro, toma e lê (ou lege);
não só um tomo, a obra inteira soma 
à solidão maior que te protege 
como um corpo de baile no idioma.

E toma ao pé da letra o que combina 
com teu gosto e prazer:
............................. o cimo, a suma 
de todos os sabores,
............................. vitamina, 
quintessência final de coisa alguma.

Gilberto Mendonça Teles
In 'Plural de Nuvens’(1990)


AQUI E AGORA


Procuro o aqui e o agora, 
o agoraqui, o que já foi 
e continua: a cor de outrora 
no couro curtido de um boi.

Procuro o que está sendo, 
o que se acende, o que se apaga,
o acontecido acontecendo, 
sombra de peixe fora d'água.

Procuro o que figura
no que perdi te procurando,
o que se gastou na usura
do que me vem de vez em quando.

Procuro o que projeto 
além de mim, no que me sobra: 
talvez a sombra de um inseto 
na plantação da minha obra.

Procuro o procurar-te, 
o que sempre fiz e não sei. 
Talvez o aqui e o agora, a parte 
do que ficou fora da lei.

Gilberto Mendonça Teles
In ‘Plural de Nuvens’(1990)



PLURAL DE NUVENS


Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


SIGNO

Ainda existe a rosa nos cabelos 
vermelhos da poesia.


Ainda há força 
no azul do seu mistério, no seu canto,
no eixo de sua aérea encruzilhada.


Ainda, a sua origem, seu mais íntimo
silêncio: o veludoso ardor das pétalas,
o aroma das amoras no políndromo,
das palavras de aladas peripécias.


Ainda, esta morada, o seu precioso
espaço interior, o alumbramento
da forma em desatino, a descontínua 
perspectiva do ser na travessia.


Ainda, a sua angústia, o novo tempo
se exaurindo nas coisas, lapidando
os favos da romã e consumindo
seu avesso de fogo e sutilezas.


E ainda a sua imagem:
lago, espelho,
alma e corpo submerso, o indelével
estribilho do amor e seu disfarce,
e seus pontos de cruz na superfície.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens















CANTIGA



Se vives dentro da noite
como uma estrela , a brilhar,
eu vou pela noite a dentro
no meu silêncio, a sonhar.

(Alguém haverá que impeça
um sonhador de sonhar?
E essas palavras comuns,
não são também para usar?)

Estendo as mãos: a distância
se interpõe.Fico a pensar:
por que as estrelas são tantas?
Por que não posso voar?

Gilberto Mendonça Teles
In 'Poemas'


CHUVA



Era uma chuva tão pura
mas tão triste e fina e fria.
Era uma cinza de inverno,
fumaça de água,
fatia
ou faca de aço nas árvores,
chagando a terra macia,
pondo lodo nos caminhos,
angústia no que se via.
Tristeza brava,
de chumbo,
cavalo azul que mordia
a tarde,
o campo,
a distância
nos pastos da ventania.
Seu rato mole,
de sombra,
sulcava o tempo,
dormia
nos pêlos úmidos, cheios
da vida que se escondia
sob o silêncio das pedras,
das raízes, do que havia
longe dos olhos dos homens,
longe dos olhos do dia.


Gilberto Mendonça Teles
In: "Pássaro de Pedra"

DO LIVRO & CONE DE SOMBRAS


TEORIA

1

Minha paixão teórica
é muito mais que paixão;
não está longe nem próxima,
está no ar e no chão.

Tem seu real, mas é órfica
como o sim, como o não;
sua antena parabólica
capta só distração.

Nunca exibe o seu código
livre na palma da mão,
embora sempre erótica
no seu tempo e viração.

Minha paixão teórica
segue o exemplo da inflação:
sobe e desce sem órbita,
é mais que bala – é balão.


Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras


2


Deixe que venha o poema
como um telefonema.

Deixe que o poema venha,
mas ponha fogo e lenha.

Que o poema venha, deixe,
mas com molho no peixe.

De lenha e telefonema,
de peixe e algum dendê,
pode-se ter um poema,
dependendo de você,

que é capaz de ver anjo
voando de mini-saia,
sem se dar conta do arranjo
ou do rabo-de-arraia.


Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras


3


Eu não sei se sou leigo ou laico,
sei que este poema é prosaico.
E sei que em matéria de poema
melhor é não criar problema.

Cada um escreve o que pode:
este aqui tem barba e bigode
e pode até não ter cabelo,
mas não é preciso dizê-lo.

O leitor, que hoje está na moda,
é que deve fazer a poda
e colher o que mais lhe agrade,
mesmo que seja tempestade.

Mas se eu não for laico, for leigo?
E se o meu poema for meigo?
Como é que fica o meu conceito,
se ainda não matei o sujeito?

E acho mesmo que além de tudo
um poema, mesmo sisudo,
pode até ser (tecer faz mal?)
um poema sentimental.

Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras



ENTREMÊS


Poe trás da sombra, a cortina:
por trás, seu palco de susto:
ensaia-se uma obra prima
nas cenas das contraluz.

Pula no centro um fonema,
faz piruletras e ponto.
(No camarim uma pena
procura imitar o tom.)

Cada vogal com seu luxo
de cores e metaplasmos
se enrola num caramujo
para os disfarces nasais.

A seguir as consoantes,
marcando o ritmo de um órgão
se curvam fazendo grandes
acrobacias no chão.

No bastidor as palavras
treinam seus malabarismos:
pernas pretas pernas alvas
jogo de amor nos quadris.

E logo, formando fila,
saltam rindo para o palco,
dançando rock, quadrilha,
puxando seu carnaval,

formando grupos, figuras,
coreografias de gestos,
mil movimentos de agulhas
e de novelos nos pés.

E fazem tudo tão simples,
com a tal perícia e tal arte
que só se escutam os timbres
de seu prazer de cantar.

Depois, em forma de reza,
entre palmas e mãos postas,
alguém prega alguma peça
na ponta deste retrós.

Nas cenas da contraluz,
ensaia-se uma obra-prima;
por trás das sombras, o susto;
por trás do susto, a cortina.


Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras



CANÇÃO

Aquém da fala
a voz resvala
na escuridão:
quer ser figura,
torna-se pura,
ser a canção,
o vento, a praia,
nuvem, cambraia
no céu, no chão,

Mas o que excita
a forma escrita
na minha mão,
o que foi lido
ou pressentido
no sim, no não,
ainda resvala
além da fala
na escuridão.

Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras


CRÍTICA


seu livro tem altos & baixos


os altos ideais & os baixos princípios
as altas qualidades & os baixos instintos
a alta fidelidade & o baixo meretrício
a alta freqüência & o baixo contínuo
o alto da cópula & o baixo da cúpula
o alto cargo & o baixo calão
o alto da boa vista & o baixo leblon
o ponto mais alto & o mais baixo relevo
o alto falante & o baixo falido
o que anda alto & o que pisa baixo
o alto poder de & o baixo costume de

seu livro tem altos & baixos

embora o tenha lido muito por alto
& em baixo astral



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



A Pedra


No princípio e no fim, no vão do meio,
uma pedra nomeia o meu caminho:
dormi como uma pedra ou alguém veio
deixar os meus lençóis em desalinho?

Quem foi que andou pisando a minha vida
e me deixou assim meio de fora,
oscilando em mim mesmo, na medida
em que nomeio o amor, aqui e agora?

No princípio era a pedra e seu instante
de existência sem nome, realidade
carente de sintaxe e vacilante
no seu jeito de ser pela metade.

No meio, além da pedra, a poesia
dessas coisas sem forma, na ante-sala, 
onde nomeio a musa que existia
no chão do nome e no colchão da fala.

No fim, tudo é princípio e o meio é meio
de alguém cavar no pó do pergaminho
um sentido final, talvez um veio
na pedra que nomeia o meu caminho.



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras


VEIA POÉTICA


às três horas da manhã
de uma quarta-feira de cinzas
o poeta olhou mais uma vez
a árvore dourada da existência
fechou o livro de teoria
abriu as veias
e começou a escrever em silêncio
o seu poema definitivo



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



DOCUMENTO


Pego um selo qualquer, uma estampilha
dessas de educação de antigamente,
e dou ao texto um cunho de vigília,
de estado de leitura permanente.

Mas falta-lhe um relógio de ambiente,
falta um jogo de escrita ou de mobília;
e o que se conta nunca está de frente,
tem sempre um jeito oblíquo, de armadilha.

Fosse um papel sem lado, e o meu papel
talvez se sustentasse no apelido,
nalgum nome que se abre como um delta,

como uma linha-d’água, um claro-escuro,
um sinal para ser reconhecido
sem timbre e protocolo, no futuro. 



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



PASSATEMPO


Como num jogo, sem barulho,
escolhemos a parceria,
tomamos nossos lugares
e nos dispusemos à sorte das cartas.

Houve tímidas apostas.
Compramos, descartamos,
discutimos as regras,
mas tudo pelo simples
prazer do passatempo.

Se houve boas jogadas
e algum blefes
(trapaças, talvez),
ainda é cedo para saber.

O certo é que fizemos
21 pontos nesta rodada.
A mesa ainda está disposta
e o jogo continua.

Quem está ganhando/perdendo?
E o baralho agora de quem é?


PS

E este punhal de prata enfincando de longe
bem no centro da mesa?



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



INVEROSSÍMIL


Mais justo é resistir às conveniências
dos sábados, fechar as mãos no fundo
dos bolsos, pôr os olhos o mais baixo
possível,
rastejar,
lamber o chão
e reduzir as margens do real
à lógica do absurdo.

Há sempre alguém envernizando a linha
dura de teu discurso. Há sempre alguém
tentando surpreender a forma aérea
de teu gesto no instante em que modulas
por dentro o teu vazio.

Melhor é resistir: além dos sábados
a vida continua, e seus disfarces.



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras




SUBVERSÃO


Nos compêndios de história
desfilam apenas os blocos
de reis, imperadores e generais
que não acabam nunca mais.


Foram sempre justos, belos e bons
e além de tudo geniais:
escreveram seus livros de linhagem
e as nobiliarquias tradicionais.


Para garantir seus direitos divinos
(e seus interesses patrimoniais),
criaram as leis, os documentos e até os cargos
de historiadores oficiais.


Nos compêndios de história
não há povo, falta o carnaval das gerais.
Somente existe a multidão
de reis, imperadores e generais. 



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras





SÁFICA

A Junito Brandão


Sou aquele que te escutou e te viu,
para ciúmes de Safo cuja voz
tinha a forma triste de uma alma talvez
trêmula demais.


Sou igual aos deuses, maior até: sou
quem te lê nas dobras da língua, no som
deste carme feito para Lésbia, ao sol
deste amor tão só.


Sou também aquele que pôs nos braços
de Lídia o mais vívido amor, aquele
que esqueceu a túnica belicosa
no auge da paixão.


E sou agora o signo desse cisne
cuja plumagem lírica sustenta
a vastidão do tempo.
Queira Apolo 
dourar meu canto para além de mim.




Gilberto Mendonça Teles



C’ANTIGA


Na corte d’amor eu sofro, coitado.
Pecador eu fui por não ter fisgado
a maior paixão.


Por não ter cruzado a linha d’ambíguo
na corte d’amor não fiquei contíguo
à maior paixão.


Na corte d’amor, no meu coito achado,
trovador eu fui mas sem ter provado
a maior paixão.


Por não ter cruzado a linha d’embigo,
na corte d’amor não sofri contigo
a maior paixão. 




Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



TRAGÉDIA DA PIEDADE


namorou-lhe a mulher
assassinou-o
matou-lhe o filho
contraiu núpcias
com a viúva 
e com os direitos
autorais
e alguns galões
abandonou a mulher
e se perdeu nos sertões.



Gilberto Mendonça Teles


HOMOLOGIA


Depois que Cabral atravessou
a montanha de mares nunca dantes
e foi, próspero, educando
as pedras e equinócios dos Andes,


os sete mil e quinhentos quilômetros de
foram logo substituídos
pelo sete mil e quinhentos quilômetros
de montanhas, índios e vulcões.


Depois que Cabral descobriu
o maritimontanhoso das palavras mais
e foi, prospero, reeducando
o verso decassílabo das pedras,


os cinqüenta milhões de poetas do
foram logo substituídos
por outros cinqüenta milhões 
de montanhas, índios e vulcões. 



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



CENTÃO SIMBOLISTA


cítaras, harpas, bandolins, violinos,
mórbidos, quentes, finos, penetrantes,
carinhos, beijos, lágrimas, desvelos,
desejos, vibrações, ânsias, alentos.


mares, estrelas, tardes, natureza,
inefáveis, edênicos, aéreos,
sinistras, cabalísticas, noturnas,
esferas, gerações sonhando, passam!


sombra, segredo, lágrima, harmonia, 
pálida, bela, escultural, clorótica,
atra, sinistra, gélida, tremenda,


alvo, sereno, límpido, direito,
amplo, inflamado, mágico, fecundo,
ondula, ondeia, curioso e belo.


Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



Modernismo



No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
Eu sou romântico de corpo e alma,
de dentro e fora,
de alto e baixo, de todo lado: do esquerdo e do direito.
Eu sou romântico de todo o jeito.


Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,
um individualista confesso, que adora luares,
que gosta de piqueniques e noitadas festivas,
mas que vai se esconder no fundo dos restaurantes.


Um sujeito que nesta reta de chegada dos cinqüenta
sente que seu coração bate tão velozmente
que já nem agüenta esperar mais as moças
da geração incerta dos dois mil.


Vejam, por exemplo, a minha carta de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D.Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.


Vejam meus tiques e etiquetas,
meus sapatos engraxados,
meus ternos enleios,
meu gosto pelo passado
e pelos presentes,
minhas cismas,
e raptos.
Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do século


e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.


Gilberto Mendonça Teles
(&cone de sombras, 1986,p.153.)


























E-MAIL



por artes do saci ou da internet
mneu nome se encolheu - virou gilmete

para evitar o golpe da mão-boba
depois do nome digitar @

e continuar mas sem mudar de tom
a conexão de globo. com

como não gosto que me grite ou berre
não é preciso colocar br

São Paulo, 17 de agosto de 2004 

Gilberto Mendonça Teles





MUDEZ



No gesto de quem tem apenas por defesa
o amor, que desconhece os marcos da razão,
tu ficaste a me olhar com tamanha surpresa,
e não disseste si, nem disseste não!

E, como um fauno, a rir, e te sabendo presa,
sentindo junto ao meu bater teu coração,
com volúpia pagã quis manchar-te a pureza,
e não disseste sim, e nem disseste não!

Se houvesse consentido, eu te acharia fútil:
se negasses, decerto eu logo pensaria
que o teu amor cessava, e era um amor inútil.

Foi bom que assim ficasse. Houve mais emoção.
Pois nesse teu silêncio, a minha'alma sentia
que, não dizendo sim, não me disseste não! 


Gilberto Mendonça Teles

LIVRE



Seguias livre como o vento na planície
e as pedras de diluíam, pressentindo
o rumo que tomavas. Cada coisa
repetia teu nome e confundia
os princípios noturnos da linguagem.

Seguias livre como o vento sobre o mar
e só havia no teu gesto aquele
desdenhado silêncio, aquele nunca
acontecido canto, a pura fala
estrangulada nas vogais.

Mas um dia teu canto despertou
as sombras do crepúsculo.
E o pássaro da noite, ouvindo que cantavas,
o teu canto escutou
e, abrindo as asas de veludo,
o pássaro da noite ficou mudo
e um punhado de estrelas te atirou. 

Gilberto Mendonça Teles

O IDEAL



Ó rútila quimera, em vão eu te perscruto.
Esquivas-te de mim, te escondes no Impossível,
nessa longínqua estrela, imensa e inatingível,
que ilumina o infinito arcano do Absoluto.

Ah! Se apagasse um dia esse teu brilho! O bruto,
que na minh’alma existe, em forma do Irascível,
havia de irromper-se e, em bacanal horrível,
tornar-me um triste, um louco, um ser irresoluto.

Centelha divinal, na Dúvida angustiosa
o teu brilho se extingue e na região brumosa
do subconsciente espalha a sombra sorrateira.

Mas, quando o racional revérbero cintila,
a tua imagem volta a me guiar, tranqüila,
como nos céus do Oriente a Estrema mensageira.

Gilberto Mendonça Teles

MARIA



Maria, há tanta Maria
cantando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.

Andei mundo, rodei terra,
cruzei os mares que havia
e, em cada canto da terra,
o amor eu tive, Maria.

Na vida que Deus me deu,
deu-me tudo o que eu queria:
deu-me esperança e me deu
o amor que eu sempre amaria.

Eis por que sempre há Maria
mariando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida. 

Gilberto Mendonça Teles

POEMAS DO LIVRO A ARTE DE AMAR

ORIGEM


Agarro o azul do poema pelo fio
mais delgado de lã de seu discurso
e vou trançando as linhas do relâmpago
nos vidros ilegíveis da janela.

Seu novelo de nuvens reduplica
a concreta visão desse animal
que se enreda em si mesmo, toureando
a púrpura do mito e se exibindo
diante da minha astúcia de momento.

Sou cheio de improviso. Sou portátil.
E sou noite e falácia por impulso
e excesso de acidentes e prodígios.
E agora que há sinais de ressonâncias
sou milícia verbal configurando
a subversão na zona do silêncio.

Todo início é noturno. Todo início
é maior que seu tempo e sua agenda
de imprevistos. Mas todo início aguarda
a visita dos deuses ou demônios.

Há fórmulas polidas nos subúrbios
da fala. Há densidades nos recintos
desprovidos de margens. E nos mínimos
detalhes de ruptura existe um sopro
de solidão que soa nesta vértebra
de audácia e persistência.

Alguém perturba 
o horário de recreio das palavras.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar



RECEITA


Tome a palavra suja,
“cabeluda” e com c’aspas,
essa que tem açúcar
no sangue, e sobretaxa.

Tome a que, sendo escrava
da tribo e do tributo,
mostra no corpo as marcas
de lacre, logro e lucro.

Pode ser a de baixo
calão, a manteúda,
como opção, como cágado,
essa que se disputa

nas feiras, que é falada,
que é falida e que gruda,
tome a palavra chata
tome a palavra chula

e bote tudo às claras
e gema a até misture
coisas de corpo e alma,
de vida e de cultura

e leve ao forno e passe
a forma na gordura,
depois coma e disfarce
os bigodes da gula.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar



PRECE


Ah! meu anjo bom,
meu anjo da guarda,
livrai-me do mal ...
dos maus da vanguarda.

Li tanta mensagem
castiça ou bastarda,
já lancei nos campos
meu grão de mostarda.

Como muita gente
carrego o meu fardo
(meu fardão de glória)
nesta tarde parda.

Mas sei que meu anjo
negro já não tarda,
por isso vos peço,
meu anjo da guarda,

livrai-me de tudo
o que é moda e que arda 
como chama vã
no vão da vanguarda.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar



PROCESSO


A palavra exata
na palavra exígua
e o sinal no ambíguo
da conotação.

A palavra exausta
na palavra em zigue –
e o real contínuo
da denotação.

A palavra ex-ata
na palavra ex-líbris
e o plural no umbigo
da diluição.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O ÍNDIO




Entra e vê como alguém está à espreita, 
como olha de esguelha através da floresta, 
como procura em vão apagar os sinais 
desses touros vermelhos do cotidiano. 

Entra e vê como se cumprirão as escrituras 
de tudo isso que se fez verbo e protocolo 
e que se vai amontoando nos sambaquis 
como relíquias dos filhos de tupã. 

Tudo isso que te faz verbo e protocolo 
e que te vai roendo e te fazendo sonoro: 
harpa de vento pendurada na mangueira, 
santo de pau oco num altar barroco. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)




O índio 


Entra e vê os mil pequenos entraves 
e depois escuta, põe teu ouvido no chão: 
e a música da minha flauta transversa 
ou da minha flauta mambi - 
dessas de índio brasileiro, 
de cócoras, 
distraindo a solidão das borboletas. 

É a música da minha flauta transversa 
que talvez te atravesse e te acorde 
no meio do oceano: 
ela vai demarcar a tua área, 
vai erguer as paredes de tua ocasa, 
reunir teus peixes, bichos, carrapatos, 
curar a tua maleita, tua doença de branco 
e te fazer sonhar com a voz de uma iara 
esquecida numa curva de rio 
ou num grotão de cerrado. 

Mas vai também te vestir de penas, 
como se fosses mesmo o inesperado chefe 
de uma tribo perdida na linguagem. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)



O índio 


Sou mesmo um índio: boto meu ouvido 
no chão e fico assim a tarde inteira, 
quem sabe se até meio distraindo 
na conversa de amor de uma estrangeira. 

Sou capaz de escutar o vôo do inseto 
e a canção da semente germinando; 
meu poder de captar o longiperto 
me transforma em tupã, de vez em quando. 

E eu vejo tudo: o mais pequeno galho 
quebrado numa trilha - um rasto, brecha, 
um aceno de luz, qualquer atalho, 
vulto entre folhas, deslizar de flecha. 

Meto sempre o nariz, descobrindo 
a forma, a cor, o som, algum sinal 
do que ficou sem cheiro, algum resíduo 
do que ficou sem tempo, como um saldo. 

Pelas pontas dos dedos é que enxergo 
o outro lado das coisas - o sem-nível, 
a imagem veludosa com seu verbo, 
seu corte de navalha no invisível. 

Na minha língua o rubro da papoula 
ainda sabe o mel e ainda canta: 
tenho um gosto de sol no céu da boca, 
tenho um travo de beijo na garganta. 

Então sou mesmo um índio: deito o ouvido 
na curva de teu ventre e à tarde inteira 
quem sabe se eu não ando comovido 
um coração batendo à brasileira. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)

NO CURSO DO DIA



Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.


Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.


Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.


Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.


Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.


E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.


Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)

POEMAS DO LIVRO SINTAXE INVISÍVEL


PRIMAVERA


Sei que gostas de flores,
e tenho as mãos vazias.

Sei que amas o poema,
e já não há mais palavras
disponíveis.

E sei que esta noite dormirás
sobre um segredo de flores:
a primavera se irromperá violenta
de teu corpo
e a manhã se agitará nos teus cabelos
flamejantes.



Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


ISENÇÃO


Agora compreendemos a beleza
efêmera das coisas
e já nos preparamos lúcidos
e dispomos de mil caminhos sem bússola
para o nosso desespero.

De muito amar nos perdemos no tempo.
A nossa voz perdeu-se nas cavernas da noite.
De súbito, nos achamos confusos
na direção de auroras que não vimos.

Tudo agora nos anuncia as dimensões do efêmero.
Temos pressa e destruímos as probabilidades
do amor, nas suas inúmeras cavilações.

Temos pressa e nos descobrimos
diante da vida
e a cada instante nos sabemos
vazios de ternura, isentos.

Agora já não temos a eternidade
que pretendíamos para os nossos
gestos silenciosos e sinistramente
disfarçamos
nosso poder de violência e tédio.

Apenas a tristeza de ser nos impele solidária
para o que tão longe permanece
como um sopro noturno de esperança
ou morte.


Gilberto Mendonça Teles
In 'Sintaxe Invisível'


CRISTAL


O tempo de viver tem seu cristal intato,
limpo de toda névoa e de tudo o que é forma
mesmo precária e vã de existir e sonhar.

Que relógio de sol lhe marca a intensidade,
o íntimo viver da contínua linguagem?

Que dia se abrirá como dourada lâmina
no obscuro girassol do amor nas madrugadas?

Mesmo que tudo apague ou dilua no pranto
a presença da morte, e a noite só convoque 
a seu largo silêncio inadiável, como
gritar,gritar que há sempre um outro renascer,
uma esperança além nos desígnios da vida?

Que sombra permanece a não ser esta angústia,
esta tranqüilidade em que as coisas se deixam
conduzir, como um rio à procura de um mar?

Que sonho restará senão o desespero 
de riscar com carvão este breve cristal?


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


DÁDIVA


Tangente à solidão do quarto,
insistes harmoniosa e propagas
teu corpo de animal noturno e belo.

Sol e água, te derramas na cama
e és anca, braços, pernas, a dura
inquietação da noite interrompida.

É preciso invadir a unidade
perfeita de teu ventre.é preciso
respirar teus cabelos repousados.

Eu sei que é preciso anular
as dimensões do tempo em tudo
e em tudo quanto existe em nós
de eternidade ou de humano
sorrir às seduções da morte.

Em breve te incorporar ao sonho
donde vieste e te entregas 
ao silêncio da pura exatidão.

Os cavalos sublime relincharão
nesse momento denso e tenso
de nossas fundas limitações.

Penetrarão a paz rigorosa
que ocultamos felizes na ternura
mais pródiga que a vida considera
no múltiplo existir de uma fruta madura,
uma rosa morrendo ou sombra
flutuante no verde que se perde
na mansidão da tarde.



Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível



O ANJO


Na boca da noite,
na língua da rua,
tu me chamas do ôco
de uma sombra nua.

No riso do vento,
no olho da chuva,
me acenas de dentro
de uma coisa turva.

Envolves meu corpo
no teu mundo de água:
cada vez sou outro
noutro corpo e alma.

Conheço teus passos,
teus gestos conheço,
sobre os meus fracassos
vibra o teu começo.

Sobre o meu silêncio
cresce o teu ruído,
sobre a minha angústia
voa o teu segredo
e acima da noite,
sobre o tempo vivo,
paira o desespero
de teu braço erguido.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível



I


Nem a noite desfaz a conveniência
absurda de chorar, nem disfarçamos
no rumor das estrelas camufladas
nossa origem de fogo e primavera.
No vértice do tempo sobrevive
a grande solidão de nossos passos
perdidos, como a chuva, nos extremos
desta terra sem vento e ressonâncias.
Além do acaso, consultamos tímidos
os contornos das nuvens debruçadas
e nos rimos da vida, enquanto pássaros
submersos nestas águas sem naufrágio
e estranhos neste exílio transitório
que os prodígios da noite amadurecem.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


X


Não morrerás em mim.
Não morrerás
assim como uma sombra na distância,
o vento no horizonte e, nas manhãs,
a alegria mais pura que inventamos.
Serás presente em tudo e viverás
o segredo de todos os momentos.
Todas as coisas gritarão teu nome
e o silêncio mais puro, o mais sutil,
aquele que mais dói e acende as noites
e o ser profundamente intranquiliza 
- este restituirá o movimento,
a eternidade viva de teus passos
e a certeza mais limpa de que nunca
tu morrerás em mim.
Não morrerás.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


CANTIGA


Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda

Há tanto silêncio
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavra vida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
- Alguém docemente
pensará na vida.

Guilherme Mendonça Teles
In 'Sintaxe Invisível'











GILBERTO MENDONÇA TELES




“Meu encontro com a poesia (se é que realmente a encontrei, pois me
 vejo sempre em busca) deve ter mesmo o seu “como” e o seu “quando”,
 como tudo  que é submetido a uma apreciação histórica. No entanto,
 nas autobiografias  (e uma entrevista não deixa de o ser), não 
parece haver apenas um “como” e um “quando”, pois eles se encadeiam
 numa seqüência de acontecimentos simultâneos e crescentes, em
 forma de desejo indefinido e de esperança confusa e, com o tempo,
 se consolidam num projeto de vida, o qual, ao lado de outros
 projetos de vida, acabam por se transformar no mais importante,
 naquele sem o qual é impossível o absoluto da vida.”

{...]

Cada poema tem sua história ou sua estória. Cada um responde a
 estímulos  diferentes. Há os que chegam por intermédio de uma
 palavra, pela impressão  de um tema; os que são motivados por
 uma forte emoção ou por uma pequena  emoção obsessiva; os que
 chegam espontaneamente pelo simples impulso de  escrever; e
 há até os que são encomendados, tipo “Escreve um poema para
 mim”. Então, o que precede à elaboração de um poema é UM ESTADO
 DE CULTURA POÉTICA, uma, digamos, competência para escrevê-lo.”


Excerto de entrevista ao jornalista 
Luiz Alberto Machado















CHÁ DAS CINCO



para Jorge Amado 

Chá de poejo para o teu desejo 
chá de alfavaca já que a carne é fraca 
chá de poaia e rabo de saia 
chá de erva-cidreira se ela for solteira 
chá de beldroega se ela foge ou nega 
chá de panela para as coisas dela 
chá de alecrim se ela for ruim 
chá de losna se ela late ou rosna 
chá de abacate se ela rosna ou late 
chá de sabugueiro para ser ligeiro 
chá funcho quando houver caruncho 
chá de trepadeira para a noite inteira 
chá de boldo se ela pedir soldo 
chá de confrei se ela for de lei 
chá de macela se não for donzela 
chá de alho para um ato falho 
chá de bico quando houve fuxico 
chá de sumiço quando houver enguiço 
chá de estrada se ela for casada 
chá de marmelo quando houver duelo 
chá de douradinha se ela for gordinha 
chá de fedegoso pra mijar gostoso 
chá de cadeira para a vez primeira 
chá de jalapa quando for no tapa 
chá de catuaba quando não se acaba 
chá de jurema se exigir poema 
chá de hortelã e até amanhã 
chá de erva-doce e acabou-se 

(pelo sim pelo não 
chá de barbatimão) 


Gilberto Mendonça Teles


OBRAS DE GILBERTO MENDONÇA TELES




* Alvorada (1955)
* Estrela D'alva (1956)
* Planície (1958)
* Fábula de fogo (1961)
* Pássaro de pedra (1962)
* Sintaxe invisível (1967)
* La palabra perdida, antologia (1967) (Escrito em espanhol)
* A Raiz da Fala (1972)
* A Arte de Armar (1972)
* Poemas reunidos (1978)
* A Retórica do Silêncio (1979)
* Saciologia Goiana (1982)
* Plural de nuvens (1984)
* Estudos de Poesia Brasileira (1985)
* A Crítica e o Romance de 30 no Nordeste (1990)
* Falavra (1990)
* L'animal (1990) (Escrito em espanhol)
* Nominais (1993)
* A Crítica e o Princípio do Prazer (1995)
* E cone e sombras (1995)
* A Escrituração da Escrita (1996)
* Sonetos (1998)
* Casa de Vidro (1999)
* Caixa de Fósforo (1999)
* Álibis (2000)



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No curso do dia

Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.


Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.


Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.


Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.


Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.


E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.


Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

CENTÃO SIMBOLISTA


cítaras, harpas, bandolins, violinos,
mórbidos, quentes, finos, penetrantes,
carinhos, beijos, lágrimas, desvelos,
desejos, vibrações, ânsias, alentos.


mares, estrelas, tardes, natureza,
inefáveis, edênicos, aéreos,
sinistras, cabalísticas, noturnas,
esferas, gerações sonhando, passam!


sombra, segredo, lágrima, harmonia,
pálida, bela, escultural, clorótica,
atra, sinistra, gélida, tremenda,


alvo, sereno, límpido, direito,
amplo, inflamado, mágico, fecundo,
ondula, ondeia, curioso e belo.



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras
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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

EU TE ESPERO



Eu sempre te esperei.
Eu sempre te esperei em uma nuvem de neve
tão diáfana e sutil, tão vaporosa e leve
e, num halo de luz, vinda de onde não sei,
Eu sempre te esperei.
E eu sei que tu virás.
E eu sei que tu virás num sonho alucinado,
na brancura de paz de um silêncio ondulado
e, suave como um luar de finos tafetás,
eu sei que tu virás.
E nem sei quando vens.
E nem sei quando vens. O tempo é um hiato.
Só o amor é verdade, e tudo o mais, abstrato.
Só o amor é que encerra o supremo dos bens,
e nem sei quando vens.
Mas te espero feliz.
Mas te espero feliz e entre anseios te aguardo.
Hás de chegar um dia e nessa espera eu ardo.
Sempre, por toda a vida (é minha alma que o diz)
Te esperarei feliz.


Gilberto Mendonça Teles
(HORA ABERTA - poemas reunidos - Ed. Vozes, 2003)

DO LIVRO POEMAS REUNIDOS

Madrugada 


Ainda há estrelas no céu, tremelicando, tontas,
e a manhã já vem vindo, indolente e indecisa,
até que o passaredo o concerto organiza
para esperar-te, ó sol, que dos longes despontas.

Um rego d'água corre e um vento brando alisa
as franças do capim ridente,em cujas pontas
o orvalho da manhã esplende como as contas
de explêndido cristal que o sol, beijando , irisa.

As aves cantam numa alegria incontida;
a terra cheia, ri-se o capinzal molhado;
e toda a natureza é um hálito de vida.

E de há muito que está o caboclo de pé,
olhando, preguiçoso, e no sonho abismado,
a fumaça a subir do rancho de sapé.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



Simplicidade

Tudo é tão simples nesta vida e fica
às vezes tão confuso ou tão bisonho
que a linguagem das coisas se duplica
ante os olhos atônitos de sonho.
E essa simplicidade, clara e rica
de sensações indefiníveis, ponho
no pensamento real que frutifica
na ambiguidade em que me decomponho.
Mas o cenário vai mudando. E a vida 
se lança calma e convenientemente
na foz do tempo. E eu continuo , a esmo,
minha jornada interrompida,
procurando o horizonte inexistente
na planície impossível de mim mesmo.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

IV

Há na espera um prenúncio de incerteza
sobre a alegria que não sei mais terna.
Tudo me leva a ti, e eu sigo mesmo
tocando estrelas cada vez mais perto.

Não desconheço a exatidão da noite
nem o horizonte que te ausenta sempre.
Um dia acordarei para teu corpo
e só ternura de palavras entre

os teus cabelos te direi, de encanto.
Minha linguagem rútila terá
a eternidade que terei, cantando.

E tudo o mais será como o silêncio
pesando sobre a noite, a noite e o campo,
e o campo que não mais se esquecerá.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


MELODIAS


Ternas melodias de longínquas plagas,
nas manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas terras vindes me encontrar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância do poema, no ar?

Ou vindes dos astros - de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha;
são as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha

Essas melodias que a minh'alma douram ,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



HINO AO SONO


À noite, quando sinto o meu corpo sentindo
a fadiga, o cansaço e o tédio do trabalho,
tu vens, ó sono bom, vens lentamente vindo
enrolar-me na lã do teu fluido agasalho.

E, como uma flor branca embebida de orvalho,
a suave languidez de tua alma se diluindo
cobre todo o meu ser e no teu ser me espalho
como um som que se escuta a ampliar-se, sumindo...

Em ti, como num mar distante, cujas águas
refletissem a dor , as tristezas e as mágoas
de quem de cedo tivesse o desprezo da sorte,

todo o meu ser se abisma, ansioso, e se evapora!
Porque tu és, ó sono, essa essência sonora
tranquilizante a vida poetizando a morte.


Gilberto M.Teles
In Poemas Reunidos


POEMA


De ti me vem esta alegria pura,
singela como o som de flauta rústica,
irradiante como o sol
na manhã rumorosa,
cheia de orvalhos,
cheia de pássaros,
cheia de luz
e da ansiedade imensa
de completar
o amor!

De ti me vem esta alegria silenciosa
e inexplicável de saber que vivo
na cadência feliz da sintonia
universal dos elementos.
De ti me vem
o sussuro das vozes sonorosas
e a linguagem inefável
deste amor.

De ti me vem esta alegria
de ser livre e de estar sozinho te esperando
nalgumas dessas ilhas afastadas,
perdidas no Pacífico do Sonho.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos

CANTIGA I

Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda 
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda.

Há tanto silêncio,
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavravida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
-Alguém docemente
pensará na vida.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


CANTIGA III


Soprei na esquina do vento
a condição do meu canto:
- "Que os homens todos me entendam!"
Mas, como um rio em silêncio,
fui-me no tempo ocultando.

Era preciso, e falei.
Gritei as minhas palavras.
Tinha esperança, e de lei.
E hoje, cansado, nem sei
se alguém, de longe, escutava.

Surpreendo agora na curva
repentina do planalto
a noite que vem na chuva
de uma tristeza tão muda
que nem sei mais o que faço.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos


HINO À NOITE

Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei contigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos







do livro PLURAL DE NUVENS



LUDUS


Tolle, lege. 
Santo Agostinho

Toma a palavra, e principia. Tudo 
tem um pouco de ti: um sol, um sema. 
No fundo, teu desejo:
............................. lodo e ludo, 
jogo de truque e blefe de poema.

Toma este livro, toma e lê (ou lege);
não só um tomo, a obra inteira soma 
à solidão maior que te protege 
como um corpo de baile no idioma.

E toma ao pé da letra o que combina 
com teu gosto e prazer:
............................. o cimo, a suma 
de todos os sabores,
............................. vitamina, 
quintessência final de coisa alguma.

Gilberto Mendonça Teles
In 'Plural de Nuvens’(1990)


AQUI E AGORA


Procuro o aqui e o agora, 
o agoraqui, o que já foi 
e continua: a cor de outrora 
no couro curtido de um boi.

Procuro o que está sendo, 
o que se acende, o que se apaga,
o acontecido acontecendo, 
sombra de peixe fora d'água.

Procuro o que figura
no que perdi te procurando,
o que se gastou na usura
do que me vem de vez em quando.

Procuro o que projeto 
além de mim, no que me sobra: 
talvez a sombra de um inseto 
na plantação da minha obra.

Procuro o procurar-te, 
o que sempre fiz e não sei. 
Talvez o aqui e o agora, a parte 
do que ficou fora da lei.

Gilberto Mendonça Teles
In ‘Plural de Nuvens’(1990)



PLURAL DE NUVENS


Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


SIGNO

Ainda existe a rosa nos cabelos 
vermelhos da poesia.


Ainda há força 
no azul do seu mistério, no seu canto,
no eixo de sua aérea encruzilhada.


Ainda, a sua origem, seu mais íntimo
silêncio: o veludoso ardor das pétalas,
o aroma das amoras no políndromo,
das palavras de aladas peripécias.


Ainda, esta morada, o seu precioso
espaço interior, o alumbramento
da forma em desatino, a descontínua 
perspectiva do ser na travessia.


Ainda, a sua angústia, o novo tempo
se exaurindo nas coisas, lapidando
os favos da romã e consumindo
seu avesso de fogo e sutilezas.


E ainda a sua imagem:
lago, espelho,
alma e corpo submerso, o indelével
estribilho do amor e seu disfarce,
e seus pontos de cruz na superfície.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens















CANTIGA



Se vives dentro da noite
como uma estrela , a brilhar,
eu vou pela noite a dentro
no meu silêncio, a sonhar.

(Alguém haverá que impeça
um sonhador de sonhar?
E essas palavras comuns,
não são também para usar?)

Estendo as mãos: a distância
se interpõe.Fico a pensar:
por que as estrelas são tantas?
Por que não posso voar?

Gilberto Mendonça Teles
In 'Poemas'


CHUVA



Era uma chuva tão pura
mas tão triste e fina e fria.
Era uma cinza de inverno,
fumaça de água,
fatia
ou faca de aço nas árvores,
chagando a terra macia,
pondo lodo nos caminhos,
angústia no que se via.
Tristeza brava,
de chumbo,
cavalo azul que mordia
a tarde,
o campo,
a distância
nos pastos da ventania.
Seu rato mole,
de sombra,
sulcava o tempo,
dormia
nos pêlos úmidos, cheios
da vida que se escondia
sob o silêncio das pedras,
das raízes, do que havia
longe dos olhos dos homens,
longe dos olhos do dia.


Gilberto Mendonça Teles
In: "Pássaro de Pedra"

DO LIVRO & CONE DE SOMBRAS


TEORIA

1

Minha paixão teórica
é muito mais que paixão;
não está longe nem próxima,
está no ar e no chão.

Tem seu real, mas é órfica
como o sim, como o não;
sua antena parabólica
capta só distração.

Nunca exibe o seu código
livre na palma da mão,
embora sempre erótica
no seu tempo e viração.

Minha paixão teórica
segue o exemplo da inflação:
sobe e desce sem órbita,
é mais que bala – é balão.


Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras


2


Deixe que venha o poema
como um telefonema.

Deixe que o poema venha,
mas ponha fogo e lenha.

Que o poema venha, deixe,
mas com molho no peixe.

De lenha e telefonema,
de peixe e algum dendê,
pode-se ter um poema,
dependendo de você,

que é capaz de ver anjo
voando de mini-saia,
sem se dar conta do arranjo
ou do rabo-de-arraia.


Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras


3


Eu não sei se sou leigo ou laico,
sei que este poema é prosaico.
E sei que em matéria de poema
melhor é não criar problema.

Cada um escreve o que pode:
este aqui tem barba e bigode
e pode até não ter cabelo,
mas não é preciso dizê-lo.

O leitor, que hoje está na moda,
é que deve fazer a poda
e colher o que mais lhe agrade,
mesmo que seja tempestade.

Mas se eu não for laico, for leigo?
E se o meu poema for meigo?
Como é que fica o meu conceito,
se ainda não matei o sujeito?

E acho mesmo que além de tudo
um poema, mesmo sisudo,
pode até ser (tecer faz mal?)
um poema sentimental.

Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras



ENTREMÊS


Poe trás da sombra, a cortina:
por trás, seu palco de susto:
ensaia-se uma obra prima
nas cenas das contraluz.

Pula no centro um fonema,
faz piruletras e ponto.
(No camarim uma pena
procura imitar o tom.)

Cada vogal com seu luxo
de cores e metaplasmos
se enrola num caramujo
para os disfarces nasais.

A seguir as consoantes,
marcando o ritmo de um órgão
se curvam fazendo grandes
acrobacias no chão.

No bastidor as palavras
treinam seus malabarismos:
pernas pretas pernas alvas
jogo de amor nos quadris.

E logo, formando fila,
saltam rindo para o palco,
dançando rock, quadrilha,
puxando seu carnaval,

formando grupos, figuras,
coreografias de gestos,
mil movimentos de agulhas
e de novelos nos pés.

E fazem tudo tão simples,
com a tal perícia e tal arte
que só se escutam os timbres
de seu prazer de cantar.

Depois, em forma de reza,
entre palmas e mãos postas,
alguém prega alguma peça
na ponta deste retrós.

Nas cenas da contraluz,
ensaia-se uma obra-prima;
por trás das sombras, o susto;
por trás do susto, a cortina.


Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras



CANÇÃO

Aquém da fala
a voz resvala
na escuridão:
quer ser figura,
torna-se pura,
ser a canção,
o vento, a praia,
nuvem, cambraia
no céu, no chão,

Mas o que excita
a forma escrita
na minha mão,
o que foi lido
ou pressentido
no sim, no não,
ainda resvala
além da fala
na escuridão.

Gilberto Mendonça Teles
in & Cone de Sombras


CRÍTICA


seu livro tem altos & baixos


os altos ideais & os baixos princípios
as altas qualidades & os baixos instintos
a alta fidelidade & o baixo meretrício
a alta freqüência & o baixo contínuo
o alto da cópula & o baixo da cúpula
o alto cargo & o baixo calão
o alto da boa vista & o baixo leblon
o ponto mais alto & o mais baixo relevo
o alto falante & o baixo falido
o que anda alto & o que pisa baixo
o alto poder de & o baixo costume de

seu livro tem altos & baixos

embora o tenha lido muito por alto
& em baixo astral



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



A Pedra


No princípio e no fim, no vão do meio,
uma pedra nomeia o meu caminho:
dormi como uma pedra ou alguém veio
deixar os meus lençóis em desalinho?

Quem foi que andou pisando a minha vida
e me deixou assim meio de fora,
oscilando em mim mesmo, na medida
em que nomeio o amor, aqui e agora?

No princípio era a pedra e seu instante
de existência sem nome, realidade
carente de sintaxe e vacilante
no seu jeito de ser pela metade.

No meio, além da pedra, a poesia
dessas coisas sem forma, na ante-sala, 
onde nomeio a musa que existia
no chão do nome e no colchão da fala.

No fim, tudo é princípio e o meio é meio
de alguém cavar no pó do pergaminho
um sentido final, talvez um veio
na pedra que nomeia o meu caminho.



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras


VEIA POÉTICA


às três horas da manhã
de uma quarta-feira de cinzas
o poeta olhou mais uma vez
a árvore dourada da existência
fechou o livro de teoria
abriu as veias
e começou a escrever em silêncio
o seu poema definitivo



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



DOCUMENTO


Pego um selo qualquer, uma estampilha
dessas de educação de antigamente,
e dou ao texto um cunho de vigília,
de estado de leitura permanente.

Mas falta-lhe um relógio de ambiente,
falta um jogo de escrita ou de mobília;
e o que se conta nunca está de frente,
tem sempre um jeito oblíquo, de armadilha.

Fosse um papel sem lado, e o meu papel
talvez se sustentasse no apelido,
nalgum nome que se abre como um delta,

como uma linha-d’água, um claro-escuro,
um sinal para ser reconhecido
sem timbre e protocolo, no futuro. 



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



PASSATEMPO


Como num jogo, sem barulho,
escolhemos a parceria,
tomamos nossos lugares
e nos dispusemos à sorte das cartas.

Houve tímidas apostas.
Compramos, descartamos,
discutimos as regras,
mas tudo pelo simples
prazer do passatempo.

Se houve boas jogadas
e algum blefes
(trapaças, talvez),
ainda é cedo para saber.

O certo é que fizemos
21 pontos nesta rodada.
A mesa ainda está disposta
e o jogo continua.

Quem está ganhando/perdendo?
E o baralho agora de quem é?


PS

E este punhal de prata enfincando de longe
bem no centro da mesa?



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



INVEROSSÍMIL


Mais justo é resistir às conveniências
dos sábados, fechar as mãos no fundo
dos bolsos, pôr os olhos o mais baixo
possível,
rastejar,
lamber o chão
e reduzir as margens do real
à lógica do absurdo.

Há sempre alguém envernizando a linha
dura de teu discurso. Há sempre alguém
tentando surpreender a forma aérea
de teu gesto no instante em que modulas
por dentro o teu vazio.

Melhor é resistir: além dos sábados
a vida continua, e seus disfarces.



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras




SUBVERSÃO


Nos compêndios de história
desfilam apenas os blocos
de reis, imperadores e generais
que não acabam nunca mais.


Foram sempre justos, belos e bons
e além de tudo geniais:
escreveram seus livros de linhagem
e as nobiliarquias tradicionais.


Para garantir seus direitos divinos
(e seus interesses patrimoniais),
criaram as leis, os documentos e até os cargos
de historiadores oficiais.


Nos compêndios de história
não há povo, falta o carnaval das gerais.
Somente existe a multidão
de reis, imperadores e generais. 



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras





SÁFICA

A Junito Brandão


Sou aquele que te escutou e te viu,
para ciúmes de Safo cuja voz
tinha a forma triste de uma alma talvez
trêmula demais.


Sou igual aos deuses, maior até: sou
quem te lê nas dobras da língua, no som
deste carme feito para Lésbia, ao sol
deste amor tão só.


Sou também aquele que pôs nos braços
de Lídia o mais vívido amor, aquele
que esqueceu a túnica belicosa
no auge da paixão.


E sou agora o signo desse cisne
cuja plumagem lírica sustenta
a vastidão do tempo.
Queira Apolo 
dourar meu canto para além de mim.




Gilberto Mendonça Teles



C’ANTIGA


Na corte d’amor eu sofro, coitado.
Pecador eu fui por não ter fisgado
a maior paixão.


Por não ter cruzado a linha d’ambíguo
na corte d’amor não fiquei contíguo
à maior paixão.


Na corte d’amor, no meu coito achado,
trovador eu fui mas sem ter provado
a maior paixão.


Por não ter cruzado a linha d’embigo,
na corte d’amor não sofri contigo
a maior paixão. 




Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



TRAGÉDIA DA PIEDADE


namorou-lhe a mulher
assassinou-o
matou-lhe o filho
contraiu núpcias
com a viúva 
e com os direitos
autorais
e alguns galões
abandonou a mulher
e se perdeu nos sertões.



Gilberto Mendonça Teles


HOMOLOGIA


Depois que Cabral atravessou
a montanha de mares nunca dantes
e foi, próspero, educando
as pedras e equinócios dos Andes,


os sete mil e quinhentos quilômetros de
foram logo substituídos
pelo sete mil e quinhentos quilômetros
de montanhas, índios e vulcões.


Depois que Cabral descobriu
o maritimontanhoso das palavras mais
e foi, prospero, reeducando
o verso decassílabo das pedras,


os cinqüenta milhões de poetas do
foram logo substituídos
por outros cinqüenta milhões 
de montanhas, índios e vulcões. 



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



CENTÃO SIMBOLISTA


cítaras, harpas, bandolins, violinos,
mórbidos, quentes, finos, penetrantes,
carinhos, beijos, lágrimas, desvelos,
desejos, vibrações, ânsias, alentos.


mares, estrelas, tardes, natureza,
inefáveis, edênicos, aéreos,
sinistras, cabalísticas, noturnas,
esferas, gerações sonhando, passam!


sombra, segredo, lágrima, harmonia, 
pálida, bela, escultural, clorótica,
atra, sinistra, gélida, tremenda,


alvo, sereno, límpido, direito,
amplo, inflamado, mágico, fecundo,
ondula, ondeia, curioso e belo.


Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras



Modernismo



No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
Eu sou romântico de corpo e alma,
de dentro e fora,
de alto e baixo, de todo lado: do esquerdo e do direito.
Eu sou romântico de todo o jeito.


Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,
um individualista confesso, que adora luares,
que gosta de piqueniques e noitadas festivas,
mas que vai se esconder no fundo dos restaurantes.


Um sujeito que nesta reta de chegada dos cinqüenta
sente que seu coração bate tão velozmente
que já nem agüenta esperar mais as moças
da geração incerta dos dois mil.


Vejam, por exemplo, a minha carta de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D.Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.


Vejam meus tiques e etiquetas,
meus sapatos engraxados,
meus ternos enleios,
meu gosto pelo passado
e pelos presentes,
minhas cismas,
e raptos.
Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do século


e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.


Gilberto Mendonça Teles
(&cone de sombras, 1986,p.153.)


























E-MAIL



por artes do saci ou da internet
mneu nome se encolheu - virou gilmete

para evitar o golpe da mão-boba
depois do nome digitar @

e continuar mas sem mudar de tom
a conexão de globo. com

como não gosto que me grite ou berre
não é preciso colocar br

São Paulo, 17 de agosto de 2004 

Gilberto Mendonça Teles





MUDEZ



No gesto de quem tem apenas por defesa
o amor, que desconhece os marcos da razão,
tu ficaste a me olhar com tamanha surpresa,
e não disseste si, nem disseste não!

E, como um fauno, a rir, e te sabendo presa,
sentindo junto ao meu bater teu coração,
com volúpia pagã quis manchar-te a pureza,
e não disseste sim, e nem disseste não!

Se houvesse consentido, eu te acharia fútil:
se negasses, decerto eu logo pensaria
que o teu amor cessava, e era um amor inútil.

Foi bom que assim ficasse. Houve mais emoção.
Pois nesse teu silêncio, a minha'alma sentia
que, não dizendo sim, não me disseste não! 


Gilberto Mendonça Teles

LIVRE



Seguias livre como o vento na planície
e as pedras de diluíam, pressentindo
o rumo que tomavas. Cada coisa
repetia teu nome e confundia
os princípios noturnos da linguagem.

Seguias livre como o vento sobre o mar
e só havia no teu gesto aquele
desdenhado silêncio, aquele nunca
acontecido canto, a pura fala
estrangulada nas vogais.

Mas um dia teu canto despertou
as sombras do crepúsculo.
E o pássaro da noite, ouvindo que cantavas,
o teu canto escutou
e, abrindo as asas de veludo,
o pássaro da noite ficou mudo
e um punhado de estrelas te atirou. 

Gilberto Mendonça Teles

O IDEAL



Ó rútila quimera, em vão eu te perscruto.
Esquivas-te de mim, te escondes no Impossível,
nessa longínqua estrela, imensa e inatingível,
que ilumina o infinito arcano do Absoluto.

Ah! Se apagasse um dia esse teu brilho! O bruto,
que na minh’alma existe, em forma do Irascível,
havia de irromper-se e, em bacanal horrível,
tornar-me um triste, um louco, um ser irresoluto.

Centelha divinal, na Dúvida angustiosa
o teu brilho se extingue e na região brumosa
do subconsciente espalha a sombra sorrateira.

Mas, quando o racional revérbero cintila,
a tua imagem volta a me guiar, tranqüila,
como nos céus do Oriente a Estrema mensageira.

Gilberto Mendonça Teles

MARIA



Maria, há tanta Maria
cantando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.

Andei mundo, rodei terra,
cruzei os mares que havia
e, em cada canto da terra,
o amor eu tive, Maria.

Na vida que Deus me deu,
deu-me tudo o que eu queria:
deu-me esperança e me deu
o amor que eu sempre amaria.

Eis por que sempre há Maria
mariando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida. 

Gilberto Mendonça Teles

POEMAS DO LIVRO A ARTE DE AMAR

ORIGEM


Agarro o azul do poema pelo fio
mais delgado de lã de seu discurso
e vou trançando as linhas do relâmpago
nos vidros ilegíveis da janela.

Seu novelo de nuvens reduplica
a concreta visão desse animal
que se enreda em si mesmo, toureando
a púrpura do mito e se exibindo
diante da minha astúcia de momento.

Sou cheio de improviso. Sou portátil.
E sou noite e falácia por impulso
e excesso de acidentes e prodígios.
E agora que há sinais de ressonâncias
sou milícia verbal configurando
a subversão na zona do silêncio.

Todo início é noturno. Todo início
é maior que seu tempo e sua agenda
de imprevistos. Mas todo início aguarda
a visita dos deuses ou demônios.

Há fórmulas polidas nos subúrbios
da fala. Há densidades nos recintos
desprovidos de margens. E nos mínimos
detalhes de ruptura existe um sopro
de solidão que soa nesta vértebra
de audácia e persistência.

Alguém perturba 
o horário de recreio das palavras.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar



RECEITA


Tome a palavra suja,
“cabeluda” e com c’aspas,
essa que tem açúcar
no sangue, e sobretaxa.

Tome a que, sendo escrava
da tribo e do tributo,
mostra no corpo as marcas
de lacre, logro e lucro.

Pode ser a de baixo
calão, a manteúda,
como opção, como cágado,
essa que se disputa

nas feiras, que é falada,
que é falida e que gruda,
tome a palavra chata
tome a palavra chula

e bote tudo às claras
e gema a até misture
coisas de corpo e alma,
de vida e de cultura

e leve ao forno e passe
a forma na gordura,
depois coma e disfarce
os bigodes da gula.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar



PRECE


Ah! meu anjo bom,
meu anjo da guarda,
livrai-me do mal ...
dos maus da vanguarda.

Li tanta mensagem
castiça ou bastarda,
já lancei nos campos
meu grão de mostarda.

Como muita gente
carrego o meu fardo
(meu fardão de glória)
nesta tarde parda.

Mas sei que meu anjo
negro já não tarda,
por isso vos peço,
meu anjo da guarda,

livrai-me de tudo
o que é moda e que arda 
como chama vã
no vão da vanguarda.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar



PROCESSO


A palavra exata
na palavra exígua
e o sinal no ambíguo
da conotação.

A palavra exausta
na palavra em zigue –
e o real contínuo
da denotação.

A palavra ex-ata
na palavra ex-líbris
e o plural no umbigo
da diluição.

Gilberto Mendonça Teles
in Arte de Amar


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O ÍNDIO




Entra e vê como alguém está à espreita, 
como olha de esguelha através da floresta, 
como procura em vão apagar os sinais 
desses touros vermelhos do cotidiano. 

Entra e vê como se cumprirão as escrituras 
de tudo isso que se fez verbo e protocolo 
e que se vai amontoando nos sambaquis 
como relíquias dos filhos de tupã. 

Tudo isso que te faz verbo e protocolo 
e que te vai roendo e te fazendo sonoro: 
harpa de vento pendurada na mangueira, 
santo de pau oco num altar barroco. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)




O índio 


Entra e vê os mil pequenos entraves 
e depois escuta, põe teu ouvido no chão: 
e a música da minha flauta transversa 
ou da minha flauta mambi - 
dessas de índio brasileiro, 
de cócoras, 
distraindo a solidão das borboletas. 

É a música da minha flauta transversa 
que talvez te atravesse e te acorde 
no meio do oceano: 
ela vai demarcar a tua área, 
vai erguer as paredes de tua ocasa, 
reunir teus peixes, bichos, carrapatos, 
curar a tua maleita, tua doença de branco 
e te fazer sonhar com a voz de uma iara 
esquecida numa curva de rio 
ou num grotão de cerrado. 

Mas vai também te vestir de penas, 
como se fosses mesmo o inesperado chefe 
de uma tribo perdida na linguagem. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)



O índio 


Sou mesmo um índio: boto meu ouvido 
no chão e fico assim a tarde inteira, 
quem sabe se até meio distraindo 
na conversa de amor de uma estrangeira. 

Sou capaz de escutar o vôo do inseto 
e a canção da semente germinando; 
meu poder de captar o longiperto 
me transforma em tupã, de vez em quando. 

E eu vejo tudo: o mais pequeno galho 
quebrado numa trilha - um rasto, brecha, 
um aceno de luz, qualquer atalho, 
vulto entre folhas, deslizar de flecha. 

Meto sempre o nariz, descobrindo 
a forma, a cor, o som, algum sinal 
do que ficou sem cheiro, algum resíduo 
do que ficou sem tempo, como um saldo. 

Pelas pontas dos dedos é que enxergo 
o outro lado das coisas - o sem-nível, 
a imagem veludosa com seu verbo, 
seu corte de navalha no invisível. 

Na minha língua o rubro da papoula 
ainda sabe o mel e ainda canta: 
tenho um gosto de sol no céu da boca, 
tenho um travo de beijo na garganta. 

Então sou mesmo um índio: deito o ouvido 
na curva de teu ventre e à tarde inteira 
quem sabe se eu não ando comovido 
um coração batendo à brasileira. 

Gilberto Mendonça Teles 
In ‘Hora aberta’ (1986)

NO CURSO DO DIA



Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.


Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.


Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.


Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.


Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.


E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.


Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)

POEMAS DO LIVRO SINTAXE INVISÍVEL


PRIMAVERA


Sei que gostas de flores,
e tenho as mãos vazias.

Sei que amas o poema,
e já não há mais palavras
disponíveis.

E sei que esta noite dormirás
sobre um segredo de flores:
a primavera se irromperá violenta
de teu corpo
e a manhã se agitará nos teus cabelos
flamejantes.



Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


ISENÇÃO


Agora compreendemos a beleza
efêmera das coisas
e já nos preparamos lúcidos
e dispomos de mil caminhos sem bússola
para o nosso desespero.

De muito amar nos perdemos no tempo.
A nossa voz perdeu-se nas cavernas da noite.
De súbito, nos achamos confusos
na direção de auroras que não vimos.

Tudo agora nos anuncia as dimensões do efêmero.
Temos pressa e destruímos as probabilidades
do amor, nas suas inúmeras cavilações.

Temos pressa e nos descobrimos
diante da vida
e a cada instante nos sabemos
vazios de ternura, isentos.

Agora já não temos a eternidade
que pretendíamos para os nossos
gestos silenciosos e sinistramente
disfarçamos
nosso poder de violência e tédio.

Apenas a tristeza de ser nos impele solidária
para o que tão longe permanece
como um sopro noturno de esperança
ou morte.


Gilberto Mendonça Teles
In 'Sintaxe Invisível'


CRISTAL


O tempo de viver tem seu cristal intato,
limpo de toda névoa e de tudo o que é forma
mesmo precária e vã de existir e sonhar.

Que relógio de sol lhe marca a intensidade,
o íntimo viver da contínua linguagem?

Que dia se abrirá como dourada lâmina
no obscuro girassol do amor nas madrugadas?

Mesmo que tudo apague ou dilua no pranto
a presença da morte, e a noite só convoque 
a seu largo silêncio inadiável, como
gritar,gritar que há sempre um outro renascer,
uma esperança além nos desígnios da vida?

Que sombra permanece a não ser esta angústia,
esta tranqüilidade em que as coisas se deixam
conduzir, como um rio à procura de um mar?

Que sonho restará senão o desespero 
de riscar com carvão este breve cristal?


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


DÁDIVA


Tangente à solidão do quarto,
insistes harmoniosa e propagas
teu corpo de animal noturno e belo.

Sol e água, te derramas na cama
e és anca, braços, pernas, a dura
inquietação da noite interrompida.

É preciso invadir a unidade
perfeita de teu ventre.é preciso
respirar teus cabelos repousados.

Eu sei que é preciso anular
as dimensões do tempo em tudo
e em tudo quanto existe em nós
de eternidade ou de humano
sorrir às seduções da morte.

Em breve te incorporar ao sonho
donde vieste e te entregas 
ao silêncio da pura exatidão.

Os cavalos sublime relincharão
nesse momento denso e tenso
de nossas fundas limitações.

Penetrarão a paz rigorosa
que ocultamos felizes na ternura
mais pródiga que a vida considera
no múltiplo existir de uma fruta madura,
uma rosa morrendo ou sombra
flutuante no verde que se perde
na mansidão da tarde.



Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível



O ANJO


Na boca da noite,
na língua da rua,
tu me chamas do ôco
de uma sombra nua.

No riso do vento,
no olho da chuva,
me acenas de dentro
de uma coisa turva.

Envolves meu corpo
no teu mundo de água:
cada vez sou outro
noutro corpo e alma.

Conheço teus passos,
teus gestos conheço,
sobre os meus fracassos
vibra o teu começo.

Sobre o meu silêncio
cresce o teu ruído,
sobre a minha angústia
voa o teu segredo
e acima da noite,
sobre o tempo vivo,
paira o desespero
de teu braço erguido.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível



I


Nem a noite desfaz a conveniência
absurda de chorar, nem disfarçamos
no rumor das estrelas camufladas
nossa origem de fogo e primavera.
No vértice do tempo sobrevive
a grande solidão de nossos passos
perdidos, como a chuva, nos extremos
desta terra sem vento e ressonâncias.
Além do acaso, consultamos tímidos
os contornos das nuvens debruçadas
e nos rimos da vida, enquanto pássaros
submersos nestas águas sem naufrágio
e estranhos neste exílio transitório
que os prodígios da noite amadurecem.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


X


Não morrerás em mim.
Não morrerás
assim como uma sombra na distância,
o vento no horizonte e, nas manhãs,
a alegria mais pura que inventamos.
Serás presente em tudo e viverás
o segredo de todos os momentos.
Todas as coisas gritarão teu nome
e o silêncio mais puro, o mais sutil,
aquele que mais dói e acende as noites
e o ser profundamente intranquiliza 
- este restituirá o movimento,
a eternidade viva de teus passos
e a certeza mais limpa de que nunca
tu morrerás em mim.
Não morrerás.


Gilberto Mendonça Teles
In Sintaxe Invisível


CANTIGA


Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda

Há tanto silêncio
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavra vida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
- Alguém docemente
pensará na vida.

Guilherme Mendonça Teles
In 'Sintaxe Invisível'











GILBERTO MENDONÇA TELES




“Meu encontro com a poesia (se é que realmente a encontrei, pois me
 vejo sempre em busca) deve ter mesmo o seu “como” e o seu “quando”,
 como tudo  que é submetido a uma apreciação histórica. No entanto,
 nas autobiografias  (e uma entrevista não deixa de o ser), não 
parece haver apenas um “como” e um “quando”, pois eles se encadeiam
 numa seqüência de acontecimentos simultâneos e crescentes, em
 forma de desejo indefinido e de esperança confusa e, com o tempo,
 se consolidam num projeto de vida, o qual, ao lado de outros
 projetos de vida, acabam por se transformar no mais importante,
 naquele sem o qual é impossível o absoluto da vida.”

{...]

Cada poema tem sua história ou sua estória. Cada um responde a
 estímulos  diferentes. Há os que chegam por intermédio de uma
 palavra, pela impressão  de um tema; os que são motivados por
 uma forte emoção ou por uma pequena  emoção obsessiva; os que
 chegam espontaneamente pelo simples impulso de  escrever; e
 há até os que são encomendados, tipo “Escreve um poema para
 mim”. Então, o que precede à elaboração de um poema é UM ESTADO
 DE CULTURA POÉTICA, uma, digamos, competência para escrevê-lo.”


Excerto de entrevista ao jornalista 
Luiz Alberto Machado















CHÁ DAS CINCO



para Jorge Amado 

Chá de poejo para o teu desejo 
chá de alfavaca já que a carne é fraca 
chá de poaia e rabo de saia 
chá de erva-cidreira se ela for solteira 
chá de beldroega se ela foge ou nega 
chá de panela para as coisas dela 
chá de alecrim se ela for ruim 
chá de losna se ela late ou rosna 
chá de abacate se ela rosna ou late 
chá de sabugueiro para ser ligeiro 
chá funcho quando houver caruncho 
chá de trepadeira para a noite inteira 
chá de boldo se ela pedir soldo 
chá de confrei se ela for de lei 
chá de macela se não for donzela 
chá de alho para um ato falho 
chá de bico quando houve fuxico 
chá de sumiço quando houver enguiço 
chá de estrada se ela for casada 
chá de marmelo quando houver duelo 
chá de douradinha se ela for gordinha 
chá de fedegoso pra mijar gostoso 
chá de cadeira para a vez primeira 
chá de jalapa quando for no tapa 
chá de catuaba quando não se acaba 
chá de jurema se exigir poema 
chá de hortelã e até amanhã 
chá de erva-doce e acabou-se 

(pelo sim pelo não 
chá de barbatimão) 


Gilberto Mendonça Teles


OBRAS DE GILBERTO MENDONÇA TELES




* Alvorada (1955)
* Estrela D'alva (1956)
* Planície (1958)
* Fábula de fogo (1961)
* Pássaro de pedra (1962)
* Sintaxe invisível (1967)
* La palabra perdida, antologia (1967) (Escrito em espanhol)
* A Raiz da Fala (1972)
* A Arte de Armar (1972)
* Poemas reunidos (1978)
* A Retórica do Silêncio (1979)
* Saciologia Goiana (1982)
* Plural de nuvens (1984)
* Estudos de Poesia Brasileira (1985)
* A Crítica e o Romance de 30 no Nordeste (1990)
* Falavra (1990)
* L'animal (1990) (Escrito em espanhol)
* Nominais (1993)
* A Crítica e o Princípio do Prazer (1995)
* E cone e sombras (1995)
* A Escrituração da Escrita (1996)
* Sonetos (1998)
* Casa de Vidro (1999)
* Caixa de Fósforo (1999)
* Álibis (2000)



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No curso do dia

Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.


Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.


Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.


Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.


Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.


E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.


Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

CENTÃO SIMBOLISTA


cítaras, harpas, bandolins, violinos,
mórbidos, quentes, finos, penetrantes,
carinhos, beijos, lágrimas, desvelos,
desejos, vibrações, ânsias, alentos.


mares, estrelas, tardes, natureza,
inefáveis, edênicos, aéreos,
sinistras, cabalísticas, noturnas,
esferas, gerações sonhando, passam!


sombra, segredo, lágrima, harmonia,
pálida, bela, escultural, clorótica,
atra, sinistra, gélida, tremenda,


alvo, sereno, límpido, direito,
amplo, inflamado, mágico, fecundo,
ondula, ondeia, curioso e belo.



Gilberto Mendonça Teles
In: & Cone de Sombras