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segunda-feira, 19 de abril de 2010

PEREGRINAÇÃO


Ai de mim
entre esses peregrinos mortos,
os que olharemos para o passado
com melancólico remorso.

Tentaremos dizer alguma coisa,
mas já não saberemos dizer nada...
Até que, então, tenhamos aprendido
a fazer tudo o que não dá mais
para fazer nesta jornada.

E nos arrependeremos
de não ter suportado as feridas
que os espinhos da vida causam
como justo preço cobrado de quem
colhe uma rosa.

Ai de mim
entre esses tristes cavaleiros
que temos feito do sonho alheio
um campo santo para guerrear.

Ai de mim, ai de nós
que não poderemos mais
voltar...

Julis Calderón

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O JULGAMENTO


Submetido ao látego do julgamento
aquele homem prestava depoimento
sobre tudo o que sabia sobre a vida.
Falou de fé e esperança e caridade,
falou de fraternidade e de felicidade
e dos ideais de solidariedade humana.
E não havendo mais do que falar,
calou-se como ave que cai do céu...

E recebeu então a cruel indiferença
como sentença irrecorrível dos mortos.
De repente aquele homem tão simples
pôs-se a falar a falar a falar e a falar
COISAS DE AMOR como quem cria
na remota possibilidade dos milagres.

E aquele tribunal acabou acreditando
nele porque falou do que nem sabia.
E aquela foi a única vez em sua vida
que aquele homem falou de amor
com infinita sabedoria...

Julis Calderón

segunda-feira, 20 de abril de 2009

SOBRE A ESPERANÇA



Esperança é o sofrimento da vontade
razoável de correr atrás de uma sobra
de alegria que supomos tenha restado
exclusivamente para nós na vida...
Especialmente aquela que tão simples
ninguém quis, e assim restou perdida...

É quando não podemos tomar posse
de uma árvore que floresceu no pomar
da felicidade humana proibida...

Então a esperança é o padecimento
de acreditar na possibilidade mínima
de tomar posse da sombra da árvore
proibida... Mas toda sombra é uma estrada
livremente asfaltada de luz adormecida...

É quando a esperança é essa vontade
irresistível de caminhar até o crepúsculo
e tomar posse do que resta de cada dia
como o lado luminoso de uma sombra
atirado nos escombros da alegria...

Julis Calderón

A RUA DE NOSSA VIDA



A rua de nossa vida deveria ser tão calma
o quanto são os verdes vales em que passa
a brisa, para quem, apenas estar passando,
é o ofício da liberdade de ser brisa...

Pela rua de nossa vida deveriam passar
apenas crianças de tenra idade, que cantam
quando se esvaem seus corações num ímpeto
incontrolável de felicidade.

Os enfermos de amor que recompõem
a canção do entardecer e o pássaro cantor
que em seus monólogos mais comoventes
redescobre o tom das sinfonias inacabadas,
como os poetas as juras de conspiração
das palavras de ternuras reinventadas.

Lembranças de paisagens desconhecidas.
Os bêbados de fé, as dançarinas em êxtase
subitamente paralisadas, os gemidos de dor
das portas ancoradas nas sombras
já mortas sobre as calçadas.

Os operários temporariamente livres
das correntes da escravidão, que buscam
na vaga claridade da esperança a dimensão
da vasta liberdade que jamais terão...

Julis Calderón

SE ESSA RUA FOSSE MINHA...



Se minha rua fosse realmente minha
como minha alma é irreversivelmente
minha, por ela só caminharia alguém
para quem ter a paz de quem caminha
é dádiva de liberdade de quem tem...

Poetas e loucos e bêbados e pássaros têm
o ímpeto incontrolável de cantar também.
Passariam os sonhos dos amantes idosos
e o amor dos mais novos querendo passar
os que seguem do fim e voltam do início
e os que ficam só para não ter que voltar
e os que levam a vida sem ter que querer
e os que nunca terão o dever de explicar.

Os cativos do corpo viciado em ternura
e o êxtase das bailarinas de súbito no ar
e o olhar pueril da solidão das varandas
ancoradas no cais do luar e essa vontade
imensa de partir daqui para poder voltar.

Julis Calderón

domingo, 29 de março de 2009

NADA ALÉM DO MEU JARDIM



Eu sempre empreendi grandes viagens
para não muito mais além do meu jardim...
Jamais pretendi chegar ao final de qualquer rua,
se o final das ruas sempre chegaram até mim.

Então eu nunca precisei tomar um trem
com uma mala velha abarrotada de saudade.
Até hoje convivo com a paz de minhas rosas,
companheiras de viagem para a liberdade.

Andar pelo jardim é como dar a volta ao mundo
onde vivo replantando beijos nos canteiros
dos parques das cidades que há no fundo
do lago da memória de minha infância...

E eu não posso correr o risco de deixar
de ser criança, como um velho travesseiro
que se rasga com o tempo e o vento
espalhando pela vida tantas penas
e sonhos e segredos e lembranças
adormecidos neste quarto antigo
onde jazem as minhas esperanças...


Julis Calderón

domingo, 22 de março de 2009

TOLERÂNCIA ZERO


(Vladimir Vladimirovich Maiakovski)


Tolerância, sim!
Mas fazer o dia virar noite, não!
Mas roubar a minha lua, não!
Mas pular a minha cerca, não!
Mas pisar no meu jardim, não!
Mas matar as minhas rosas, não!
Mas assassinar meu cão, não!
Mas invadir a minha casa, não!
Mas estuprar as minha filhas, não!
Mas tomar todo o meu vinho, não!
Mas cuspir na minha sopa, não!
Mas deixar a luz acesa, não!
Mas drogar-me a consciência, não!
Corromper a minha pátria, não!
E eu ficar sem dizer nada, não!
Até podem me matar...
Mas enterrar-me, não!

Julis Calderón & Maria Madalena Schuck
(Numa lembrança de Vladimir Maikovski)

quinta-feira, 12 de março de 2009

TRÊS INSTANTES DE PERPLEXIDADE - 3




Os passos que vêm de fora são de velhos amigos
que tenho ou que ainda posso ter já que perdi o costume
simples de estender a mão na rua, adotando a divina
insensatez que há na loucura de perder a dimensão do amor
sem causa nem efeito e sem razões para me transformar
num poeta amoroso por defeito ou num simples
amante sem proveito...

O que adianta então esperar se ainda não é hora
ou simplesmente porque não sei onde anda a hora,
se antes o sol vai aquecer o cume das colinas
e os rios depois vão se banhar nas corredeiras
se o ouro dos trigais ainda vai dourar o vale
assim que despontar a face iluminada
da primeira aurora?...

... se o passado não existe
e o futuro ninguém sabe ainda
se então já fui e ainda nem sei
se irei embora?...

Julis Calderón

BIOGRAFIA



Não se preocupem com a minha biografia.
Ela é cópia de alguns traços cartográficos
de reticências espalhadas entre estrelas...

Biografia é uma história de vida apócrifa.
A minha ninguém a escreveu, nem poderia.
Faltaria o epílogo do amor não resolvido:
esse ponto final seria o último planeta
do universo desconhecido.

Cumpri minha missão, porque eu já beijei
tudo na vida e andei de tudo neste mundo.
Deitei a boca no pó para abraçar a sombra
dormi com todas as insônias por amor
fui aeronauta da noite pousada no telhado
fui o cavaleiro fiel das castas infidelidades
andei de vento sem camisa para ver
como era o acaso e só depois eu aprendi
como era viver de brisa:

é como viver sozinho
de muitos sonhos pequenos,
por falta de companhia para viver
o grande sonho de uma flor
do tamanho proporcional
ao tamanho do meu amor...

Julis Calderón

sexta-feira, 6 de março de 2009

TRÊS INSTANTES DE PERPLEXIDADE - 2




Há um raio de luz rastejando na soleira,
mas a claridade do luar não entra em minha casa.
Há uma ave noturna pousada em meu telhado,
devasso todos os porões do hotel de minha vida
e não sei de ninguém que ali estivesse pernoitado
por causa de minha esperança desistida...
Onde está o momento do sonho que sustento,
onde fica a tal porta de saída...

... se me procuro atentamente na superfície fria
dos espelhos e não ouço mais os velhos chavões
dos maus conselhos... Cometo atos profanos
de arrebatamento clandestino e assim me espero
e desespero e me pereço e também me desatino
porque nunca aconteço nem com a cumplicidade
do meu eu-menino...

É assim que somos dois:
aquele que de mim aprende
tudo o que de mim ensino...

Julis Calderón

TRÊS INSTANTES DE PERPLEXIDADE - 1



O que adianta esperar sem sofrimento?
O mesmo relógio parado na beira do tempo
o relâmpago o trovão o raio e o pensamento
o velho retrato de meus pais aprumado sobre
a cristaleira exibindo o mesmo bigode do dia
do casamento celebrado na mesma igreja
perante o mesmo altar da mesma santa...
O que adianta...

... se o que desejo é tão incerto como o olhar
de um pássaro cativo na gaiola do meu vizinho
herói de si mesmo e emérito caçador de nada,
se o que me leva é leve como o pólen na brisa
passageira e breve como o traço de uma flor,
se o que me faz viver é essa esperança
desesperada de sobreviver do meu amor?...

Julis Calderón

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

SOBRE A ESPERANÇA


(Fotografia de Fernando Campanella)


É esperança afirmar que as águas
de uma fonte de ternura são as únicas
que um dia possam rolar por onde
já rolaram.

Que sedentos e famintos de felicidade,
aprenderemos a saciar a sede e a fome
que só o amor é capaz de estimular.

Que vale a pena suportar o peso
da cruz do sentimento de esperança
quando não se tem certeza do caminho
para o calvário que liberta.

É esperança acreditar na volta
de um comboio que não parou
na estação de embarque
de nossos sonhos.

Afirmar que não é tão triste
o silêncio de uma canção calada
no solitário show da multidão.

Acreditar que ter esperança
é um crime culposo de audácia,
punível por sentença irrecorrível
de condenação à alcova do amor
eterno no exílio do coração...

Julis Calderón

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Último sentimento)

Como seria esse perdoar-lhes ontem
se o ontem é o crepúsculo do agora?
que seus dias melhores nos apontem
esquecer-lhes presentes na memória.

Pois amanhã não vai haver
mais sonho além da aurora
nem hora para um sonho entardecer
nem falta de motivo para não viver.
O oráculo está anunciando
que paz é ponto de partida
metade faz parte da morte
e o resto faz parte da vida.
A noite reencontrará a luz do norte
de nossa constelação de sobrevida:
para quem voltou da morte
não há morte além da vida.

Julis Calderón

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

'INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG'


(‘Penelope and the Suitors’ -1912- J.W.Waterhouse)


(Décimo sentimento)

A vida é a que renasce inexoravelmente
no berço da manhã vestida de esperança.
E não há outra no itinerário do presente.
É tudo o que transcende o limite da luz
e revela o rosto do crepúsculo da morte
onde tudo depende do todo de seu tudo
como a parte do sonho é a circunstância.
Antes do mito mensageiro de Telêmaco,
já o oráculo de amor anunciava o suave
martírio de Penélope, de quem a espera
cumpria o ritual de tecer a hora e o dia
de a esperança transcender sua quimera.

Eia, vida como a de um sonho
um sonho de pedra que espera
acordar do inverno do outono
como um pomo da primavera!


Julis Calderón

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Nono sentimento)

Talvez amanhã de manhã
já não saibamos mais quem somos nós
ou seremos cada irmão levando a própria sombra
nos ombros do tardio corpo.
Talvez rumemos para uma nova Canaâ
– a fauna prometida sob as águas
de nossos submersos descaminhos.
Talvez sejamos arcanjos argonautas
singrando sonhos marinhos...
Talvez libertadores das crisálidas de luz
daquelas gotas de sangue entre as dobras
das túnicas inconsúteis de Jesus.

... entrementes:
– aquela última dose dupla de Boaka
– aquela dentadura de arame farpado
– aquela dose venenosa de vodka-cola
– aquele ponto de exclamação içado
no “L” insone da forca da insanidade...
... a língua forçando os dentes
privados da liberdade
de matar aquela fome
sem a dor da imunidade.

Julis Calderón

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Oitavo sentimento)

Amanhã de manhã nossa voz premonitória
vai despertar rios de sonhos que escorrerão
como espasmos da liberdade constrangida
pelas curras inexoráveis contra nossa alma
encurralada feito fera num beco sem saída.

Anunciará aos pequeninos a ressurreição
da paz desfalecida nos ombros largos
da esperança.
Que a noite não desvie a aurora
do itinerário do amanhecer dentro de nós
nem deixe em nossa boca o desgosto
dos frutos dos outonos não provados.
Que os encontros de improviso
faltem aos encontros marcados.
Que o futuro do presente
seja sempre sem passado.
E se morrer é inevitável,
seja a morte descontente
por chegarmos atrasados...

Julis Calderón

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Sexto sentimento)

A quem interessar possa:
pesadelos em preto e branco
os sonhos noturnos do fosso
da vida assombrada na fossa.
Colchão de molas do avesso
de arame farpado e a aurora
que a morte nos dava pensar
fosse apenas campo de rosas
germinado sobre os espinhos...
Tudo dói menos, quando não
temos mais dores para doer...
...ou viramos passarinhos...
Como o tempo sem o vento
não pode mover moinhos...

Tudo a História reconstrói,
só a paz é aos pouquinhos:
como a história dos heróis
recontada aos pedacinhos...

Julis Calderón

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

'NUMA FOLHA DO DIÁRIO'



Há sonhos antigos
que habitam meu outro lado
como se a alma de porta aberta
fosse uma casa abandonada
por fantasmas de ancestrais...
... sempre me deixam rosas
desaparecidas entre o legado
dos escombros...

... como se meu coração fosse
aquele velho salão das armas
de um barão que não se sabe
se morreu daquela obscura
sensação de peso do crepúsculo
nos ombros.

Mas chego sempre ao final da rua
(ou do sonho) e percebo que minha
sombra sempre fica para trás
levando minh’alma só...

...e sempre volto e vejo
que lá está minha alma no jardim
com seu infinito olhar de rosas
debruçado na janela da alvorada...

Compreendo então que somos
dois para apenas um sonho só
ou dois sonhos para min’alma só.
Um de mim apenas ressonha
os sonhos que o outro sonha
– como o vento e o pó...


Julis Calderón

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG


(Soviet Forced Labor Camps)

(Terceiro sentimento)


Bastaria que amanhã de manhã
um abraço universal se transformasse
em berço para a chegada da liberdade
nos braços da alvorada que seria mãe.
Bastaria que uma chama de esperança
invadisse os paióis de pólvora da raça
humana – tirante ou bússola ou casulo
de sonhos indecisos – conforme a paz
dos alvadios horizontes da existência.
Mas essa luz foi apagada
no porão da consciência...

Julis Calderón

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG


(Cenas dos campos de Gulag )

(Segundo sentimento)

Façam-se vales e desfiladeiros
no roteiro dos rios congelados
para fecundação da terra
pelo sangue de Auschwitz.
Que os mares abram seus cursos
nas muralhas de Guantánamo
na salga dos caminhos do que nasce
contra o ventre da primavera
e as águas venham dilúvios,
não pragas de profecias.
Caia pedra sobre pedra
dos muros de nossos dias...

Julis Calderón
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segunda-feira, 19 de abril de 2010

PEREGRINAÇÃO


Ai de mim
entre esses peregrinos mortos,
os que olharemos para o passado
com melancólico remorso.

Tentaremos dizer alguma coisa,
mas já não saberemos dizer nada...
Até que, então, tenhamos aprendido
a fazer tudo o que não dá mais
para fazer nesta jornada.

E nos arrependeremos
de não ter suportado as feridas
que os espinhos da vida causam
como justo preço cobrado de quem
colhe uma rosa.

Ai de mim
entre esses tristes cavaleiros
que temos feito do sonho alheio
um campo santo para guerrear.

Ai de mim, ai de nós
que não poderemos mais
voltar...

Julis Calderón

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O JULGAMENTO


Submetido ao látego do julgamento
aquele homem prestava depoimento
sobre tudo o que sabia sobre a vida.
Falou de fé e esperança e caridade,
falou de fraternidade e de felicidade
e dos ideais de solidariedade humana.
E não havendo mais do que falar,
calou-se como ave que cai do céu...

E recebeu então a cruel indiferença
como sentença irrecorrível dos mortos.
De repente aquele homem tão simples
pôs-se a falar a falar a falar e a falar
COISAS DE AMOR como quem cria
na remota possibilidade dos milagres.

E aquele tribunal acabou acreditando
nele porque falou do que nem sabia.
E aquela foi a única vez em sua vida
que aquele homem falou de amor
com infinita sabedoria...

Julis Calderón

segunda-feira, 20 de abril de 2009

SOBRE A ESPERANÇA



Esperança é o sofrimento da vontade
razoável de correr atrás de uma sobra
de alegria que supomos tenha restado
exclusivamente para nós na vida...
Especialmente aquela que tão simples
ninguém quis, e assim restou perdida...

É quando não podemos tomar posse
de uma árvore que floresceu no pomar
da felicidade humana proibida...

Então a esperança é o padecimento
de acreditar na possibilidade mínima
de tomar posse da sombra da árvore
proibida... Mas toda sombra é uma estrada
livremente asfaltada de luz adormecida...

É quando a esperança é essa vontade
irresistível de caminhar até o crepúsculo
e tomar posse do que resta de cada dia
como o lado luminoso de uma sombra
atirado nos escombros da alegria...

Julis Calderón

A RUA DE NOSSA VIDA



A rua de nossa vida deveria ser tão calma
o quanto são os verdes vales em que passa
a brisa, para quem, apenas estar passando,
é o ofício da liberdade de ser brisa...

Pela rua de nossa vida deveriam passar
apenas crianças de tenra idade, que cantam
quando se esvaem seus corações num ímpeto
incontrolável de felicidade.

Os enfermos de amor que recompõem
a canção do entardecer e o pássaro cantor
que em seus monólogos mais comoventes
redescobre o tom das sinfonias inacabadas,
como os poetas as juras de conspiração
das palavras de ternuras reinventadas.

Lembranças de paisagens desconhecidas.
Os bêbados de fé, as dançarinas em êxtase
subitamente paralisadas, os gemidos de dor
das portas ancoradas nas sombras
já mortas sobre as calçadas.

Os operários temporariamente livres
das correntes da escravidão, que buscam
na vaga claridade da esperança a dimensão
da vasta liberdade que jamais terão...

Julis Calderón

SE ESSA RUA FOSSE MINHA...



Se minha rua fosse realmente minha
como minha alma é irreversivelmente
minha, por ela só caminharia alguém
para quem ter a paz de quem caminha
é dádiva de liberdade de quem tem...

Poetas e loucos e bêbados e pássaros têm
o ímpeto incontrolável de cantar também.
Passariam os sonhos dos amantes idosos
e o amor dos mais novos querendo passar
os que seguem do fim e voltam do início
e os que ficam só para não ter que voltar
e os que levam a vida sem ter que querer
e os que nunca terão o dever de explicar.

Os cativos do corpo viciado em ternura
e o êxtase das bailarinas de súbito no ar
e o olhar pueril da solidão das varandas
ancoradas no cais do luar e essa vontade
imensa de partir daqui para poder voltar.

Julis Calderón

domingo, 29 de março de 2009

NADA ALÉM DO MEU JARDIM



Eu sempre empreendi grandes viagens
para não muito mais além do meu jardim...
Jamais pretendi chegar ao final de qualquer rua,
se o final das ruas sempre chegaram até mim.

Então eu nunca precisei tomar um trem
com uma mala velha abarrotada de saudade.
Até hoje convivo com a paz de minhas rosas,
companheiras de viagem para a liberdade.

Andar pelo jardim é como dar a volta ao mundo
onde vivo replantando beijos nos canteiros
dos parques das cidades que há no fundo
do lago da memória de minha infância...

E eu não posso correr o risco de deixar
de ser criança, como um velho travesseiro
que se rasga com o tempo e o vento
espalhando pela vida tantas penas
e sonhos e segredos e lembranças
adormecidos neste quarto antigo
onde jazem as minhas esperanças...


Julis Calderón

domingo, 22 de março de 2009

TOLERÂNCIA ZERO


(Vladimir Vladimirovich Maiakovski)


Tolerância, sim!
Mas fazer o dia virar noite, não!
Mas roubar a minha lua, não!
Mas pular a minha cerca, não!
Mas pisar no meu jardim, não!
Mas matar as minhas rosas, não!
Mas assassinar meu cão, não!
Mas invadir a minha casa, não!
Mas estuprar as minha filhas, não!
Mas tomar todo o meu vinho, não!
Mas cuspir na minha sopa, não!
Mas deixar a luz acesa, não!
Mas drogar-me a consciência, não!
Corromper a minha pátria, não!
E eu ficar sem dizer nada, não!
Até podem me matar...
Mas enterrar-me, não!

Julis Calderón & Maria Madalena Schuck
(Numa lembrança de Vladimir Maikovski)

quinta-feira, 12 de março de 2009

TRÊS INSTANTES DE PERPLEXIDADE - 3




Os passos que vêm de fora são de velhos amigos
que tenho ou que ainda posso ter já que perdi o costume
simples de estender a mão na rua, adotando a divina
insensatez que há na loucura de perder a dimensão do amor
sem causa nem efeito e sem razões para me transformar
num poeta amoroso por defeito ou num simples
amante sem proveito...

O que adianta então esperar se ainda não é hora
ou simplesmente porque não sei onde anda a hora,
se antes o sol vai aquecer o cume das colinas
e os rios depois vão se banhar nas corredeiras
se o ouro dos trigais ainda vai dourar o vale
assim que despontar a face iluminada
da primeira aurora?...

... se o passado não existe
e o futuro ninguém sabe ainda
se então já fui e ainda nem sei
se irei embora?...

Julis Calderón

BIOGRAFIA



Não se preocupem com a minha biografia.
Ela é cópia de alguns traços cartográficos
de reticências espalhadas entre estrelas...

Biografia é uma história de vida apócrifa.
A minha ninguém a escreveu, nem poderia.
Faltaria o epílogo do amor não resolvido:
esse ponto final seria o último planeta
do universo desconhecido.

Cumpri minha missão, porque eu já beijei
tudo na vida e andei de tudo neste mundo.
Deitei a boca no pó para abraçar a sombra
dormi com todas as insônias por amor
fui aeronauta da noite pousada no telhado
fui o cavaleiro fiel das castas infidelidades
andei de vento sem camisa para ver
como era o acaso e só depois eu aprendi
como era viver de brisa:

é como viver sozinho
de muitos sonhos pequenos,
por falta de companhia para viver
o grande sonho de uma flor
do tamanho proporcional
ao tamanho do meu amor...

Julis Calderón

sexta-feira, 6 de março de 2009

TRÊS INSTANTES DE PERPLEXIDADE - 2




Há um raio de luz rastejando na soleira,
mas a claridade do luar não entra em minha casa.
Há uma ave noturna pousada em meu telhado,
devasso todos os porões do hotel de minha vida
e não sei de ninguém que ali estivesse pernoitado
por causa de minha esperança desistida...
Onde está o momento do sonho que sustento,
onde fica a tal porta de saída...

... se me procuro atentamente na superfície fria
dos espelhos e não ouço mais os velhos chavões
dos maus conselhos... Cometo atos profanos
de arrebatamento clandestino e assim me espero
e desespero e me pereço e também me desatino
porque nunca aconteço nem com a cumplicidade
do meu eu-menino...

É assim que somos dois:
aquele que de mim aprende
tudo o que de mim ensino...

Julis Calderón

TRÊS INSTANTES DE PERPLEXIDADE - 1



O que adianta esperar sem sofrimento?
O mesmo relógio parado na beira do tempo
o relâmpago o trovão o raio e o pensamento
o velho retrato de meus pais aprumado sobre
a cristaleira exibindo o mesmo bigode do dia
do casamento celebrado na mesma igreja
perante o mesmo altar da mesma santa...
O que adianta...

... se o que desejo é tão incerto como o olhar
de um pássaro cativo na gaiola do meu vizinho
herói de si mesmo e emérito caçador de nada,
se o que me leva é leve como o pólen na brisa
passageira e breve como o traço de uma flor,
se o que me faz viver é essa esperança
desesperada de sobreviver do meu amor?...

Julis Calderón

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

SOBRE A ESPERANÇA


(Fotografia de Fernando Campanella)


É esperança afirmar que as águas
de uma fonte de ternura são as únicas
que um dia possam rolar por onde
já rolaram.

Que sedentos e famintos de felicidade,
aprenderemos a saciar a sede e a fome
que só o amor é capaz de estimular.

Que vale a pena suportar o peso
da cruz do sentimento de esperança
quando não se tem certeza do caminho
para o calvário que liberta.

É esperança acreditar na volta
de um comboio que não parou
na estação de embarque
de nossos sonhos.

Afirmar que não é tão triste
o silêncio de uma canção calada
no solitário show da multidão.

Acreditar que ter esperança
é um crime culposo de audácia,
punível por sentença irrecorrível
de condenação à alcova do amor
eterno no exílio do coração...

Julis Calderón

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Último sentimento)

Como seria esse perdoar-lhes ontem
se o ontem é o crepúsculo do agora?
que seus dias melhores nos apontem
esquecer-lhes presentes na memória.

Pois amanhã não vai haver
mais sonho além da aurora
nem hora para um sonho entardecer
nem falta de motivo para não viver.
O oráculo está anunciando
que paz é ponto de partida
metade faz parte da morte
e o resto faz parte da vida.
A noite reencontrará a luz do norte
de nossa constelação de sobrevida:
para quem voltou da morte
não há morte além da vida.

Julis Calderón

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

'INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG'


(‘Penelope and the Suitors’ -1912- J.W.Waterhouse)


(Décimo sentimento)

A vida é a que renasce inexoravelmente
no berço da manhã vestida de esperança.
E não há outra no itinerário do presente.
É tudo o que transcende o limite da luz
e revela o rosto do crepúsculo da morte
onde tudo depende do todo de seu tudo
como a parte do sonho é a circunstância.
Antes do mito mensageiro de Telêmaco,
já o oráculo de amor anunciava o suave
martírio de Penélope, de quem a espera
cumpria o ritual de tecer a hora e o dia
de a esperança transcender sua quimera.

Eia, vida como a de um sonho
um sonho de pedra que espera
acordar do inverno do outono
como um pomo da primavera!


Julis Calderón

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Nono sentimento)

Talvez amanhã de manhã
já não saibamos mais quem somos nós
ou seremos cada irmão levando a própria sombra
nos ombros do tardio corpo.
Talvez rumemos para uma nova Canaâ
– a fauna prometida sob as águas
de nossos submersos descaminhos.
Talvez sejamos arcanjos argonautas
singrando sonhos marinhos...
Talvez libertadores das crisálidas de luz
daquelas gotas de sangue entre as dobras
das túnicas inconsúteis de Jesus.

... entrementes:
– aquela última dose dupla de Boaka
– aquela dentadura de arame farpado
– aquela dose venenosa de vodka-cola
– aquele ponto de exclamação içado
no “L” insone da forca da insanidade...
... a língua forçando os dentes
privados da liberdade
de matar aquela fome
sem a dor da imunidade.

Julis Calderón

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Oitavo sentimento)

Amanhã de manhã nossa voz premonitória
vai despertar rios de sonhos que escorrerão
como espasmos da liberdade constrangida
pelas curras inexoráveis contra nossa alma
encurralada feito fera num beco sem saída.

Anunciará aos pequeninos a ressurreição
da paz desfalecida nos ombros largos
da esperança.
Que a noite não desvie a aurora
do itinerário do amanhecer dentro de nós
nem deixe em nossa boca o desgosto
dos frutos dos outonos não provados.
Que os encontros de improviso
faltem aos encontros marcados.
Que o futuro do presente
seja sempre sem passado.
E se morrer é inevitável,
seja a morte descontente
por chegarmos atrasados...

Julis Calderón

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG



(Sexto sentimento)

A quem interessar possa:
pesadelos em preto e branco
os sonhos noturnos do fosso
da vida assombrada na fossa.
Colchão de molas do avesso
de arame farpado e a aurora
que a morte nos dava pensar
fosse apenas campo de rosas
germinado sobre os espinhos...
Tudo dói menos, quando não
temos mais dores para doer...
...ou viramos passarinhos...
Como o tempo sem o vento
não pode mover moinhos...

Tudo a História reconstrói,
só a paz é aos pouquinhos:
como a história dos heróis
recontada aos pedacinhos...

Julis Calderón

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

'NUMA FOLHA DO DIÁRIO'



Há sonhos antigos
que habitam meu outro lado
como se a alma de porta aberta
fosse uma casa abandonada
por fantasmas de ancestrais...
... sempre me deixam rosas
desaparecidas entre o legado
dos escombros...

... como se meu coração fosse
aquele velho salão das armas
de um barão que não se sabe
se morreu daquela obscura
sensação de peso do crepúsculo
nos ombros.

Mas chego sempre ao final da rua
(ou do sonho) e percebo que minha
sombra sempre fica para trás
levando minh’alma só...

...e sempre volto e vejo
que lá está minha alma no jardim
com seu infinito olhar de rosas
debruçado na janela da alvorada...

Compreendo então que somos
dois para apenas um sonho só
ou dois sonhos para min’alma só.
Um de mim apenas ressonha
os sonhos que o outro sonha
– como o vento e o pó...


Julis Calderón

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG


(Soviet Forced Labor Camps)

(Terceiro sentimento)


Bastaria que amanhã de manhã
um abraço universal se transformasse
em berço para a chegada da liberdade
nos braços da alvorada que seria mãe.
Bastaria que uma chama de esperança
invadisse os paióis de pólvora da raça
humana – tirante ou bússola ou casulo
de sonhos indecisos – conforme a paz
dos alvadios horizontes da existência.
Mas essa luz foi apagada
no porão da consciência...

Julis Calderón

INICIAÇÃO NOS CAMPOS DE GULAG


(Cenas dos campos de Gulag )

(Segundo sentimento)

Façam-se vales e desfiladeiros
no roteiro dos rios congelados
para fecundação da terra
pelo sangue de Auschwitz.
Que os mares abram seus cursos
nas muralhas de Guantánamo
na salga dos caminhos do que nasce
contra o ventre da primavera
e as águas venham dilúvios,
não pragas de profecias.
Caia pedra sobre pedra
dos muros de nossos dias...

Julis Calderón