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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
'MONÓLOGO ENTRE SETAS'
Antigamente amei, e contemplei o absurdo
como alguém se mira num espelho que não vê
ou uma quilha de navio, ao entrar na baía,
desorienta um cardume de peixes.
De tanto amor amado, ficou um barulho cada vez mais
[fraco
igual a um rumor de casa pela manhã
ou aos motores de um avião na névoa, sobrevoando uma
[cidade.
E era um amor grande como a eternidade vista do tempo.
Nada me comove agora, nem a paixão bebida entre
[relâmpagos.
Sou perpendicular ao tédio, imito um remo fixo n'água.
No vaivém da vida, a canoa balança, os céus resplandecem
e, insensível à dor, como uma pedra, evapora-me nas águas
[abstratas.
Lêdo Ivo
In Antologia Poética
[Art by Sera Knight]
''NOTÍCIA DO SÁBADO MAGRO''
Bailemos todos, que a noite
dura apenas um suspiro,
e só temos um minuto
para gastar nossas vidas.
Bailemos. Benditos sejam
cegos, loucos e mendigos,
que, embora não bailam nunca,
vão ganhar o Paraíso.
Tudo agora se assemelha
ao sonho de nossa infância:
entre fanfarras e gritos,
máscaras em negro e branco.
No turbilhão dos bailantes,
benditos sejam palhaços
que não foram convidados
para este sábado magro.
E também sejam benditos
as cartomantes e o mágicos.
Bailemos todos, que a vida
não passará deste sábado.
No império do calafrio,
benditos sejam os amantes,
bêbedos e saltimbancos.
E bendita seja a infância.
Bailemos: a vida é breve.
Cantemos: a saia é leve.
Bebamos: é de cevada
o sonho de nossa treva.
Uma nova fantasia
à luz purpúrea se talha.
No escuro já se costura
nossa futura mortalha.
Lêdo Ivo
In Antologia Poética
[Painting by Sera Knight]
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
COMPASSO DE CALMARIA
Já não falo de amor aos céus de pedra
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
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Antigamente amei, e contemplei o absurdo
como alguém se mira num espelho que não vê
ou uma quilha de navio, ao entrar na baía,
desorienta um cardume de peixes.
De tanto amor amado, ficou um barulho cada vez mais
[fraco
igual a um rumor de casa pela manhã
ou aos motores de um avião na névoa, sobrevoando uma
[cidade.
E era um amor grande como a eternidade vista do tempo.
Nada me comove agora, nem a paixão bebida entre
[relâmpagos.
Sou perpendicular ao tédio, imito um remo fixo n'água.
No vaivém da vida, a canoa balança, os céus resplandecem
e, insensível à dor, como uma pedra, evapora-me nas águas
[abstratas.
Lêdo Ivo
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''NOTÍCIA DO SÁBADO MAGRO''
Bailemos todos, que a noite
dura apenas um suspiro,
e só temos um minuto
para gastar nossas vidas.
Bailemos. Benditos sejam
cegos, loucos e mendigos,
que, embora não bailam nunca,
vão ganhar o Paraíso.
Tudo agora se assemelha
ao sonho de nossa infância:
entre fanfarras e gritos,
máscaras em negro e branco.
No turbilhão dos bailantes,
benditos sejam palhaços
que não foram convidados
para este sábado magro.
E também sejam benditos
as cartomantes e o mágicos.
Bailemos todos, que a vida
não passará deste sábado.
No império do calafrio,
benditos sejam os amantes,
bêbedos e saltimbancos.
E bendita seja a infância.
Bailemos: a vida é breve.
Cantemos: a saia é leve.
Bebamos: é de cevada
o sonho de nossa treva.
Uma nova fantasia
à luz purpúrea se talha.
No escuro já se costura
nossa futura mortalha.
Lêdo Ivo
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012
COMPASSO DE CALMARIA
Já não falo de amor aos céus de pedra
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
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