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quinta-feira, 9 de junho de 2011

NESTA SELVA

Nesta selva selvagem,
o homem persegue nuvens que o perseguem.

Neste reino
de insânia, o homem soluça.

O homem soluça: “Deus!” – e o eco tão longe
vai que talvez nem Deus possa escutá-lo.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

'À VONTADE'


Não seja por isto, noite.
Melhor é que desças com toda a tua treva.
As portas se fecharam, ninguém rompe os cadeados,
ninguém estende a chave, e tudo é isolamento.
Mas talvez a ferrugem tenha inutilizado todas as chaves
ou as fechaduras, como se diz habitualmente, se zangaram.


Não seja por isto, todavia.
Melhor é que desças,
imensa ave cega sobre os cegos telhados.
Que agora eu converso moveis hirtos nas salas desertas.
E ouço um canto de pássaro empalhado.
Que agora, se alguém chegasse,
me ouviria dizer nitidamente: “Natanael, o tresloucado.”
E Natanael não está presente, é apenas mais um morto num mundo todo de mortos.


Não seja por isto, noite.
O tempo se esfuma.
As cortinas se agitam
ao vento de outras noites.
Especialmente ao vento de outras noites de noivado.
De núpcias.
Não desta, que é como um corredor que não leva a nenhuma porta,
e dentro do qual nos entrechocamos perplexos e desfigurados.
Não desta que nos acicata e magoa com o seu frio que positivamente não é
daqueles que os vivos toleram,
que emerge de trevas ainda mais densas e crispadas.
Mas não seja por isto, noite.
Se até com os mortos é possível encontrar uma razão qualquer de entendimento,
pelo menos a discreta cumplicidade do silencio,
também contigo que te rompes e te destróis como a polpa de um fruto que apodrece,
também contigo que és como uma velha paralitica de xale negro e vestes esgarçadas,
que te quedas contemplando não se sabe que outra
e espectral cidade.



Não seja por isto, noite.
Melhor é que desças. Com toda a tua treva.
E entre nós – embora ressabiados e feridos – até que poderás ficar à vontade.


Pois de qualquer modo há em ti um frêmito de vôo informulado,
grande ave de asas cegas...


Somos teus, como sabes, todos te pertencemos, constrangidos embora.
Mas não seja por isto.
A casa é tua – como nestes domínios é habito dizer aos amigos –
e poderás ficar à vontade.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

quinta-feira, 1 de abril de 2010

DE ONDE VEM...



De onde vem a fremente
e lúcida euforia
que me faz, de repente,
habitante do dia?


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

É O MAR. . .



É o mar que permanece – é sempre o mar
das esperas, que acende
os olhos,
para no exausto coração deitar
o silencio das praias e das ondas
a lassidão; é o mar que permanece
e faz da solidão da criatura
a solidão da água
que a circunda.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética

ANOITECER NA LAGOA



Os juncos flexíveis contemplam a noite chegar ocultando
o injusto reino dos homens – triste reino dos homens.
A grande sombra vai aos poucos se infiltrando, e com ela um
quase remorso,
a consciência de que tudo, ai de nós! podia ser mais belo.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética
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quinta-feira, 9 de junho de 2011

NESTA SELVA

Nesta selva selvagem,
o homem persegue nuvens que o perseguem.

Neste reino
de insânia, o homem soluça.

O homem soluça: “Deus!” – e o eco tão longe
vai que talvez nem Deus possa escutá-lo.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

'À VONTADE'


Não seja por isto, noite.
Melhor é que desças com toda a tua treva.
As portas se fecharam, ninguém rompe os cadeados,
ninguém estende a chave, e tudo é isolamento.
Mas talvez a ferrugem tenha inutilizado todas as chaves
ou as fechaduras, como se diz habitualmente, se zangaram.


Não seja por isto, todavia.
Melhor é que desças,
imensa ave cega sobre os cegos telhados.
Que agora eu converso moveis hirtos nas salas desertas.
E ouço um canto de pássaro empalhado.
Que agora, se alguém chegasse,
me ouviria dizer nitidamente: “Natanael, o tresloucado.”
E Natanael não está presente, é apenas mais um morto num mundo todo de mortos.


Não seja por isto, noite.
O tempo se esfuma.
As cortinas se agitam
ao vento de outras noites.
Especialmente ao vento de outras noites de noivado.
De núpcias.
Não desta, que é como um corredor que não leva a nenhuma porta,
e dentro do qual nos entrechocamos perplexos e desfigurados.
Não desta que nos acicata e magoa com o seu frio que positivamente não é
daqueles que os vivos toleram,
que emerge de trevas ainda mais densas e crispadas.
Mas não seja por isto, noite.
Se até com os mortos é possível encontrar uma razão qualquer de entendimento,
pelo menos a discreta cumplicidade do silencio,
também contigo que te rompes e te destróis como a polpa de um fruto que apodrece,
também contigo que és como uma velha paralitica de xale negro e vestes esgarçadas,
que te quedas contemplando não se sabe que outra
e espectral cidade.



Não seja por isto, noite.
Melhor é que desças. Com toda a tua treva.
E entre nós – embora ressabiados e feridos – até que poderás ficar à vontade.


Pois de qualquer modo há em ti um frêmito de vôo informulado,
grande ave de asas cegas...


Somos teus, como sabes, todos te pertencemos, constrangidos embora.
Mas não seja por isto.
A casa é tua – como nestes domínios é habito dizer aos amigos –
e poderás ficar à vontade.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

quinta-feira, 1 de abril de 2010

DE ONDE VEM...



De onde vem a fremente
e lúcida euforia
que me faz, de repente,
habitante do dia?


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

É O MAR. . .



É o mar que permanece – é sempre o mar
das esperas, que acende
os olhos,
para no exausto coração deitar
o silencio das praias e das ondas
a lassidão; é o mar que permanece
e faz da solidão da criatura
a solidão da água
que a circunda.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética

ANOITECER NA LAGOA



Os juncos flexíveis contemplam a noite chegar ocultando
o injusto reino dos homens – triste reino dos homens.
A grande sombra vai aos poucos se infiltrando, e com ela um
quase remorso,
a consciência de que tudo, ai de nós! podia ser mais belo.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética