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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
FILHO PRÓDIGO
I
Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.
II
Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.
III
Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.
IV
Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.
V
Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
Foto do poeta e seu filho Leonardo.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
TAL VEZ, O QUE BASTE SABER*
I
Não que eu saiba tanto assim,
ou que menos me importe saber:
Há quantos, exatos incríveis anos,
não tomo um copo de cólera?
II
Não que me caiba aventar aqui,
quão mal me comporte ou sobreviva ali.
Ou arguir: Qual a veríssima idade
das algas, estrelas, pedras - da Luz?
Vez que tantos diferem de mim,
em tanta alegria ou tão pouca sorte,
qual a estival infame verdade do Tempo?
III
Sei, talvez suficiente, da noite, das luas,
dos rios e vaidades; do distraído
conviver com a morte – severa amante,
pão nosso primo de cada dia.
Conheço suas mais íntimas, venais,
profundas entranhas; becos, vielas e ruas
E elas, todas, muito mais sabem de mim!
IV
Sei, da madrugada, o estuário das manhas
- malditas e surdas; a densa voz de cada cidade:
A farsa inteira – crua, da servil tempestade
com que profana e abafa a viva manhã!
V
Do dia, mares, amor e sol, já soube
- e quis - mais.
Hoje, bem pouco sei. Mas o que sei me basta.
É este parco, velho, provável falso saber
que alimenta meu viver.
(Amanhã será outra noite!)
*Jairo De Britto, em
"Dunas de Marfim"
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
SIM, EU TENTO

Sim, eu quis escrever
um poema alegre.
...
Sim, eu quis antever
um poema alegre.
Sim, eu quis até viver
um poema alegre.
Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.
A vida me expôs
uma franqueza intensa.
Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.
Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.
Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
sábado, 12 de fevereiro de 2011
NO PRINCIPIO, O VERBO

I
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
... Que flui, como lava,
do seu aflito ou alegre coração.
II
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que arde e ilumina seu passo
ou ato de maior devoção.
III
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que do espírito espanta
ou alivia sua dor ou fantasia.
IV
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que saúda a criança abraçada
ao verbo, na via expressa.
V
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
A serviço do melhor ouvir;
mais aprender ou sorrir.
VI
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Seu mais caro e casto aludir;
a prima razão de tanto advir.
VII
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
paciente, seu transverso pensar;
com quem olvida o paladar.
Jairo De Britto,
de 'Dunas de Marfim'
domingo, 28 de novembro de 2010
SIM, EU TENTO*

Sim, eu quis escrever
um poema alegre.
...Sim, eu quis antever
um poema alegre.
Sim, eu quis até viver
um poema alegre.
Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.
A vida me expôs
uma franqueza intensa.
Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.
Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.
Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
terça-feira, 9 de novembro de 2010
COM PASSOS DE SONHOS*
(Primeiro Rascunho)
I
...Sobrevoando a floresta,
que acolhe e alimenta seus sonhos,
vislumbro curso e recursos do rio que,
de janeiro às águas de março,
acalentam os animais que povoam,
da minha menina esperta,
toda a fronte e fortes ombros.
II
Sobrepesando a festa,
descubro cobras e ursos,
paturis e gansos, garças e peixes
que habitam o lago à espreita
dos humores de águias e tigres:
que invadem o aquário secreto
da minha mulher, amante, sol, lua,
prima e vera cigana menina.
III
Tanto quanto tão pouco sei,
ela caminha sobre nuvens travessas.
Sobrenado e circundo sua íris, sua boca;
afago seus olhos e seios salgados.
IV
Insone e alerta, eu sei daquilo que poupa
e alimenta seus sonhos!
Então, devoro suas dálias,
dunas, fauna, cartas e cores avessas...
(Portanto, quando ela adormece,
eu Sou - e algo mais Sei!)
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
OLHOS D’ESPANHA

Mergulho em seus olhos
um amor de inteira argúcia:
medo, desespero, arte-ofícios.
Mergulho em seus olhos
um mar de nomes inéditos:
cometas, algas, êxtase, suicídios.
Mergulho em seus olhos
uma língua afiada em riste:
verbos, substantivos, pronomes;
oceanos de silêncio e silício.
Mergulho em seus olhos
arcanjos de nuvens e neve:
retalhos, letras, sussurros;
restos avessos da inútil paixão.
Submerso em seus olhos,
desnudo e descubro seu corpo:
então, sua beleza me resgata
do pântano das sobras e sombras.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Farra de cores
A Primavera se avizinha:
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.
Caminho pelo jardim.
Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.
Caminho entre seixos.
Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.
Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.
Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.
Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.
II
A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.
A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.
Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.
Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.
Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:
Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.
Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.
Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.
III
A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.
Caminho pelo jardim.
Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.
Caminho entre seixos.
Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.
Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.
Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.
Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.
II
A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.
A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.
Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.
Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.
Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:
Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.
Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.
Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.
III
A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
sábado, 28 de agosto de 2010
RESSONÂNCIA
Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.
Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.
Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
GOSTO DA LÍNGUA
domingo, 22 de agosto de 2010
SUPOSIÇÕES

I
Suponha que não sei
como a conheço.
Talvez assim
meus olhos amanheçam.
II
Suponha que não sei
do lado avesso.
Talvez assim
minhas mãos o reconheçam.
III
Suponha que não sei
o exato endereço.
Talvez assim
meus ouvidos o traduzam.
IV
Suponha que não sei
o claro caminho.
Talvez assim
minhas pernas me conduzam.
V
Suponha que não sei
do bravo carinho.
Talvez assim
minha boca o descubra em canto.
VI
Suponha que não sei
quando ou como atravessar o rio.
Talvez assim
aprenda a nadar enquanto.
VII
Suponha que nada sei
do amor, viver ou ser.
Talvez assim
meus pés me levem até você.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quinta-feira, 3 de junho de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
IDA & VOLTA
(Abstracto)Do Inferno, sempre volto com algo:
uma, sete, des-lembranças perdidas;
escoriações em corpos e almas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
aves ávidas de sangue, árvores torcidas;
um alvoroço infinito de estrelas mortas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
fauna e flora de um tempo sem história;
aquela avalanche de palavras surdas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
um infindo desespero-agonia desmedida;
aquele sentir de nada mais querer ser.
Do Inferno, sempre volto com algo:
luxúria antevista em negro veludo infame;
aquele de um carnaval de vísceras ardidas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
olhos cheios da atávica angústia de outras vidas;
daquelas aflitas de acaso e de ocaso plasmadas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
mãos atadas a cravos vermelhos insones;
aquelas razões plenas de medo e flores vis.
Do Inferno, sempre volto com algo:
coração apinhado de paisagens nada sutis;
aquele oásis de palmas e cisternas secas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
os pés continuam tortos e o corpo anoitece;
naquele esvair-se que o quê resta da vida tece.
Quando volto, nem sempre é a alegria
que me aguarda ou abraça!
Trago sempre visões enredadas à saudade:
àquela, mesclada à certeza de onde pertenço.
Jairo De Britto,
em 'Dunas de Marfim'
segunda-feira, 24 de maio de 2010
INTENÇÕES DIVINAS*
Os deuses criaram madrugadas estreitaspara que bêbados, pássaros e poetas
repousassem seus lábios e penas,
após dias de pura, inútil tempestade.
Os deuses criaram noites inteiras
para que putas, políticos e poetas
afiassem suas unhas, artimanhas e gemas,
após dias de enferma, escusa voragem.
Os deuses criaram manhãs de algazarra plenas
para que aves e animais, todos e tontos,
derramassem suas cestas de teses e fatos
na távola insone de cada um de seus mundos.
As tardes, inteiras e extremas, os deuses
reservaram para que os homens descalços,
de boa ou má vontade, sóbrios ou falsos,
revelassem seus cantos primos; seus atos maduros.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
'TEMPO IMEDIATO'

O Tempo é tema
ingrato, teclas de sono
sobre células ávidas:
Tapete perene
sob meus pés de sonho.
O Tempo cobre
de penas e alegrias
minhas tantas noites:
Confere novas cores
a meus dias di-versos.
O Tempo sofre
aparas, afere augúrios,
distribui o terror inédito:
Insólito e voraz,
ele cobra meus anos.
O Tempo enorme,
às vezes cálido e audaz,
abriga amor e medo:
Descobre self, sonhos
e faces que aflito exponho.
Jairo De Britto,
In Dunas de Marfim
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
ROSA ENLUARADA

A rosa vermelha,
fresca e orvalhada,
sobre o teclado frio,
inerte, pousada
diz mais que muito.
A rosa vermelha,
tenra e molhada,
sobre o teclado cria
e verte o dito quieto.
A rosa vermelha,
infante e felina,
sobre o teclado ousa
dizer mais que muito.
A rosa vermelha,
invade meus olhos.
Nada teme: inteira sua;
é lua nua em íntimo culto.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O SOM DAS ÁGUAS DOCES

Fazer feito o fiel verdureiro:
equilibrar nos ombros largos
dois cestos; ambulante resoluto -
presença diária no pequeno mundo
da enorme fome dos homens simples.
Conferir, compete ao aventureiro:
cada conta pendurar no avental
de quantos aventam saltar,
de inteiro corpo, na tempestade
da afoita vida dos homens simples.
Atentar, cabe àqueles que expiam
tantas perdas; que sonham oceanos
de inéditos pecados ao pé do altar.
Do profano ao sagrado, cabe àqueles
espionar a fantasia dos homens simples.
Avançar, confere venturas a quantos,
atrevidos, gravam nos seixos dos rios
o inominável, o índigo, o quieto Quasar,
e o som dos espíritos das águas doces -
que banha a vida dos homens simples.
Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”
sábado, 19 de setembro de 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
PRINCÍPIO REVERSO

Toda estória tem dois lados,
como a moeda da própria história.
Como o dia e a noite,
como o gelo e o fogo:
verão, inverno, céu e inferno.
Toda memória tem dois fados,
como a beleza e a falácia da glória.
Como o imóvel e o veloz,
como o crédulo e o néscio:
lume, escuro, verão e inverno.
Toda história tem dois fardos,
como a sacola e o silêncio do viajante.
Como a tristeza e a grandeza do nascer,
como a pura luz e o tempo voraz:
espaço, sal, sangue
e o infinito terror do viver.
- Jairo De Britto -
quinta-feira, 16 de julho de 2009
IMPASSE URBANO
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quinta-feira, 13 de outubro de 2011
FILHO PRÓDIGO
I
Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.
II
Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.
III
Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.
IV
Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.
V
Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
Foto do poeta e seu filho Leonardo.
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quarta-feira, 6 de julho de 2011
TAL VEZ, O QUE BASTE SABER*
I
Não que eu saiba tanto assim,
ou que menos me importe saber:
Há quantos, exatos incríveis anos,
não tomo um copo de cólera?
II
Não que me caiba aventar aqui,
quão mal me comporte ou sobreviva ali.
Ou arguir: Qual a veríssima idade
das algas, estrelas, pedras - da Luz?
Vez que tantos diferem de mim,
em tanta alegria ou tão pouca sorte,
qual a estival infame verdade do Tempo?
III
Sei, talvez suficiente, da noite, das luas,
dos rios e vaidades; do distraído
conviver com a morte – severa amante,
pão nosso primo de cada dia.
Conheço suas mais íntimas, venais,
profundas entranhas; becos, vielas e ruas
E elas, todas, muito mais sabem de mim!
IV
Sei, da madrugada, o estuário das manhas
- malditas e surdas; a densa voz de cada cidade:
A farsa inteira – crua, da servil tempestade
com que profana e abafa a viva manhã!
V
Do dia, mares, amor e sol, já soube
- e quis - mais.
Hoje, bem pouco sei. Mas o que sei me basta.
É este parco, velho, provável falso saber
que alimenta meu viver.
(Amanhã será outra noite!)
*Jairo De Britto, em
"Dunas de Marfim"
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
SIM, EU TENTO

Sim, eu quis escrever
um poema alegre.
...
Sim, eu quis antever
um poema alegre.
Sim, eu quis até viver
um poema alegre.
Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.
A vida me expôs
uma franqueza intensa.
Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.
Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.
Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.
Jairo De Britto,
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sábado, 12 de fevereiro de 2011
NO PRINCIPIO, O VERBO

I
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
... Que flui, como lava,
do seu aflito ou alegre coração.
II
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que arde e ilumina seu passo
ou ato de maior devoção.
III
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que do espírito espanta
ou alivia sua dor ou fantasia.
IV
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Que saúda a criança abraçada
ao verbo, na via expressa.
V
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
A serviço do melhor ouvir;
mais aprender ou sorrir.
VI
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
devagar, a palavra
Seu mais caro e casto aludir;
a prima razão de tanto advir.
VII
Cuidado, amigo,
com quem não acompanha,
paciente, seu transverso pensar;
com quem olvida o paladar.
Jairo De Britto,
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domingo, 28 de novembro de 2010
SIM, EU TENTO*

Sim, eu quis escrever
um poema alegre.
...Sim, eu quis antever
um poema alegre.
Sim, eu quis até viver
um poema alegre.
Mas, a vida me impôs
uma tristeza imensa.
A vida me expôs
uma franqueza intensa.
Então, não havia escolha:
como a tristeza no bolso,
esmago a ausência insana.
Mas eu quis, sim, escrever
um poema alegre.
Apenas um, porque é preciso:
enquanto ainda sobrevivo.
*Jairo De Britto,
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
COM PASSOS DE SONHOS*
(Primeiro Rascunho)
I
...Sobrevoando a floresta,
que acolhe e alimenta seus sonhos,
vislumbro curso e recursos do rio que,
de janeiro às águas de março,
acalentam os animais que povoam,
da minha menina esperta,
toda a fronte e fortes ombros.
II
Sobrepesando a festa,
descubro cobras e ursos,
paturis e gansos, garças e peixes
que habitam o lago à espreita
dos humores de águias e tigres:
que invadem o aquário secreto
da minha mulher, amante, sol, lua,
prima e vera cigana menina.
III
Tanto quanto tão pouco sei,
ela caminha sobre nuvens travessas.
Sobrenado e circundo sua íris, sua boca;
afago seus olhos e seios salgados.
IV
Insone e alerta, eu sei daquilo que poupa
e alimenta seus sonhos!
Então, devoro suas dálias,
dunas, fauna, cartas e cores avessas...
(Portanto, quando ela adormece,
eu Sou - e algo mais Sei!)
*Jairo De Britto,
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010
OLHOS D’ESPANHA

Mergulho em seus olhos
um amor de inteira argúcia:
medo, desespero, arte-ofícios.
Mergulho em seus olhos
um mar de nomes inéditos:
cometas, algas, êxtase, suicídios.
Mergulho em seus olhos
uma língua afiada em riste:
verbos, substantivos, pronomes;
oceanos de silêncio e silício.
Mergulho em seus olhos
arcanjos de nuvens e neve:
retalhos, letras, sussurros;
restos avessos da inútil paixão.
Submerso em seus olhos,
desnudo e descubro seu corpo:
então, sua beleza me resgata
do pântano das sobras e sombras.
Jairo De Britto,
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Farra de cores
A Primavera se avizinha:
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.
Caminho pelo jardim.
Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.
Caminho entre seixos.
Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.
Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.
Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.
Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.
II
A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.
A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.
Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.
Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.
Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:
Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.
Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.
Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.
III
A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
raízes e letras
exigem sua hora e tempo.
Caminho pelo jardim.
Espinhos do alfabeto,
Azaléias da alma insone.
Caminho entre seixos.
Busco o perfeito aquário,
Onze-horas e algas
orientam os peixes.
Pedras, nuvens e letras noir.
Tudo anuncia a Primavera:
discreta, Almíscar, esperta.
Em torno dos homens
entorna suas flores, perfume,
brisa, maresia e malícia.
Palavras azuis sobre o mar.
Sobre o marfim, música,
frases, orquídeas raras.
II
A Primavera caminha anônima
como homens e mulheres na rua,
afoita com tantas luas.
A Primavera espraia
graça entre samambaias,
escala buganvílias, assanha roseiras.
Espio, solene, sapos e flores;
espreito folhagens, livros antigos.
Refaço e traço veredas,
espelho versos contra o sol.
Entre seios de nuas mulheres,
abrigo meus olhos úmidos:
Vermelhos antúrios
em fins de madrugada.
Calculo frações primas e veras;
pernas, seios, trepadeiras e lírios.
Estrelas avessas da manhã,
casuarinas de sonhos.
III
A Primavera se avizinha:
enlouquece românticos e céticos,
com sua farra de cores;
seu derrame de felicidade.
Jairo De Britto,
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sábado, 28 de agosto de 2010
RESSONÂNCIA
Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.
Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...
Jairo De Britto,
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infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.
Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...
Jairo De Britto,
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GOSTO DA LÍNGUA

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
aprender.
Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para melhor poder
apreender.
Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
saber.
Aquilo que ignoro,
escancaro.
Para, na ponta da língua,
avaro sabor todo sentir.
Jairo De Britto,
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domingo, 22 de agosto de 2010
SUPOSIÇÕES

I
Suponha que não sei
como a conheço.
Talvez assim
meus olhos amanheçam.
II
Suponha que não sei
do lado avesso.
Talvez assim
minhas mãos o reconheçam.
III
Suponha que não sei
o exato endereço.
Talvez assim
meus ouvidos o traduzam.
IV
Suponha que não sei
o claro caminho.
Talvez assim
minhas pernas me conduzam.
V
Suponha que não sei
do bravo carinho.
Talvez assim
minha boca o descubra em canto.
VI
Suponha que não sei
quando ou como atravessar o rio.
Talvez assim
aprenda a nadar enquanto.
VII
Suponha que nada sei
do amor, viver ou ser.
Talvez assim
meus pés me levem até você.
Jairo De Britto,
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quinta-feira, 3 de junho de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
IDA & VOLTA
(Abstracto)Do Inferno, sempre volto com algo:
uma, sete, des-lembranças perdidas;
escoriações em corpos e almas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
aves ávidas de sangue, árvores torcidas;
um alvoroço infinito de estrelas mortas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
fauna e flora de um tempo sem história;
aquela avalanche de palavras surdas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
um infindo desespero-agonia desmedida;
aquele sentir de nada mais querer ser.
Do Inferno, sempre volto com algo:
luxúria antevista em negro veludo infame;
aquele de um carnaval de vísceras ardidas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
olhos cheios da atávica angústia de outras vidas;
daquelas aflitas de acaso e de ocaso plasmadas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
mãos atadas a cravos vermelhos insones;
aquelas razões plenas de medo e flores vis.
Do Inferno, sempre volto com algo:
coração apinhado de paisagens nada sutis;
aquele oásis de palmas e cisternas secas.
Do Inferno, sempre volto com algo:
os pés continuam tortos e o corpo anoitece;
naquele esvair-se que o quê resta da vida tece.
Quando volto, nem sempre é a alegria
que me aguarda ou abraça!
Trago sempre visões enredadas à saudade:
àquela, mesclada à certeza de onde pertenço.
Jairo De Britto,
em 'Dunas de Marfim'
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
INTENÇÕES DIVINAS*
Os deuses criaram madrugadas estreitaspara que bêbados, pássaros e poetas
repousassem seus lábios e penas,
após dias de pura, inútil tempestade.
Os deuses criaram noites inteiras
para que putas, políticos e poetas
afiassem suas unhas, artimanhas e gemas,
após dias de enferma, escusa voragem.
Os deuses criaram manhãs de algazarra plenas
para que aves e animais, todos e tontos,
derramassem suas cestas de teses e fatos
na távola insone de cada um de seus mundos.
As tardes, inteiras e extremas, os deuses
reservaram para que os homens descalços,
de boa ou má vontade, sóbrios ou falsos,
revelassem seus cantos primos; seus atos maduros.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
'TEMPO IMEDIATO'

O Tempo é tema
ingrato, teclas de sono
sobre células ávidas:
Tapete perene
sob meus pés de sonho.
O Tempo cobre
de penas e alegrias
minhas tantas noites:
Confere novas cores
a meus dias di-versos.
O Tempo sofre
aparas, afere augúrios,
distribui o terror inédito:
Insólito e voraz,
ele cobra meus anos.
O Tempo enorme,
às vezes cálido e audaz,
abriga amor e medo:
Descobre self, sonhos
e faces que aflito exponho.
Jairo De Britto,
In Dunas de Marfim
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
ROSA ENLUARADA

A rosa vermelha,
fresca e orvalhada,
sobre o teclado frio,
inerte, pousada
diz mais que muito.
A rosa vermelha,
tenra e molhada,
sobre o teclado cria
e verte o dito quieto.
A rosa vermelha,
infante e felina,
sobre o teclado ousa
dizer mais que muito.
A rosa vermelha,
invade meus olhos.
Nada teme: inteira sua;
é lua nua em íntimo culto.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O SOM DAS ÁGUAS DOCES

Fazer feito o fiel verdureiro:
equilibrar nos ombros largos
dois cestos; ambulante resoluto -
presença diária no pequeno mundo
da enorme fome dos homens simples.
Conferir, compete ao aventureiro:
cada conta pendurar no avental
de quantos aventam saltar,
de inteiro corpo, na tempestade
da afoita vida dos homens simples.
Atentar, cabe àqueles que expiam
tantas perdas; que sonham oceanos
de inéditos pecados ao pé do altar.
Do profano ao sagrado, cabe àqueles
espionar a fantasia dos homens simples.
Avançar, confere venturas a quantos,
atrevidos, gravam nos seixos dos rios
o inominável, o índigo, o quieto Quasar,
e o som dos espíritos das águas doces -
que banha a vida dos homens simples.
Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”
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sábado, 19 de setembro de 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
PRINCÍPIO REVERSO

Toda estória tem dois lados,
como a moeda da própria história.
Como o dia e a noite,
como o gelo e o fogo:
verão, inverno, céu e inferno.
Toda memória tem dois fados,
como a beleza e a falácia da glória.
Como o imóvel e o veloz,
como o crédulo e o néscio:
lume, escuro, verão e inverno.
Toda história tem dois fardos,
como a sacola e o silêncio do viajante.
Como a tristeza e a grandeza do nascer,
como a pura luz e o tempo voraz:
espaço, sal, sangue
e o infinito terror do viver.
- Jairo De Britto -
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quinta-feira, 16 de julho de 2009
IMPASSE URBANO

O semáforo
irrita
a rua
que ri
de si
dó maior.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
(Formatado pela amiga Amália Catarina)
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