Seja bem-vindo. Hoje é

terça-feira, 19 de novembro de 2013

''Alethes''


Não gosto de apelos desnecessários,
requintes ignorantes,
imagens forçadas,
ética esdrúxula,
Exibicionismo barato.

Gosto das sutilezas,
das agudezas da simplicidade
coisas doces, coisas leves
coisas que falam com perspicácia,
que nos levam direto ao coração.

Pode ser antiquada,
contanto que não seja maquiada.

Anna Carlini
- 1949-





[Tela de Oksana Kravchenko]

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Timboema


Timboema

alusões ilusões
compõe-se o poema
de preferências secretas
fortuitos senões

frágil argila
amor e devaneio
se antes do tempo se vai
antes do tempo veio

em algum lugar da indiferença
em província de coisas breves
nada sei senão de ti

em última instância
finjo sonhos circunstâncias
me bifurco aqui

Lindolf Bell

CARTA A UM AMOR


CARTA A UM AMOR

Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Responde-me! É preciso justificar.
Pois olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada.

Ah! O mistério,
o mistério foi suficiente
para conter-nos.
Mas entre as múltiplas tendências
te escolhi
e te ampliei.
Um cavalo desenfreado correu-me
quando tuas mãos floriram
sobre mim.
Tentei amar o irreversível!
Mas o que se descobre
ou cresce
ou se lega
ou perde equilíbrio e força.
Pelas bordas das coisas
se perdem os excessos
e meu coração foi tanto
quanto um coração pode ser.
Nao, não quero extravassar
de ti os outros,
mas quero ser o eleito.

Jamais nos é possível entrever,
porque o que há em nós
suspeita apenas,
e o que vem para nós
não nos pertence com facilidade.

Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Ainda que respondesses, sim,
não o poderia aceitar.
Pois olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada.

Lindolff Bell

CARTA A UMA AMIGA


CARTA A UMA AMIGA

Para Iraci Gentilli

É preciso cuidado. muito cuidado,excessivo cuidado!

Dois olhos não bastam para açambarcar o céu.
Nem a terra cabe em nossas mãos de fome.

Teremos rosas de cobalto?
Teremos alvoradas de amor?
Ah! Amiga, a bagagem das indagações:
vai nela um vasto desejo de dialogar.
Alguma coisa será, da qual faremos parte.
Um exército, quem sabe, para plantar.

Tens razão:
é preciso alegrar a geração de gritos no caule
e botões na periferia.
O mundo tantas vezes parece um prédio inacabado
com algumas ervas,
com alguns montes
e, tantas vezes,
a flor espargida de um mistério.

Não falam sempre
que é preciso um grampo para prender cabelos?
Não alertam sempre
contra o fruto que desaba de seu posto de vida
para crescer no chão?
E nós perplexos, sempre perplexos,
ante a faixa de isolamento de todos,
ante a mudez dos rostos
quando se fala da necessidade de massacrar
e massacrar com amor,
ante difícil viver
viver real
entre as coisas.

É preciso cuidado, muito cuidado, excessivo cuidado!

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

ASA DA PRIMEIRA IDADE

ASA DA PRIMEIRA IDADE

Longe de mim
Como a mais distante estrela.
Próxima de mim
Em meus olhos (e coração)
Que me permitem vê-la.

Pouco sobra da vaidade,
Da divisão dos tempos,
Da distribuição de afetos.

Ensina-me sobra, sombra, terra,
Aonde me perdi.
Ensina-me do orvalho
Que umedece o sonho de perfeição
Que não esqueci.

A minha aldeia chama-se:
Ninho de liberdade.
Mas onde terá ficado a asa
Da primeira idade?

Lindolf Bell

O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS


O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS

Eu vim da geração das crianças traídas.
Eu vim de um montão de coisas destroçadas.
Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu.
Eu fui à tarefa num tempo de drama.
Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.
Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos.
Eu caminhei no caos com uma mensagem.
Eu fui lírico de granas presas à respiração.
Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba.
Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores.
Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra.
Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções.
Eu amei uma menina virgem.

Eu arranquei das pocilgas um brado.
Eu amei os amigos de pés no chão.
Eu fui a criança sem ciranda.
Eu acreditei numa igualdade total.
Eu não fui canção, mas grito de dor.
Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas.
Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste.
Eu fui a metamorfose de Deus.
Eu vasculhei nos lixos para descobrir a pureza.
Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo.
Eu descobri que são incontáveis os grãos no fundo do mar,
Mas são raros os que sabem o caminho da pérola.
Eu tentei persistir para além e aquém do ser humano, o que foi errado.
Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa

Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado.
Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão.
Eu deixei um balde no poço para salvar o resto do mundo.
Eu nasci conflito para ser amalgama.
Eu sou da geração das crianças traídas.
Eu tenho várias psicoses que não me invalidam.
Eu sou o automóvel a duzentos quilômetros por hora
Com o vento a bater-me na cara
Na disputa da ultima loucura que adoeceu.
Eu sou o antimundo na medida em que se procura o não existir.
Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não limitação.
Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende.
Mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me
Meu coração é um prisma.
Eu sou o que constrói porque e mais difícil.
Eu sou o que não é contra, mas o que se impõe.
Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura.
E quando arranca, arranca até a raiz.
E põe a semente no lugar.
Meu coração é um prisma.
Eu sou o grande delta dos antros.
Os amigos mais atentos são as águas que me acorrem.
Eu sou o que está com você, solitário.
Quando evito a entrega, restrinjo-me.
Quando laboro a superfície é para exaurir-me.
Quando exploro o profundo é para encontrar-me.
Quando estribo os braços e pernas na praça o não é alterável.
É para andar a galope sobre a não liberdade.
Sem bandeiras que indiquem norte qualquer

Avanço das caliças.
Sem ponte fixo a espera, nem lar de maternas mãos,
Ou rua de reencontro
Instalo os meus adeuses.
Sem credo a não ser a humanidade dos que nos amam e desamam,
Anuncio a catarse numa sintaxe de construção.
Eu escreverei para um universo sem concessões.
Eu saberei que a morte não é esterco
Mas a infinita capacidade de colher no chão menos adubado,
Que poderei sorvê-la como laranja que esqueceu de madurar,
Que serei o alimento para o verme primeiro da madrugada,
Que a vida é a face que se incorpora em forma de espasmo,
Que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente…
Eu quero um plano de vida para conviver.
Ostentarei minha loucura erudita.
Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos,
Eu manterei meu ódio a toda a arrogante mediocridade dos covardes.
Eu manterei meu ódio contra a hecatombe do pseudo-amor entre os homens.
Eu manterei meu ódio contra os fabricantes das neuroses de paz.
Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova
Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência.
Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores.
Eu me abastardarei da espécie humana.
Mas eu farei exceções a todos aqueles que souberam amar.

Lindolf Bell

AS CANÇÕES DAS CRIANÇAS TRAÍDAS


AS CANÇÕES DAS CRIANÇAS TRAÍDAS

Nós não queremos pretender sentir o que não sentimos.
Nós vamos ao polígono das contaminações com nossas
bocas-de-fogo.
Nós vamos ao ventre da cidade onde sangra o cordão
umbilical
para estender um horror entre os dedos:
a rosa não.

Vamos ao parque
onde nossas mães viram homens
e nós, crepúsculos.
Vamos ao parque
onde velhos patos desfazem o céu no lago.

Depois iremos aos plátanos
com suas flores desenhadas a canivete
e iremos a uma festa qualquer
em qualquer andar
de um edifício qualquer,
para acharmos um amigo
e mais trinta frustrados.

Depois vamos a uma festa em qualquer lugar
de um qualquer lugar,
para tomarmos as hóstias do sonho
e as córneas de nossa infância
que apenas dormem debaixo de um muro.

Vamos a um jogo para esquecer nosso desespero.
Vamos torcer
para que os amigos multipliquem
e os não-amigos deixem a torre e o meio da rua
e aprendam o caminho das margens.

Vamos depois, tão longe ou tão perto
que possamos despojar-nos de todas as máscaras
e aprendamos que não há último nem primeiro,
nem nada, nem o próprio nada.
Vamos despojar-nos, sim,
e colar nossos lábios ao sexo,
ao seio, ao plátano,ao amigo.
Vamos inventar-nos, sim,
como nunca havíamos sido inventados,
em nenhuma raça, em nenhum orgasmo, em nenhum amor.

Mais tarde acharemos os rostos caídos de olheiras,
nossas mãos, nossas calmarias,
e mais tarde do mais tarde ainda
furtaremos na grande loja
um barco para nossas dores.

Vamos dizer adeus a todas as coisas
porque existe um ar de mercado na cidade.
Vamos dizer adeus
porque nosso universo é um logomaquia.

Assim sempre.
Sempre a busca de sempre, através da noite,
como galgos.
Sempre este sempre que inaugura sempre,
este estar postergado,
este morrer para as alvoradas,
este olho sem pálpebras de onde nos
trituram,
sempre esta nostalgia de um viver
que não passa de um sobreviver,

quantos apartes,
quantos silêncios,
pressentimos, pressentimos,
os frutos do inverno também são doces,
ninguém mais cabe em si,
é preciso fundir-se a outro corpo,
é preciso inventar outra razão,
e saber do corpo de meninos e meninas amantes
e dos grãos contraídos pelos ventres
do grande ventre da noite.

Depois iremos a uma festa
- a maneira mais fácil
de estar sozinho.
Depois estaremos sozinhos
- a maneira mais intensa
de sermos cruéis.
Não. nós não queremos pretender sentir o que não
sentimos.

Lindolff Bell
In ‘Icorporação’

X

X

Onde abrigar o mundo
a não ser no coração?

Dos humanos alvos
é este o mais frágil
e, como uma hóstia,
há que repartí-lo,
pedaço e pedaço,
entre as criaturas.

Lindolf Bell

IX

IX

É mister que o amor seja cruel.
Claro! Claro é o que é claro!
Tudo parece simples
quando não se exige muito.
Os olhos quando se juntam
não se juntam, acaso,
como rios fora de todos os cursos?
Antes, muitas sortes habitavam-te
como lâmpadas acesas.
E se hoje a penumbra sobrevém
e as mãos se ajuntam como trepadeiras
e o vínculo do amor
permanece uma linguagem,
sabe-se melhor
que aqueles que passam
são os que ficam mais fundos em nós.

Lindolf Bell
in ‘Incorporação’

VIII

VIII

Soubeste amar-me
como se eu fosse da tua lavra.
Olvidaste, porém, na obra,
a lucidez para discernir.
Em solidão, eu sei, há que lavrar.
O tempo de erguer os braços
levanta, de súbito, no coração,
e necessária é a praça limpa,
feita um vasto campo
para o amor medrar.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

VII

VII

Quem se dirige a mim,
sem aviso, sem convite,
sem dizer nome, sem abrir porta?
Quem surge da direção do mar largo,
as mãos sobre o peito
e a múltipla face?
Quem no primeiro degrau
exibe o possível
e o impossível,
para oferta aos pálidos reis
da estrela de uma cidade longínqua?
As urzes e os trigos se abrem
como se um rio afastasse
fora do tempo.
O advento de uma estação desconhecida
dentre as conhecidas datas do viver,
a mesma calmaria depois,
depois o mesmo porvir.

Quem farfalha roupas invisíveis na escadaria,
quem tange nações e povos no cortejo?
Pássaro desesperado numa sala fechada,
por que arrancas a sombra das fachadas
e as nervuras da água tocada?
E debaixo, bem debaixo das pontes
onde o tempo faz ninhos na ausência,
por que podar as ervas daninhas,
se é idade de tanto florir
e água de tanto nascer?

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

VI

VI

Não sei por onde chegarás
Se do portal da morte,
da pedra
ou da palavra,
se dos quebráveis corpos
ou da corte dos querubins.

Quem me dera a híbrida face do júbilo,
as louças que se quebram
nas bodas para augúrios,
a inesperada presença
que se instala no espaldar
de invisível cadeira.

Benvindo
mesmo sem saber de onde chegarás.
Se de frágil barca de travessias
ou do limo da ressurreição
parido sobre margens e
beirais.

Lindolff Bell
In ‘Incorporação’

V

V

Quando a madrugada dispuser os matizes
e o rosto trajar-se de metáforas, poeta,
atende o chamado dos vivos e dos mortos.
Bate à janela.
Todos os vácuos são travessáveis.
Se dentro da noite
empreendes andanças
e os gonzos da alucinação tilintam,
se arrancas estrelas dos espinheiros,
se cantas de ouvido colado à terra
para ouvir o tropel

e o coração bate lento
o pequeno,
bem sabes que as veredas
dos deuses pertencem
aos que sabem conquistar.

Amanhã o dia será de novos deuses
e novos adeuses.
Lábio nenhum se mova para dizer:
porque não abriste o solo,
não quebraste a lua no fundo do poço
nem araste o musgo da verdade,
da tua geração fizeste um silo
em vez de construir um povo,
haverá siquer uma única resposta
ao feixe de perguntas
que nunca esqueces de levar?

Partir! A única solução é partir!
Partir sem saber para onde
porque a pureza é o sem direção.
E o mundo, assim,
não mais será peso

nem apoio
mas doce pariticipação.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’ - A Tarefa

IV


IV

Anjo estrábico da realidade:
da absurda jazida do deslumbramento
quebra as lições do simulacro
que o coração presume.

Vaso
e vale
habitarás.
E águas da primavera
e pedras-de-lascas do canto,
o grito sem pasmo
nem genialidade
nem clarividência,
e o fruto abissal habitarás.

E como um sonho
ao pé da cama
aguardando a vez de sonhar,
colherás a polpa da dor
que sangra
e a linguagem
que pende
e paira
na paisagem.

Lindolf Bell
in ‘Incoprporação’ - A Tarefa

III

III

Onde alberguas os sonhos?
Há sinais de tua presença na torre das alturas.
E cordas de ocultas vozes
falam de híbrido bosque
onde tiveste alumbramentos.
Árvore do espanto:
ousastes vir das galerias

do grande parque dos lamentos,
portando atavios
da mais viva das estações:
o amor.

Cresceste de alimentos dados
em altiplanos, aluviões e savanas.
De luas cobertas
e água estelar.
Da carnadura dos tamarindos de folhas largas
e das formas todas
da humanidade acrescida.

Quando aportas em terra familiar
( oh! forma perfeita por existir)
ainda perguntam:
trazes o amanhã?
E depois,
não por partir
mas por teu repartir,
uma grande festa festejam
à qual recorrerás
na mais difícil melancolia.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’ - A Tarefa

terça-feira, 19 de novembro de 2013

''Alethes''


Não gosto de apelos desnecessários,
requintes ignorantes,
imagens forçadas,
ética esdrúxula,
Exibicionismo barato.

Gosto das sutilezas,
das agudezas da simplicidade
coisas doces, coisas leves
coisas que falam com perspicácia,
que nos levam direto ao coração.

Pode ser antiquada,
contanto que não seja maquiada.

Anna Carlini
- 1949-





[Tela de Oksana Kravchenko]

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Timboema


Timboema

alusões ilusões
compõe-se o poema
de preferências secretas
fortuitos senões

frágil argila
amor e devaneio
se antes do tempo se vai
antes do tempo veio

em algum lugar da indiferença
em província de coisas breves
nada sei senão de ti

em última instância
finjo sonhos circunstâncias
me bifurco aqui

Lindolf Bell

CARTA A UM AMOR


CARTA A UM AMOR

Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Responde-me! É preciso justificar.
Pois olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada.

Ah! O mistério,
o mistério foi suficiente
para conter-nos.
Mas entre as múltiplas tendências
te escolhi
e te ampliei.
Um cavalo desenfreado correu-me
quando tuas mãos floriram
sobre mim.
Tentei amar o irreversível!
Mas o que se descobre
ou cresce
ou se lega
ou perde equilíbrio e força.
Pelas bordas das coisas
se perdem os excessos
e meu coração foi tanto
quanto um coração pode ser.
Nao, não quero extravassar
de ti os outros,
mas quero ser o eleito.

Jamais nos é possível entrever,
porque o que há em nós
suspeita apenas,
e o que vem para nós
não nos pertence com facilidade.

Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Ainda que respondesses, sim,
não o poderia aceitar.
Pois olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada.

Lindolff Bell

CARTA A UMA AMIGA


CARTA A UMA AMIGA

Para Iraci Gentilli

É preciso cuidado. muito cuidado,excessivo cuidado!

Dois olhos não bastam para açambarcar o céu.
Nem a terra cabe em nossas mãos de fome.

Teremos rosas de cobalto?
Teremos alvoradas de amor?
Ah! Amiga, a bagagem das indagações:
vai nela um vasto desejo de dialogar.
Alguma coisa será, da qual faremos parte.
Um exército, quem sabe, para plantar.

Tens razão:
é preciso alegrar a geração de gritos no caule
e botões na periferia.
O mundo tantas vezes parece um prédio inacabado
com algumas ervas,
com alguns montes
e, tantas vezes,
a flor espargida de um mistério.

Não falam sempre
que é preciso um grampo para prender cabelos?
Não alertam sempre
contra o fruto que desaba de seu posto de vida
para crescer no chão?
E nós perplexos, sempre perplexos,
ante a faixa de isolamento de todos,
ante a mudez dos rostos
quando se fala da necessidade de massacrar
e massacrar com amor,
ante difícil viver
viver real
entre as coisas.

É preciso cuidado, muito cuidado, excessivo cuidado!

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

ASA DA PRIMEIRA IDADE

ASA DA PRIMEIRA IDADE

Longe de mim
Como a mais distante estrela.
Próxima de mim
Em meus olhos (e coração)
Que me permitem vê-la.

Pouco sobra da vaidade,
Da divisão dos tempos,
Da distribuição de afetos.

Ensina-me sobra, sombra, terra,
Aonde me perdi.
Ensina-me do orvalho
Que umedece o sonho de perfeição
Que não esqueci.

A minha aldeia chama-se:
Ninho de liberdade.
Mas onde terá ficado a asa
Da primeira idade?

Lindolf Bell

O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS


O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS

Eu vim da geração das crianças traídas.
Eu vim de um montão de coisas destroçadas.
Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu.
Eu fui à tarefa num tempo de drama.
Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.
Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos.
Eu caminhei no caos com uma mensagem.
Eu fui lírico de granas presas à respiração.
Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba.
Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores.
Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra.
Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções.
Eu amei uma menina virgem.

Eu arranquei das pocilgas um brado.
Eu amei os amigos de pés no chão.
Eu fui a criança sem ciranda.
Eu acreditei numa igualdade total.
Eu não fui canção, mas grito de dor.
Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas.
Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste.
Eu fui a metamorfose de Deus.
Eu vasculhei nos lixos para descobrir a pureza.
Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo.
Eu descobri que são incontáveis os grãos no fundo do mar,
Mas são raros os que sabem o caminho da pérola.
Eu tentei persistir para além e aquém do ser humano, o que foi errado.
Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa

Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado.
Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão.
Eu deixei um balde no poço para salvar o resto do mundo.
Eu nasci conflito para ser amalgama.
Eu sou da geração das crianças traídas.
Eu tenho várias psicoses que não me invalidam.
Eu sou o automóvel a duzentos quilômetros por hora
Com o vento a bater-me na cara
Na disputa da ultima loucura que adoeceu.
Eu sou o antimundo na medida em que se procura o não existir.
Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não limitação.
Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende.
Mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me
Meu coração é um prisma.
Eu sou o que constrói porque e mais difícil.
Eu sou o que não é contra, mas o que se impõe.
Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura.
E quando arranca, arranca até a raiz.
E põe a semente no lugar.
Meu coração é um prisma.
Eu sou o grande delta dos antros.
Os amigos mais atentos são as águas que me acorrem.
Eu sou o que está com você, solitário.
Quando evito a entrega, restrinjo-me.
Quando laboro a superfície é para exaurir-me.
Quando exploro o profundo é para encontrar-me.
Quando estribo os braços e pernas na praça o não é alterável.
É para andar a galope sobre a não liberdade.
Sem bandeiras que indiquem norte qualquer

Avanço das caliças.
Sem ponte fixo a espera, nem lar de maternas mãos,
Ou rua de reencontro
Instalo os meus adeuses.
Sem credo a não ser a humanidade dos que nos amam e desamam,
Anuncio a catarse numa sintaxe de construção.
Eu escreverei para um universo sem concessões.
Eu saberei que a morte não é esterco
Mas a infinita capacidade de colher no chão menos adubado,
Que poderei sorvê-la como laranja que esqueceu de madurar,
Que serei o alimento para o verme primeiro da madrugada,
Que a vida é a face que se incorpora em forma de espasmo,
Que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente…
Eu quero um plano de vida para conviver.
Ostentarei minha loucura erudita.
Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos,
Eu manterei meu ódio a toda a arrogante mediocridade dos covardes.
Eu manterei meu ódio contra a hecatombe do pseudo-amor entre os homens.
Eu manterei meu ódio contra os fabricantes das neuroses de paz.
Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova
Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência.
Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores.
Eu me abastardarei da espécie humana.
Mas eu farei exceções a todos aqueles que souberam amar.

Lindolf Bell

AS CANÇÕES DAS CRIANÇAS TRAÍDAS


AS CANÇÕES DAS CRIANÇAS TRAÍDAS

Nós não queremos pretender sentir o que não sentimos.
Nós vamos ao polígono das contaminações com nossas
bocas-de-fogo.
Nós vamos ao ventre da cidade onde sangra o cordão
umbilical
para estender um horror entre os dedos:
a rosa não.

Vamos ao parque
onde nossas mães viram homens
e nós, crepúsculos.
Vamos ao parque
onde velhos patos desfazem o céu no lago.

Depois iremos aos plátanos
com suas flores desenhadas a canivete
e iremos a uma festa qualquer
em qualquer andar
de um edifício qualquer,
para acharmos um amigo
e mais trinta frustrados.

Depois vamos a uma festa em qualquer lugar
de um qualquer lugar,
para tomarmos as hóstias do sonho
e as córneas de nossa infância
que apenas dormem debaixo de um muro.

Vamos a um jogo para esquecer nosso desespero.
Vamos torcer
para que os amigos multipliquem
e os não-amigos deixem a torre e o meio da rua
e aprendam o caminho das margens.

Vamos depois, tão longe ou tão perto
que possamos despojar-nos de todas as máscaras
e aprendamos que não há último nem primeiro,
nem nada, nem o próprio nada.
Vamos despojar-nos, sim,
e colar nossos lábios ao sexo,
ao seio, ao plátano,ao amigo.
Vamos inventar-nos, sim,
como nunca havíamos sido inventados,
em nenhuma raça, em nenhum orgasmo, em nenhum amor.

Mais tarde acharemos os rostos caídos de olheiras,
nossas mãos, nossas calmarias,
e mais tarde do mais tarde ainda
furtaremos na grande loja
um barco para nossas dores.

Vamos dizer adeus a todas as coisas
porque existe um ar de mercado na cidade.
Vamos dizer adeus
porque nosso universo é um logomaquia.

Assim sempre.
Sempre a busca de sempre, através da noite,
como galgos.
Sempre este sempre que inaugura sempre,
este estar postergado,
este morrer para as alvoradas,
este olho sem pálpebras de onde nos
trituram,
sempre esta nostalgia de um viver
que não passa de um sobreviver,

quantos apartes,
quantos silêncios,
pressentimos, pressentimos,
os frutos do inverno também são doces,
ninguém mais cabe em si,
é preciso fundir-se a outro corpo,
é preciso inventar outra razão,
e saber do corpo de meninos e meninas amantes
e dos grãos contraídos pelos ventres
do grande ventre da noite.

Depois iremos a uma festa
- a maneira mais fácil
de estar sozinho.
Depois estaremos sozinhos
- a maneira mais intensa
de sermos cruéis.
Não. nós não queremos pretender sentir o que não
sentimos.

Lindolff Bell
In ‘Icorporação’

X

X

Onde abrigar o mundo
a não ser no coração?

Dos humanos alvos
é este o mais frágil
e, como uma hóstia,
há que repartí-lo,
pedaço e pedaço,
entre as criaturas.

Lindolf Bell

IX

IX

É mister que o amor seja cruel.
Claro! Claro é o que é claro!
Tudo parece simples
quando não se exige muito.
Os olhos quando se juntam
não se juntam, acaso,
como rios fora de todos os cursos?
Antes, muitas sortes habitavam-te
como lâmpadas acesas.
E se hoje a penumbra sobrevém
e as mãos se ajuntam como trepadeiras
e o vínculo do amor
permanece uma linguagem,
sabe-se melhor
que aqueles que passam
são os que ficam mais fundos em nós.

Lindolf Bell
in ‘Incorporação’

VIII

VIII

Soubeste amar-me
como se eu fosse da tua lavra.
Olvidaste, porém, na obra,
a lucidez para discernir.
Em solidão, eu sei, há que lavrar.
O tempo de erguer os braços
levanta, de súbito, no coração,
e necessária é a praça limpa,
feita um vasto campo
para o amor medrar.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

VII

VII

Quem se dirige a mim,
sem aviso, sem convite,
sem dizer nome, sem abrir porta?
Quem surge da direção do mar largo,
as mãos sobre o peito
e a múltipla face?
Quem no primeiro degrau
exibe o possível
e o impossível,
para oferta aos pálidos reis
da estrela de uma cidade longínqua?
As urzes e os trigos se abrem
como se um rio afastasse
fora do tempo.
O advento de uma estação desconhecida
dentre as conhecidas datas do viver,
a mesma calmaria depois,
depois o mesmo porvir.

Quem farfalha roupas invisíveis na escadaria,
quem tange nações e povos no cortejo?
Pássaro desesperado numa sala fechada,
por que arrancas a sombra das fachadas
e as nervuras da água tocada?
E debaixo, bem debaixo das pontes
onde o tempo faz ninhos na ausência,
por que podar as ervas daninhas,
se é idade de tanto florir
e água de tanto nascer?

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

VI

VI

Não sei por onde chegarás
Se do portal da morte,
da pedra
ou da palavra,
se dos quebráveis corpos
ou da corte dos querubins.

Quem me dera a híbrida face do júbilo,
as louças que se quebram
nas bodas para augúrios,
a inesperada presença
que se instala no espaldar
de invisível cadeira.

Benvindo
mesmo sem saber de onde chegarás.
Se de frágil barca de travessias
ou do limo da ressurreição
parido sobre margens e
beirais.

Lindolff Bell
In ‘Incorporação’

V

V

Quando a madrugada dispuser os matizes
e o rosto trajar-se de metáforas, poeta,
atende o chamado dos vivos e dos mortos.
Bate à janela.
Todos os vácuos são travessáveis.
Se dentro da noite
empreendes andanças
e os gonzos da alucinação tilintam,
se arrancas estrelas dos espinheiros,
se cantas de ouvido colado à terra
para ouvir o tropel

e o coração bate lento
o pequeno,
bem sabes que as veredas
dos deuses pertencem
aos que sabem conquistar.

Amanhã o dia será de novos deuses
e novos adeuses.
Lábio nenhum se mova para dizer:
porque não abriste o solo,
não quebraste a lua no fundo do poço
nem araste o musgo da verdade,
da tua geração fizeste um silo
em vez de construir um povo,
haverá siquer uma única resposta
ao feixe de perguntas
que nunca esqueces de levar?

Partir! A única solução é partir!
Partir sem saber para onde
porque a pureza é o sem direção.
E o mundo, assim,
não mais será peso

nem apoio
mas doce pariticipação.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’ - A Tarefa

IV


IV

Anjo estrábico da realidade:
da absurda jazida do deslumbramento
quebra as lições do simulacro
que o coração presume.

Vaso
e vale
habitarás.
E águas da primavera
e pedras-de-lascas do canto,
o grito sem pasmo
nem genialidade
nem clarividência,
e o fruto abissal habitarás.

E como um sonho
ao pé da cama
aguardando a vez de sonhar,
colherás a polpa da dor
que sangra
e a linguagem
que pende
e paira
na paisagem.

Lindolf Bell
in ‘Incoprporação’ - A Tarefa

III

III

Onde alberguas os sonhos?
Há sinais de tua presença na torre das alturas.
E cordas de ocultas vozes
falam de híbrido bosque
onde tiveste alumbramentos.
Árvore do espanto:
ousastes vir das galerias

do grande parque dos lamentos,
portando atavios
da mais viva das estações:
o amor.

Cresceste de alimentos dados
em altiplanos, aluviões e savanas.
De luas cobertas
e água estelar.
Da carnadura dos tamarindos de folhas largas
e das formas todas
da humanidade acrescida.

Quando aportas em terra familiar
( oh! forma perfeita por existir)
ainda perguntam:
trazes o amanhã?
E depois,
não por partir
mas por teu repartir,
uma grande festa festejam
à qual recorrerás
na mais difícil melancolia.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’ - A Tarefa