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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Apesar do teu fundo olhar agonizante...



Apesar do teu fundo olhar agonizante,
E dos esgares dos teus últimos arrancos,
E das rugas que tens sobre o morto semblante,
Alma coroada de hibernais cabelos brancos:

Apesar, e talvez por causa disso, diante
De ti houve alguém pasmo, a contemplar-te os flancos
Estrelados, e o manto às virações flutuantes,
E todo esse pavor dos teus olhos estancos...

Mirou-se de alto a baixo, e teve, como tantos,
Um olhar de piedade imortal que te esconde
Em ritmos (até hoje) incessantes de prantos.

Compreendeu-se talvez, pobre alma de remansos
Quietos e tristes, lago imenso que se expande
Para além, para além, cheio de cisnes mansos...


Alphonsus de Guimaraens
in “Poesia Completa” de Alphonsus de Guimaraens,
Editora Nova Aguiar

Tema secular



As velhas ilusões são como um bando
de cisnes a vogar em manso lago:
Seguem suaves, silentes; vão sonhando,
ao condão misterioso de um rei mago...

A tarde é um lírio roxo: o ocaso é brando,
e morre à beira-céu, com o um afago;
a lua, errante arcanjo miserando,
ergue-se então com o seu palor pressago...

Há sombras pelos bosques enluarados,
e nos torreóes do céu vultos humanos
envolvem-se em grinaldas de noivados...

Vêm dias, e vêm meses, e vêm anos:
E os cisnes, em casais de bem casados,
seguem singrando o lago dos enganos...


Alphonsus de Guimaraens
in “Poesia Completa” de Alphonsus de Guimaraens,
Editora Nova Aguia

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O CÉU É SEMPRE O MESMO: AS NOSSAS ALMAS...



O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.


ALPHONSUS DE GUIMARAENS
In:"Obra completa"
(Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O céu é sempre o mesmo: as nossas almas



O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pagem:
Somos felizes só porque morremos.


Alphonsus de Guimaraens
In: 'Obra completa'

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Rosas



Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?


Alphonsus de Guimaraens
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Apesar do teu fundo olhar agonizante...



Apesar do teu fundo olhar agonizante,
E dos esgares dos teus últimos arrancos,
E das rugas que tens sobre o morto semblante,
Alma coroada de hibernais cabelos brancos:

Apesar, e talvez por causa disso, diante
De ti houve alguém pasmo, a contemplar-te os flancos
Estrelados, e o manto às virações flutuantes,
E todo esse pavor dos teus olhos estancos...

Mirou-se de alto a baixo, e teve, como tantos,
Um olhar de piedade imortal que te esconde
Em ritmos (até hoje) incessantes de prantos.

Compreendeu-se talvez, pobre alma de remansos
Quietos e tristes, lago imenso que se expande
Para além, para além, cheio de cisnes mansos...


Alphonsus de Guimaraens
in “Poesia Completa” de Alphonsus de Guimaraens,
Editora Nova Aguiar

Tema secular



As velhas ilusões são como um bando
de cisnes a vogar em manso lago:
Seguem suaves, silentes; vão sonhando,
ao condão misterioso de um rei mago...

A tarde é um lírio roxo: o ocaso é brando,
e morre à beira-céu, com o um afago;
a lua, errante arcanjo miserando,
ergue-se então com o seu palor pressago...

Há sombras pelos bosques enluarados,
e nos torreóes do céu vultos humanos
envolvem-se em grinaldas de noivados...

Vêm dias, e vêm meses, e vêm anos:
E os cisnes, em casais de bem casados,
seguem singrando o lago dos enganos...


Alphonsus de Guimaraens
in “Poesia Completa” de Alphonsus de Guimaraens,
Editora Nova Aguia

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O CÉU É SEMPRE O MESMO: AS NOSSAS ALMAS...



O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.


ALPHONSUS DE GUIMARAENS
In:"Obra completa"
(Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O céu é sempre o mesmo: as nossas almas



O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pagem:
Somos felizes só porque morremos.


Alphonsus de Guimaraens
In: 'Obra completa'

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Rosas



Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?


Alphonsus de Guimaraens