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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
''O ETERNO AUSENTE''
A hora de partir foi tão inesperada!
Fechaste mansamente as portas da morada
E partiste.
Numa orgia floral, chegava a primavera,
Enchendo todo o céu de risadas de luz.
Por certo, o seu rumor feriu tua alma triste
Cerraste mansamente as portas da morada
E partiste.
Helena Kolody
de Musica Submersa
[Tela de Eugène-Henri Cauchois]
domingo, 8 de setembro de 2013
NÃO ERA ISSO
Não.
Não era isso.
O que eu queria dizer
era tão alto
e tão longe
que nem conseguiu soletrar
suas palavras-estrelas.
Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível
PALAVRAS
Aluviões de palavras
corroem as cordilheiras.
Densas nuvens de palavras
limitam os horizontes.
Os batalhões de palavras
concentram as agressões.
Há loucura de palavras
a brotar por entre as pedras
de inumeráveis caminhos.
Ao passarem as palavras,
brilhará, límpido e eterno,
o Verbo esquecido.
Helena Kolody
In: Sinfonia da vida
A MIRAGEM NO CAMINHO
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).
Helena Kolody,
in Viagem no Espelho
LOUCURA LÚCIDA
Pairo, de súbito,
noutra dimensão
Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.
Helena Kolody,
in Viagem no Espelho
INFINITO PRESENTE
Estou sempre em viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge de passagem
Helena Kolody,
in Viagem Submersa
NUNCA E SEMPRE
Sempre cheguei tarde
ou cedo demais.
Não vi a felicidade acontecer.
Nunca floresceram
em minha primavera
as rosas que sonhei colher..
Mas sempre os passarinhos
cantaram e fizeram ninhos
pelos beirais
do meu viver.
Helena Kolody
in Sinfonia da vida
O SENTIDO SECRETO DA VIDA
Há um sentido profundo
Na superficialidade das coisas,
Uma ordem inalterável
No caos aparente dos mundos.
Vibra um trabalho silencioso e incessante
Dentro da imobilidade das plantas:
No crescer das raízes,
No desabrochar das flores,
No sazonar das frutas.
Há um aperfeiçoamento invisível
Dentro do silêncio de nosso Eu:
Nos sentimentos que florescem,
Nas idéias que voam,
Nas mágoas que sangram.
Uma folha morta
Não cai inutilmente.
A lágrima não rola em vão.
Uma invisível mão misericordiosa
Suaviza a queda da folha,
Enxuga o pranto da face.
Helena Kolody
in Correnteza
IDENTIFICAÇÃO
Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.
Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.
Helena Kolody,
in Paisagem Interior
RESSONÂNCIA
Deixa-me ser a gruta à beira-mar,
Longamente a ressoar de Teu rumor eterno.
Helena Kolody
in Viagem no Espelho
VIAGEM
Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.
Helena Kolody,
In luz Infinita
TRISTEZA DAS MÃOS
Choram em silêncio a dor de envelhecer.
Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.
Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!
Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.
Tímidas mãos que se apagam na sombra!
Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.
Velhas mãos solitárias,
Como dói recordar!
Helena Kolody,
de Correnteza
TRANSFIGURAÇÃO
Numa luz verde, velada,
contra o céu de opala e nácar,
os arranha-céus,
ao anoitecer,
são estalagmites
em gruta de bruma,
onde gotejam estrelas.
Helena Kolody
in Viagem no Espelho
SINFONIA DA VIDA
Seu livro de estréia, Paisagem interior, publicado em 1941,
contém 45 poemas, três dos quais são haicais.
Alguns dos poemas deste primeiro livro foram depois
retrabalhados por Helena, conforme pode-se ver em edições
posteriores reunindo suas obras. O seguinte depoimento,
transcrito na antologia Sinfonia da Vida (1997),
é significativo:
Antigamente, eu me derramava em palavras. Um dia,
o Dr. Andrade Muricy, um paranaense que era crítico de
arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me: “Você vai muito
melhor no poema curto. Você quer encompridar e,
às vezes, dilui o poema ou se repete. Você tem talento
para a síntese”. Daí em diante, comecei a cortar os
excedentes, deixando só o sumo, o essencial.
TRISTEZA DAS MÃOS
Capa da primeira edição de ‘Correnteza’ 1.977
Choram em silêncio a dor de envelhecer.
Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.
Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!
Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.
Tímidas mãos que se apagam na sombra!
Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.
Velhas mãos solitárias,
Como dói recordar!
Helena Kolody
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013
''O ETERNO AUSENTE''
A hora de partir foi tão inesperada!
Fechaste mansamente as portas da morada
E partiste.
Numa orgia floral, chegava a primavera,
Enchendo todo o céu de risadas de luz.
Por certo, o seu rumor feriu tua alma triste
Cerraste mansamente as portas da morada
E partiste.
Helena Kolody
de Musica Submersa
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NÃO ERA ISSO
Não.
Não era isso.
O que eu queria dizer
era tão alto
e tão longe
que nem conseguiu soletrar
suas palavras-estrelas.
Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível
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PALAVRAS
Aluviões de palavras
corroem as cordilheiras.
Densas nuvens de palavras
limitam os horizontes.
Os batalhões de palavras
concentram as agressões.
Há loucura de palavras
a brotar por entre as pedras
de inumeráveis caminhos.
Ao passarem as palavras,
brilhará, límpido e eterno,
o Verbo esquecido.
Helena Kolody
In: Sinfonia da vida
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A MIRAGEM NO CAMINHO
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.
(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).
Helena Kolody,
in Viagem no Espelho
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LOUCURA LÚCIDA
Pairo, de súbito,
noutra dimensão
Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.
Helena Kolody,
in Viagem no Espelho
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INFINITO PRESENTE
Estou sempre em viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge de passagem
Helena Kolody,
in Viagem Submersa
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Helena Kolody
NUNCA E SEMPRE
Sempre cheguei tarde
ou cedo demais.
Não vi a felicidade acontecer.
Nunca floresceram
em minha primavera
as rosas que sonhei colher..
Mas sempre os passarinhos
cantaram e fizeram ninhos
pelos beirais
do meu viver.
Helena Kolody
in Sinfonia da vida
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Helena Kolody
O SENTIDO SECRETO DA VIDA
Há um sentido profundo
Na superficialidade das coisas,
Uma ordem inalterável
No caos aparente dos mundos.
Vibra um trabalho silencioso e incessante
Dentro da imobilidade das plantas:
No crescer das raízes,
No desabrochar das flores,
No sazonar das frutas.
Há um aperfeiçoamento invisível
Dentro do silêncio de nosso Eu:
Nos sentimentos que florescem,
Nas idéias que voam,
Nas mágoas que sangram.
Uma folha morta
Não cai inutilmente.
A lágrima não rola em vão.
Uma invisível mão misericordiosa
Suaviza a queda da folha,
Enxuga o pranto da face.
Helena Kolody
in Correnteza
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Helena Kolody
IDENTIFICAÇÃO
Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a mudez milenária das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei na seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n’alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.
Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloquente,
Mais glorioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.
Helena Kolody,
in Paisagem Interior
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Helena Kolody
RESSONÂNCIA
Deixa-me ser a gruta à beira-mar,
Longamente a ressoar de Teu rumor eterno.
Helena Kolody
in Viagem no Espelho
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Helena Kolody
VIAGEM
Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.
A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.
Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.
Helena Kolody,
In luz Infinita
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TRISTEZA DAS MÃOS
Choram em silêncio a dor de envelhecer.
Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.
Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!
Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.
Tímidas mãos que se apagam na sombra!
Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.
Velhas mãos solitárias,
Como dói recordar!
Helena Kolody,
de Correnteza
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TRANSFIGURAÇÃO
Numa luz verde, velada,
contra o céu de opala e nácar,
os arranha-céus,
ao anoitecer,
são estalagmites
em gruta de bruma,
onde gotejam estrelas.
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SINFONIA DA VIDA
Seu livro de estréia, Paisagem interior, publicado em 1941,
contém 45 poemas, três dos quais são haicais.
Alguns dos poemas deste primeiro livro foram depois
retrabalhados por Helena, conforme pode-se ver em edições
posteriores reunindo suas obras. O seguinte depoimento,
transcrito na antologia Sinfonia da Vida (1997),
é significativo:
Antigamente, eu me derramava em palavras. Um dia,
o Dr. Andrade Muricy, um paranaense que era crítico de
arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me: “Você vai muito
melhor no poema curto. Você quer encompridar e,
às vezes, dilui o poema ou se repete. Você tem talento
para a síntese”. Daí em diante, comecei a cortar os
excedentes, deixando só o sumo, o essencial.
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TRISTEZA DAS MÃOS
Capa da primeira edição de ‘Correnteza’ 1.977
Choram em silêncio a dor de envelhecer.
Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.
Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!
Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.
Tímidas mãos que se apagam na sombra!
Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.
Velhas mãos solitárias,
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