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sábado, 19 de janeiro de 2013
''Depois de tudo''
Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.
Cassiano Ricardo
''Ficaram-me as penas''
"O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.
A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos."
Cassiano Ricardo
'Relógio'
Diante de coisa tão doida
conservemo-nos serenos
cada minuto de vida
Nunca é mais, é sempre menos
Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser
Desde o instante em que nasce
Já se começa a morrer.
Cassiano Ricardo
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
SÓ ME RESTA CANTAR
(Tela de Edmund Greacen)
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
Recebido de minha querida amiga Dione Coppi.
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
Recebido de minha querida amiga Dione Coppi.
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''Depois de tudo''
Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.
Cassiano Ricardo
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''Ficaram-me as penas''
"O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.
A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos."
Cassiano Ricardo
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'Relógio'
Diante de coisa tão doida
conservemo-nos serenos
cada minuto de vida
Nunca é mais, é sempre menos
Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser
Desde o instante em que nasce
Já se começa a morrer.
Cassiano Ricardo
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
SÓ ME RESTA CANTAR
(Tela de Edmund Greacen)
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
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Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
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