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quarta-feira, 26 de março de 2014

'PAISAGEM MARAJOARA'


Da migração úmida e mansa do crepúsculo
ficou um olor de maresia brava,
lambendo o limo lodoso das raízes.
A lua, ciumenta e oca,
encolhida e acuada,
espia desconfiada,
pelas frestas da mata,
a terra grávida de sombras e silêncios...
O vento é um passarão agourento
voando por sobre os contornos ondulantes
da grande ilha supersticiosa
de litorais iluminados
pelos olhos da buiúna.

Adalcinda Camarão
Poesia do Grão-Pará, 2001(Seleção e notas Olga Savary)

''ANSEIO''


Ah, eu quisera ser aquela árvore
coberta pelas garças brancas de vôo incerto!
Árvore plantada pelo acaso
à margem do rio enorme!
Árvore de frondes anantos,
desejosa, quase humana,
que se arrepia ao contato
das penas dos papagaios que passam!
Árvore que tem o grande amor do vento
e que da sombra para o gado descansar.
Árvore estéril, árvore bela, árvore fresca,
árvore amante de todos os crepúsculos,
no solstício do inverno ou do verão,
Árvore do pensamento das outras árvores!

Adalcinda Camarão
Poesia do Grão-Pará, 2001(Seleção e notas Olga Savary)

''Despedida''


Pediste-me qualquer coisa.
Qualquer coisa de meu muito íntimo
que me cobrisse o corpo…
Que me tocasse a pele arrepiada,
E como pra te dar eu não tivesse nada,
E como só a escuridão me envolvesse
pelos olhos, pelos ombros,
pelo ventre morno e mofino,
eu te dei de presente a minha noite enorme,
a minha grande noite sem memória e sem destino!

Adalcinda Camarão,
do livro "Poesia do Grão-Pará" (seleção e notas de Olga Savary). Rio, Graphia, 2001.

[Arte: Bayram Salamov]

POETAS BRASILEIROS





Adalcinda Camarão
(1914-2005) – Pará-

Adalcinda Magno Camarão Luxardo
Poetisa paraense, nasceu em Muaná, no arquipélago marajoara e faleceu aos 91 anos em Belém.

Integrou a primeira geração de poetas influenciados pelo modenismo e regionalismo ainda na década de 30. Com Cléo Bernardo participou da revista literária Terra Imatura, em 1938.

Nas décadas seguintes teve participação ativa no cenário literário paraense, recebida como membro efetiva e perpétua da Academia Paraense de Letras em janeiro de 1959, ocupou a cadeira nº 17 e teve como patrono Felipe Patroni.
Publicou obras de poesia, além de peças teatrais. Foi figura central na era de ouro do rádio, tendo pontificado na antiga PRC-5, “a voz que canta e fala para a planície”.
Viveu muitos anos nos Estados Unidos, fazendo carreira no magistério da língua portuguesa, tendo sido funcionária da embaixada brasileira em washington D.C., de 1961 a 1988.
Sua poesia, que encanta pela suavidade e lirismo, está registrada em diversas publicações, dentre as quais Vidências (1943), Entre Espelhos e Estrelas (1953), Folhas (1978), À sombra das Cerejeiras (1989) e Antologia Poética (1995).
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quarta-feira, 26 de março de 2014

'PAISAGEM MARAJOARA'


Da migração úmida e mansa do crepúsculo
ficou um olor de maresia brava,
lambendo o limo lodoso das raízes.
A lua, ciumenta e oca,
encolhida e acuada,
espia desconfiada,
pelas frestas da mata,
a terra grávida de sombras e silêncios...
O vento é um passarão agourento
voando por sobre os contornos ondulantes
da grande ilha supersticiosa
de litorais iluminados
pelos olhos da buiúna.

Adalcinda Camarão
Poesia do Grão-Pará, 2001(Seleção e notas Olga Savary)

''ANSEIO''


Ah, eu quisera ser aquela árvore
coberta pelas garças brancas de vôo incerto!
Árvore plantada pelo acaso
à margem do rio enorme!
Árvore de frondes anantos,
desejosa, quase humana,
que se arrepia ao contato
das penas dos papagaios que passam!
Árvore que tem o grande amor do vento
e que da sombra para o gado descansar.
Árvore estéril, árvore bela, árvore fresca,
árvore amante de todos os crepúsculos,
no solstício do inverno ou do verão,
Árvore do pensamento das outras árvores!

Adalcinda Camarão
Poesia do Grão-Pará, 2001(Seleção e notas Olga Savary)

''Despedida''


Pediste-me qualquer coisa.
Qualquer coisa de meu muito íntimo
que me cobrisse o corpo…
Que me tocasse a pele arrepiada,
E como pra te dar eu não tivesse nada,
E como só a escuridão me envolvesse
pelos olhos, pelos ombros,
pelo ventre morno e mofino,
eu te dei de presente a minha noite enorme,
a minha grande noite sem memória e sem destino!

Adalcinda Camarão,
do livro "Poesia do Grão-Pará" (seleção e notas de Olga Savary). Rio, Graphia, 2001.

[Arte: Bayram Salamov]

POETAS BRASILEIROS





Adalcinda Camarão
(1914-2005) – Pará-

Adalcinda Magno Camarão Luxardo
Poetisa paraense, nasceu em Muaná, no arquipélago marajoara e faleceu aos 91 anos em Belém.

Integrou a primeira geração de poetas influenciados pelo modenismo e regionalismo ainda na década de 30. Com Cléo Bernardo participou da revista literária Terra Imatura, em 1938.

Nas décadas seguintes teve participação ativa no cenário literário paraense, recebida como membro efetiva e perpétua da Academia Paraense de Letras em janeiro de 1959, ocupou a cadeira nº 17 e teve como patrono Felipe Patroni.
Publicou obras de poesia, além de peças teatrais. Foi figura central na era de ouro do rádio, tendo pontificado na antiga PRC-5, “a voz que canta e fala para a planície”.
Viveu muitos anos nos Estados Unidos, fazendo carreira no magistério da língua portuguesa, tendo sido funcionária da embaixada brasileira em washington D.C., de 1961 a 1988.
Sua poesia, que encanta pela suavidade e lirismo, está registrada em diversas publicações, dentre as quais Vidências (1943), Entre Espelhos e Estrelas (1953), Folhas (1978), À sombra das Cerejeiras (1989) e Antologia Poética (1995).