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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

CANÇÃO BALDIA



Às vezes tenho saudade
da saudade que não tive
de morar com liberdade
onde livre nunca estive.

Às vezes tanta saudade
não é tanta por um triz:
pois que a tal felicidade
só me quis quase feliz.

Fui quase feliz em tudo
fui e sou sem vanidade
do que serei sobretudo
a despeito da saudade.

Partir foi quase preciso
sumindo na eternidade
não me fora teu sorriso
enganar essa saudade...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à notável poetisa
carioca Soninha Porto – 08/02/09)

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Último sentimento)

Como seria esse perdoar-lhes ontem
se o ontem é o crepúsculo do agora?
que seus dias melhores nos apontem
esquecer-lhes presentes na memória.

Pois amanhã não vai haver
mais sonho além da aurora
nem hora para um sonho entardecer
nem falta de motivo para não viver.
O oráculo está anunciando
que paz é ponto de partida
metade faz parte da morte
e o resto faz parte da vida.
A noite reencontrará a luz do norte
de nossa constelação de sobrevida:
para quem voltou da morte
não há morte além da vida.

Julis Calderón

DESEJO



E quando os olhos teus beijam meu corpo,
trazendo, à minha noite, a luz d´aurora,
e as tuas mãos percorrem meus segredos...
Todo um desejo ardente em mim aflora.

E quando teu respiro me entontece,
e o teu gemido por entrega implora,
teu cheiro, forte, macho, me abre os poros,
endoidecida, rogo: Vem, agora!...

Todo universo dorme em alva cama,
onde o sentir se faz perene e clama
pelo arquejar das forças animais.

Um gozo, tanto, explode em liberdade,
nos faz trilhar o chão da eternidade...
E, num rugir supremo, eu peço “Mais!”

Patricia Neme

Fantasias Humanas



Expando a alma
abrindo-a em plenitudes
permitindo que voe
na brisa da saudade
Prendo-me aos meus limites
imaginando mundos,
condicionando concepções,
construindo fantasias humanas
Sonho,
Incapaz de ser meu próprio ser,
refino experiências que se perderam
se foram
ou simplesmente
fugiram da dimensão do viver.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 09/02/09
Código do Texto: T1430187

SAUDADE



Eu, hoje,
acordei com saudade.
E, assim como quem procura
na gaveta da ventura,
entre mil e um guardados...
Achei o teu rosto amado,
no agora,
amanhã,
no passado,
dos sonhos, o mais sonhado,
minha mais terna ilusão.
E sem temer tempo ou idade,
envolta em mansa loucura,
me dei a ti com ternura,
me dei a ti sem cuidados,
num ato
tão encantado,
que o Tempo,
de emocionado,
deixou o mundo parado...
E dormiu na minha mão.

- Patricia Neme -

Parabéns, Papai!


Hoje passei um longo tempo olhando sua foto.
Refiz as bordas da época, tirei os amassados,
pequenas manchas, imperfeições do tempo,
e até arrumei um pouco o seu cabelo e gravata.

Parte-me o coração que seja tão pouco
o que eu possa fazer hoje por você,
embora eu saiba que, talvez
estarmos bem, seja seu maior presente!

Chorei um pouco, foi inevitável.
Parece que foi ontem, o fim!
E ainda me doi tanto a saudade!

Depois, minha alegria voltou
ao perceber que não precisei retocar
o intenso brilho do seu olhar...

Regina Helena
08/02/2009

Almas entrelaçadas



Sejamos o silêncio,
palavras que ressuscitam
escorrendo pelo tempo sua efemeridade
Sobre a ausência e a solidão
nossas almas se entrelaçam
e partem tal nômades
em busca das verdades
únicas e eternas
Carregam a nostalgia da perfeição
os sonhos ganham asas e luares,
somos a noite antes do principio
e do fim
Meu olhar ajoelha-se ante tua luz
a voz emudece sob teu canto
somente o amor cresceu
qualquer sentimento curva-se
diante da beleza majestosa
desse encanto.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 09/02/09
Código do Texto: T1429460

domingo, 8 de fevereiro de 2009

ONDE




Em qualquer recanto onde existam rosas
qualquer rua escura em que a noite pare
e as palavras soem quase indecorosas...

Onde mais não haja do que só o instante
onde então me mate só de encantamento
ou talvez não morra e só me desencante...

Onde haja caminhos no chão de veredas
com estradas noturnas de pedras acesas
vaga-lumes vaguem pelas noites negras..

Onde o túnel d’alma nunca mais a habite
onde haja esperança que só tenha calma
e onde haja tristeza que não seja triste...

Onde os suicidas morram, só de alegria!
Como foi Totônia, como foi meu Felipe
como foi Margarida como foi a Maria...

Onde haja certeza quando vier a sorte
que não tarde o dia quando vier a noite
nem retarde a vida quando for a morte...

A. Estebanez

NUMEROSO AMOR




Ah, numeroso amor de que padeço
que me conta mistérios sobre mim...
Ô, enigma! princípio sem começo
destino que termina e não tem fim...

Amor que apraz e dói! amor avesso
que assim se exaure e se refaz assim
morrendo de viver por quem mereço
na volúpia de crer que é amor afim...

Flor de lótus de deuses consagrados
nos desígnios dos bem-aventurados
de alma pronta na vida já completa.

É deusa quem me dá o dom divino
de confirmar nas cartas do destino
o carisma do amor que me liberta...

A. Estebanez
(Soneto dedicado a Maria Madalena Schuck)

Aquarela azul



  
Pousada sobre a flor,
frágil e bela em demasia!
Tão diáfana que não se sabia,
o que era borboleta, flor...
ou se era só poesia!
  
Tremem as pétalas lilases
ao vento breve.
Fremem as asas anis
à brisa leve.
 
E há um céu sem nuvens
no olhar do poeta,
entre o azul das asas
e o azul da pétala.
 
Lenise Marques

VERSOS TRISTES



E eu faço versos como quem consente
com a tristeza que os meus versos têm
sem que perceba que ela está presente
até no instante em que a alegria vem...

Eu faço versos como quem pressente
o instante alegre que não me convém,
eis que a alegria é o jeito descontente
de um jeito triste que me faz tão bem.

Quantas vezes com tanta intensidade
sinto-me um triste-alegre de saudade
e nem ao menos posso compreender:

o quanto esta tristeza é companheira,
pois antes de morrer ela é a primeira
a não deixar que eu morra sem viver.


Afonso Estebanez
(Dedicado ao poeta fluminense
Sylvio Adalberto Nascimento)

O Relogio e o Beija-Flor


 
Tempo - veloz é a dança das horas
Frágil é a vida dos homens:
Sonhos e células transmutando-se
Em cinzas, minerais e memórias.

Mas...quando voa um beija-flor
Curva-se o tempo sobre si mesmo
Rangem os ponteiros imobilizando-se
Entre um segundo e outro do vôo furta-cor.

A limpidez do instante o faz eterno!
Veste-se a alma em fantasia!
A beleza vence suavemente a morte,
e nasce pura e imortal...a poesia!

 
Lenise Marques

INDELICADEZA



Perpétuo moto,
já nem sei des’quando...
Filhos – são três;
mas quanta agitação.
Na mesa farta, um indicativo:
sou cozinheira, de forno e fogão.
A roupa suja brota das paredes,
que alguém decora com marcas de mão;
eu lavo, passo, dou alguns pontinhos,
faço bainha, reprego botão.
Molhar as plantas,
faxinar janelas,
lavar banheiros,
arear panelas,
na sexta-feira, encerar o chão.
Na correria, pão de cada dia,
num volteado, olho no espelho,
e estranho o rosto, de funda expressão.
Onde o frescor do traço adolescente,
o ar maroto, quase irreverente?...
E o meu cabelo... virou algodão!
Então, sorrio ante tal surpresa:
se foi o Tempo – e que indelicadeza,
nem me falou da sua afobação!

- Patricia Neme -

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

'INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG'


(‘Penelope and the Suitors’ -1912- J.W.Waterhouse)


(Décimo sentimento)

A vida é a que renasce inexoravelmente
no berço da manhã vestida de esperança.
E não há outra no itinerário do presente.
É tudo o que transcende o limite da luz
e revela o rosto do crepúsculo da morte
onde tudo depende do todo de seu tudo
como a parte do sonho é a circunstância.
Antes do mito mensageiro de Telêmaco,
já o oráculo de amor anunciava o suave
martírio de Penélope, de quem a espera
cumpria o ritual de tecer a hora e o dia
de a esperança transcender sua quimera.

Eia, vida como a de um sonho
um sonho de pedra que espera
acordar do inverno do outono
como um pomo da primavera!


Julis Calderón

Exaustão



Surpreenda-me,
juntando pedaços de vida
deixados no caminho que percorri
desalinhados como um quebra cabeça
que nunca formei
Desperta-me desse sono letárgico
dá-me o tempo que não me dei
diz qual parte eu perdi
se tanta coisa esqueci
guardo o que errei
o certo desaprendi.

Conceição Bentes
06/02/09

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

CANÇÃO BALDIA



Às vezes tenho saudade
da saudade que não tive
de morar com liberdade
onde livre nunca estive.

Às vezes tanta saudade
não é tanta por um triz:
pois que a tal felicidade
só me quis quase feliz.

Fui quase feliz em tudo
fui e sou sem vanidade
do que serei sobretudo
a despeito da saudade.

Partir foi quase preciso
sumindo na eternidade
não me fora teu sorriso
enganar essa saudade...

Afonso Estebanez
(Poema dedicado à notável poetisa
carioca Soninha Porto – 08/02/09)

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Último sentimento)

Como seria esse perdoar-lhes ontem
se o ontem é o crepúsculo do agora?
que seus dias melhores nos apontem
esquecer-lhes presentes na memória.

Pois amanhã não vai haver
mais sonho além da aurora
nem hora para um sonho entardecer
nem falta de motivo para não viver.
O oráculo está anunciando
que paz é ponto de partida
metade faz parte da morte
e o resto faz parte da vida.
A noite reencontrará a luz do norte
de nossa constelação de sobrevida:
para quem voltou da morte
não há morte além da vida.

Julis Calderón

DESEJO



E quando os olhos teus beijam meu corpo,
trazendo, à minha noite, a luz d´aurora,
e as tuas mãos percorrem meus segredos...
Todo um desejo ardente em mim aflora.

E quando teu respiro me entontece,
e o teu gemido por entrega implora,
teu cheiro, forte, macho, me abre os poros,
endoidecida, rogo: Vem, agora!...

Todo universo dorme em alva cama,
onde o sentir se faz perene e clama
pelo arquejar das forças animais.

Um gozo, tanto, explode em liberdade,
nos faz trilhar o chão da eternidade...
E, num rugir supremo, eu peço “Mais!”

Patricia Neme

Fantasias Humanas



Expando a alma
abrindo-a em plenitudes
permitindo que voe
na brisa da saudade
Prendo-me aos meus limites
imaginando mundos,
condicionando concepções,
construindo fantasias humanas
Sonho,
Incapaz de ser meu próprio ser,
refino experiências que se perderam
se foram
ou simplesmente
fugiram da dimensão do viver.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 09/02/09
Código do Texto: T1430187

SAUDADE



Eu, hoje,
acordei com saudade.
E, assim como quem procura
na gaveta da ventura,
entre mil e um guardados...
Achei o teu rosto amado,
no agora,
amanhã,
no passado,
dos sonhos, o mais sonhado,
minha mais terna ilusão.
E sem temer tempo ou idade,
envolta em mansa loucura,
me dei a ti com ternura,
me dei a ti sem cuidados,
num ato
tão encantado,
que o Tempo,
de emocionado,
deixou o mundo parado...
E dormiu na minha mão.

- Patricia Neme -

Parabéns, Papai!


Hoje passei um longo tempo olhando sua foto.
Refiz as bordas da época, tirei os amassados,
pequenas manchas, imperfeições do tempo,
e até arrumei um pouco o seu cabelo e gravata.

Parte-me o coração que seja tão pouco
o que eu possa fazer hoje por você,
embora eu saiba que, talvez
estarmos bem, seja seu maior presente!

Chorei um pouco, foi inevitável.
Parece que foi ontem, o fim!
E ainda me doi tanto a saudade!

Depois, minha alegria voltou
ao perceber que não precisei retocar
o intenso brilho do seu olhar...

Regina Helena
08/02/2009

Almas entrelaçadas



Sejamos o silêncio,
palavras que ressuscitam
escorrendo pelo tempo sua efemeridade
Sobre a ausência e a solidão
nossas almas se entrelaçam
e partem tal nômades
em busca das verdades
únicas e eternas
Carregam a nostalgia da perfeição
os sonhos ganham asas e luares,
somos a noite antes do principio
e do fim
Meu olhar ajoelha-se ante tua luz
a voz emudece sob teu canto
somente o amor cresceu
qualquer sentimento curva-se
diante da beleza majestosa
desse encanto.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 09/02/09
Código do Texto: T1429460

domingo, 8 de fevereiro de 2009

ONDE




Em qualquer recanto onde existam rosas
qualquer rua escura em que a noite pare
e as palavras soem quase indecorosas...

Onde mais não haja do que só o instante
onde então me mate só de encantamento
ou talvez não morra e só me desencante...

Onde haja caminhos no chão de veredas
com estradas noturnas de pedras acesas
vaga-lumes vaguem pelas noites negras..

Onde o túnel d’alma nunca mais a habite
onde haja esperança que só tenha calma
e onde haja tristeza que não seja triste...

Onde os suicidas morram, só de alegria!
Como foi Totônia, como foi meu Felipe
como foi Margarida como foi a Maria...

Onde haja certeza quando vier a sorte
que não tarde o dia quando vier a noite
nem retarde a vida quando for a morte...

A. Estebanez

NUMEROSO AMOR




Ah, numeroso amor de que padeço
que me conta mistérios sobre mim...
Ô, enigma! princípio sem começo
destino que termina e não tem fim...

Amor que apraz e dói! amor avesso
que assim se exaure e se refaz assim
morrendo de viver por quem mereço
na volúpia de crer que é amor afim...

Flor de lótus de deuses consagrados
nos desígnios dos bem-aventurados
de alma pronta na vida já completa.

É deusa quem me dá o dom divino
de confirmar nas cartas do destino
o carisma do amor que me liberta...

A. Estebanez
(Soneto dedicado a Maria Madalena Schuck)

Aquarela azul



  
Pousada sobre a flor,
frágil e bela em demasia!
Tão diáfana que não se sabia,
o que era borboleta, flor...
ou se era só poesia!
  
Tremem as pétalas lilases
ao vento breve.
Fremem as asas anis
à brisa leve.
 
E há um céu sem nuvens
no olhar do poeta,
entre o azul das asas
e o azul da pétala.
 
Lenise Marques

VERSOS TRISTES



E eu faço versos como quem consente
com a tristeza que os meus versos têm
sem que perceba que ela está presente
até no instante em que a alegria vem...

Eu faço versos como quem pressente
o instante alegre que não me convém,
eis que a alegria é o jeito descontente
de um jeito triste que me faz tão bem.

Quantas vezes com tanta intensidade
sinto-me um triste-alegre de saudade
e nem ao menos posso compreender:

o quanto esta tristeza é companheira,
pois antes de morrer ela é a primeira
a não deixar que eu morra sem viver.


Afonso Estebanez
(Dedicado ao poeta fluminense
Sylvio Adalberto Nascimento)

O Relogio e o Beija-Flor


 
Tempo - veloz é a dança das horas
Frágil é a vida dos homens:
Sonhos e células transmutando-se
Em cinzas, minerais e memórias.

Mas...quando voa um beija-flor
Curva-se o tempo sobre si mesmo
Rangem os ponteiros imobilizando-se
Entre um segundo e outro do vôo furta-cor.

A limpidez do instante o faz eterno!
Veste-se a alma em fantasia!
A beleza vence suavemente a morte,
e nasce pura e imortal...a poesia!

 
Lenise Marques

INDELICADEZA



Perpétuo moto,
já nem sei des’quando...
Filhos – são três;
mas quanta agitação.
Na mesa farta, um indicativo:
sou cozinheira, de forno e fogão.
A roupa suja brota das paredes,
que alguém decora com marcas de mão;
eu lavo, passo, dou alguns pontinhos,
faço bainha, reprego botão.
Molhar as plantas,
faxinar janelas,
lavar banheiros,
arear panelas,
na sexta-feira, encerar o chão.
Na correria, pão de cada dia,
num volteado, olho no espelho,
e estranho o rosto, de funda expressão.
Onde o frescor do traço adolescente,
o ar maroto, quase irreverente?...
E o meu cabelo... virou algodão!
Então, sorrio ante tal surpresa:
se foi o Tempo – e que indelicadeza,
nem me falou da sua afobação!

- Patricia Neme -

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

'INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG'


(‘Penelope and the Suitors’ -1912- J.W.Waterhouse)


(Décimo sentimento)

A vida é a que renasce inexoravelmente
no berço da manhã vestida de esperança.
E não há outra no itinerário do presente.
É tudo o que transcende o limite da luz
e revela o rosto do crepúsculo da morte
onde tudo depende do todo de seu tudo
como a parte do sonho é a circunstância.
Antes do mito mensageiro de Telêmaco,
já o oráculo de amor anunciava o suave
martírio de Penélope, de quem a espera
cumpria o ritual de tecer a hora e o dia
de a esperança transcender sua quimera.

Eia, vida como a de um sonho
um sonho de pedra que espera
acordar do inverno do outono
como um pomo da primavera!


Julis Calderón

Exaustão



Surpreenda-me,
juntando pedaços de vida
deixados no caminho que percorri
desalinhados como um quebra cabeça
que nunca formei
Desperta-me desse sono letárgico
dá-me o tempo que não me dei
diz qual parte eu perdi
se tanta coisa esqueci
guardo o que errei
o certo desaprendi.

Conceição Bentes
06/02/09