domingo, 8 de novembro de 2009

Flores no caminho



Há flores no caminho
não ando sozinho
Camélia, margaridas, sempre-vivas
rosas sem espinho
semeadas com carinho

No caminho há flores
em meu coração muitos amores

Há flores no caminho
em cada estação um ninho
nos lábios, o paladar do vinho
no leito, a seda e o linho
nas memórias, o frescor do pinho

Certamente há flores no caminho...


Úrsula Avner
(Minas Gerais)
Poema do site da autora; 'A alma da poesia"

sábado, 7 de novembro de 2009

POEMA DA SOLIDÃO



Cada dia que passa, cada dia
que me leva um anseio e que me traz
uma fadiga para o coração,
sinto mais o perfume de poesia,
o êxtase lívido, a pureza e a paz
da minha solidão.

Depois das noites carpideiras,
quando um queimor de lagrimas enxutas
punha goivos na cova das olheiras,
ai! quantas vezes me internei nas grutas
para esconder as faces!
E tive sempre alguém que me guardasse
a entrada como um cão:
minha bravia solidão.

Nos sonhos claros de felicidade,
quando quis estar só para a esperança
de sorrir e viver,
nem mesmo por piedade
me disse que o sorriso também cansa,

nunca toldou de leve o meu prazer
porque sabia que era tudo em vão,
minha profunda solidão.

Nas horas doentes de mormaço,
quando o jardim já deu todas as flores
e as aranhas do tédio, passo a passo,
enchem de teia os templos interiores,
e se pergunta à vida por que é bela,
tenho o consolo da meditação
ao sentir a alma como um barco à vela
no oceano da solidão.

Quando o vulto da morte, sonolento,
pousar à flor da terra essa bandeira
que ergo às nuvens na mão,
- calma, no orgulho do desprendimento,
minha palavra derradeira
quero dizê-la à solidão.



Henriqueta Lisboa
In: Melhores Poemas
De Velário (1930-1935)
(Minas Gerais 1901-1985)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

ÂNSIA VERTIGINOSA


Forças que me levais por sobre o Oceano,
Para as fluidas regiões incompreendidas,
Onde se transfigura o ser humano
Na essência misteriosa de outras vidas,


Dai-me, como sabor do ultimo engano,
Neste mundo de graças desmentidas,
A ilusão de sentir-me sobre-humano,
Por estas amplidões indefinidas . . .


Na orgia, aqui, do Sol e das distancias,
Sonho, sentindo uma revoada de ânsias,
Ser chama – asa das ultimas vertigens –


Para, no ar, difundir-me em claridade
E, como o dia – espasmo das origens –
Fecundar de meu ser a Imensidade!



Luis Carlos
In: Amplidão

O SOM DAS ÁGUAS DOCES



Fazer feito o fiel verdureiro:
equilibrar nos ombros largos
dois cestos; ambulante resoluto -
presença diária no pequeno mundo
da enorme fome dos homens simples.

Conferir, compete ao aventureiro:
cada conta pendurar no avental
de quantos aventam saltar,
de inteiro corpo, na tempestade
da afoita vida dos homens simples.

Atentar, cabe àqueles que expiam
tantas perdas; que sonham oceanos
de inéditos pecados ao pé do altar.
Do profano ao sagrado, cabe àqueles
espionar a fantasia dos homens simples.

Avançar, confere venturas a quantos,
atrevidos, gravam nos seixos dos rios
o inominável, o índigo, o quieto Quasar,
e o som dos espíritos das águas doces -
que banha a vida dos homens simples.


Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

d' água que brota na fonte do ser



vou saciar a sede eterna
cantar com a chuva mansa
cambiar sentimentos
tudo que ilumina o sorriso criança

serei as asas
orvalhadas
nas águas cristalinas de suas retinas
gritarei seu nome ao infinito
completar o nada
com o brilho do amanhecer


José Geraldo Neres
(São Paulo)

domingo, 25 de outubro de 2009

"Púrpuras"



Na púrpura do Verso o outro do Sonho ardente,
Fio a fio, teci. Era manhã! Radiava
Em pleno azul meu belo sol adolescente.
E o meu Sonho, a essa luz, resplendia e cantava.

Como a enrediça, a vida, indomada e ascendente,
Por minha mocidade em mil voltas serpeava.
E tudo, no esplendor de um mundo renascente,
Sonoro, multicor, multímodo, vibrava.

Musa, que não gemeu flébil, magoada e langue:
Vivaz, tonto de luz, salta o primeiro verso,
Ao primeiro rebate estuoso do meu sangue.

Ó seivas tropicais! Ó sonoras luxúrias!
Mundo excelso do Sonho, esvoaçando, disperso,
No incontentado ardor dessas rimas purpúreas!


Arthur de Salles
In: ""Sete tons de uma poesia maior "
Uma leitura de Arthur Sales –Cláudio Veiga- Edt. Record 1984

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

ERMO ABSOLUTO



Desiludido da clemência humana,
Para a minha agonia de viver;
Arrastando comigo a caravana
Dos fantasmas que surgem do meu ser,


Busquei a solidão que nunca engana,
Onde, vendo-me virgem do prazer,
A poesia se fez Samaritana,
Para o azul da Amplidão dar-me a beber.


Mas, si eu, antigamente, era tristonho,
Agora, pelo Espaço, em pleno sonho,
Somente, acho extensão para os meus ais!


Somente, ébrio de abismos, quando grito,
Responde-me dos ermos do Infinito,
O silencio das cousas imortais.


Luis Carlos
In: Amplidão
(Rio de Janeiro- 1880-1932)
Membro da ABL

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ALBA



Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
do leste — o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.


Geir Campos
in 'Cantigas de acordar mulher'

MORTE... VIDA...



Se existe um amanhã... Um "logo mais"...
Quem sabe, onde a certeza do momento?
Viver, morrer... É tudo tão fugaz...
Efêmero... Qual é o pensamento.

Se agora, aqui... Em breve o corpo jaz
em meio ao canto triste do lamento.
Os sonhos... São entregues ao jamais...
Os planos... Perdem-se em esquecimento.

O Agora é tua vida, teu instante,
traze bem junto a ti quem é distante,
quem dá sentido a tu'alma, ao teu amor.

Pois só o amor conduz à eternidade,
o mais... O mais é vão, tola vaidade,
que em si traz o vazio, angústia e dor!

- Patricia Neme -

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Trovas



Tudo muda... O tempo avança...
Vai-se a vida...O globo roda,
mas com lastros na esperança,
sonhar nunca sai de moda.

¨¨
Embelezo o meu viver
com sorriso, amor e empenho,
pra jamais vir a perder
os amigos que mantenho!

¨¨
Posso dizer que a esperança
Que a vida faz renascer,
É um mito que não se alcança,
Mas como ajuda a viver...


¨¨
''Como cultivo amizades
e sou bom agricultor,
irão escrever: "SAUDADES",
na campa aonde eu me for.''

Miguel Russowsky

(-21 de jundo de 1.923 + 03 de outubro de 2.009)
Nossas homenagens ao poeta recentemente falecido.