Seja bem-vindo. Hoje é
terça-feira, 3 de setembro de 2013
''SAUDADE''
Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.
À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.
E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,
Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.
[Augusto dos Anjos]
- Primeiro soneto de Augusto dos Anjos a ser publicado em um periódico em 1900-
''Mágoas''
Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.
Mais tarde da existência nos verdores
Da infância nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha infância nunca teve flores!
Volvendo à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita à Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.
Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!
[Augusto dos Anjos]
''ILUSÃO''
Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes
Tudo que sentes. A infelicidade
Parece às vezes com a felicidade
E os infelizes mostram ser felizes!
Assim, em Tebas - a tumbal cidade,
A múmia de um herói do tempo de Ísis,
Ostenta ainda as mesmas cicatrizes
Que eternizaram sua heroicidade!
Quem vê o herói, inda com o braço altivo,
Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,
E, persuadido fica do que diz...
Bem como tu, que nessa crença infinda
Feliz me viste no Passado, e ainda
Te persuades de que sou feliz!
[Augusto dos Anjos]
AUGUSTO DOS ANJOS
Augusto dos Anjos nasceu no engenho Pau
d'Arco, no município de Sapé, estado da Paraíba. Foi educado nas
primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908. Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos 7 anos de idade.
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia Sagrada ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.
Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.
Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.
Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
*Os poemas de Augusto dos Anjos (fortemente influenciados por Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, Cesário Verde e Antero de Quental, Charles Darwin e Friedrich Nietzsche) revelam a sua multiplicidade de interesses: ciências naturais, química, mitologia, matemática, religião, geografia e filosofia.
*Embora tenha escrito em diversos sistemas métricos, foi o soneto decassílabo que consagrou Augusto dos Anjos. Cultivando a morbidez e o dualismo agônico, compôs versos de impactante força e misteriosa musicalidade. Como pode ser comprovado em poemas clássicos como Psicologia de um Vencido ou Versos Íntimos.
Augusto dos Anjos foi um poeta 'avant la lettre', pois soube antecipar alguns recursos da modernidade: pessimismo sobre a condição humana, excesso verborrágico, frequente adjetivação, renovação vocabular e o uso distintivo de recursos gráficos (pontos de exclamação, reticências, letras maiúsculas).
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia Sagrada ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.
Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.
Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.
Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
*Os poemas de Augusto dos Anjos (fortemente influenciados por Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, Cesário Verde e Antero de Quental, Charles Darwin e Friedrich Nietzsche) revelam a sua multiplicidade de interesses: ciências naturais, química, mitologia, matemática, religião, geografia e filosofia.
*Embora tenha escrito em diversos sistemas métricos, foi o soneto decassílabo que consagrou Augusto dos Anjos. Cultivando a morbidez e o dualismo agônico, compôs versos de impactante força e misteriosa musicalidade. Como pode ser comprovado em poemas clássicos como Psicologia de um Vencido ou Versos Íntimos.
Augusto dos Anjos foi um poeta 'avant la lettre', pois soube antecipar alguns recursos da modernidade: pessimismo sobre a condição humana, excesso verborrágico, frequente adjetivação, renovação vocabular e o uso distintivo de recursos gráficos (pontos de exclamação, reticências, letras maiúsculas).
[Pesquisa e fotografia retirados da Internet]
Marcadores:
Biografia de Augusto dos Anjos.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
''AUSÊNCIA DEFENSIVA''
Estou sempre em qualquer lugar
onde eu penso sem pensamento
porque o tempo passa no tempo
sem que o sonho possa esperar.
Estou sempre em qualquer lugar
onde o pranto chora sem mágoa
murmuram os riachos sem água
navegam meus barcos sem mar.
Estou sempre em qualquer lugar
onde os jardins crescem abertos
sem sucumbir como os desertos
onde ninguém vai me encontrar.
Estou sempre em qualquer lugar
despertando as minhas ternuras
dentre as pedras das amarguras
que me lançam querendo amar.
Afonso Estebanez Stael
{Tela de Josephine Wall}
segunda-feira, 8 de julho de 2013
''VOCÊ ESCOLHE''
(a uma jovem)
Você inicia sem muita convicção
a marcha para dentro de si mesma;
longa caminhada dos desesperados
em busca da verdade que se pensa.
A dor que rompe a alma é sensação
exata de incisiva lâmina nos nervos
tensos trançados no oco do abismo
- câncer de desamor e desavenças.
Você poderá olhar para os espelhos
e sentir-se consútil. E, perdida,
fazer-se íntima da morte com um gesto.
Ou então abordar a Flor Visível
e ficar naquela contemplação enorme
cristalizando as cores nos sentidos.
Ricardo dos Anjos
(Niterói - 1974)
{Tela de Michael Garmash}
Marcadores:
Ricardo Augusto dos Anjos
''Canto Primeiro''
Se algum irmão de sangue (de poesia)
Mago de duplas cores no seu manto
Testemunhou sem anjo em muitos cantos
Eu, de alma tão sofrida de inocências
O meu não cantaria?
E antes deste amor
Que passeio entre sombras!
Tantas luas ausentes
E veladas fontes.
Que asperezas de tato descobri
Nas coisas de contexto delicado.
Andei
Em direção oposta aos grande ventos.
Nos pássaros mais altos, meu olhar
De novo incandescia. Ah, fui sempre
A das visões tardias!
Desde sempre caminho entre dois mundos
Mas a tua face é aquela onde me via
Onde me sei agora desdobrada.
Hilda Hilst
À MESMA HORA
À mesma hora, no mesmo lugar,
eu caminhava entre árvores
e espremia nos dedos
o mudo cipreste.
Mas naquele instante
entre cúmplices imagens
(quando a sombra me tece
e o sem-fundo do lago me diz)
no frescor do mais contido sumo
cheirei a poesia, como do nada
e caminhei sobre águas –
o naufrágio por um triz.
(Fernando Campanella)
***
Deus
tu que me salvaste
dos longos braços
da morte
tantas vezes
- Salva-me da Vida.
Miriam Portela
in ' Nos Mares de Vênus.'
''Só queria''
Só queria uma palavrinha,
poderia se bem simples,
uma palavrinha amiga,
uma palavrinha carinhosa..
Uma palavra sem desdicha,
Uma palavra de entendimento
Uma só, que compreendesse
minha ânsia, minha carência ...
Uma palavrinha que perdoasse
os erros meus,
uma palavrinha que não fizesse chorar
essa velha alma...
Uma palavra que dissesse;
Eu te compreendo
e te amo mesmo assim...
Anna Carlini
[1949]
quarta-feira, 27 de março de 2013
''PRELÚDIO CREPUSCULAR''
No poente
silente
os choupos esguios
balançam
e dançam
refletidos
nos lagos adormecidos
e frios.
A bruma
esfuma
a paisagem
onde a sombra
ensombra
a ramagem.
A claridade amortece...
E, lenta, a noite desce
sobre o jardim,
enquanto fico a relembrar
a tarde em que sobre mim
eu tive o teu olhar.
A claridade amortece...
E nos espelhos gelados
projetam-se magoados
os altos choupos esguios
por entre as sombras das rosas,
que finas e veludosas
perfumam os lagos frios.
No céu, porém, claro e fino
como o teu olhar cristalino
uma estrela cintila,
e espelha-se na água dormente,
enquanto o poente
vacila...
Alfredo Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas
Marcadores:
Alfredo Cumplido de Santana
quinta-feira, 14 de março de 2013
''Metamorfose''
As borboletas são as flores
que, enfim, conseguiram voar,
mas vivem a rondar as plantas
como quem ronda o antigo lar;
há sempre, pelo ar, um jardim
de rosa múltipla e jasmim,
e há, talvez, a vontade enorme
em tudo de perder seu peso,
ter a leveza de quem dorme,
ser a lembrança no abandono,
ou luz de estrela se apagando.
Alberto da Cunha Melo
In: Dois caminhos e uma oração
''RIOS''
Rios de minh’alma
Caudalosos de amor,
Correntezas sem calma
Descolorindo-se
Às vezes em dor!
Nascentes tão puras,
Despejam venturas
Após desventuras,
Naufrágios de Amor!
Ontem turbulentos,
Hoje venturosos,
Amanhã silenciosos
...águas de sangue
...águas de luz!
Rios de minh’alma:
- desviastes tantos cursos
Buscando margens seguras ..!
Repousastes
Num eterno espraiar ...,
Alvina Nunes Tzovenos
in 'Sonhos e vivencias'
''A VIDA TEM CORES''
A vida tem cores
Nas cores da vida,
Em aquarela tingida
... desenha luz e som !
A vida tem cores
No beijo dos pássaros, num adeus sem perfumes
... no pólen da flores!
A vida tem cores
Numa palavra amarga,
Num céu muito amplo
... presença que tarda!
A vida tem cores
Num abraço amoroso
Num sorriso que chega
... num crepúsculo cheiroso!
A vida tem cores
Nos sonhos vividos,
Nos mares inquietos
... nos encontros perdidos!
A vida tem muitas e muitas cores,
As que ninguém pode ver,
Quando minh’alma chora e ri
Pela felicidade
Que eu posso conter!
A vida tem cores
Mesmo num coração morto!
Alvina Nunes Tzovenos
de "Sonhos e vivencias"
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
'SENSAÇÕES¨'
Sensações de tristeza ou de alegria,
dá-no-las a Alma, como ideal produto
das impressões vitais de cada dia
engalanado em luz, sombreado em luto.
Pode o Espírito estar tranquilo e enxuto:
mas, se os olhos se inquietam, à porfia,
a lágrima, que esponta, é já o fruto
das sensações... É o coração que expia...
E, ao transcorrer desse diamante bruto,
a Vida, toda, se consubstancia,
tal, um século, às vezes, num minuto!
Ilumina-se, assim, a Alma sombria:
— o que sinto, olho, gosto, palpo, escuto...
— sensações de tristeza ou de alegria...
[Hermes Fontes]
(Tela de EDOUARD FREDERIC WILHELM RICHTER)
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terça-feira, 3 de setembro de 2013
''SAUDADE''
Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.
À noite quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.
E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,
Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.
[Augusto dos Anjos]
- Primeiro soneto de Augusto dos Anjos a ser publicado em um periódico em 1900-
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Augusto dos Anjos
''Mágoas''
Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.
Mais tarde da existência nos verdores
Da infância nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha infância nunca teve flores!
Volvendo à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita à Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.
Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar mágoas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!
[Augusto dos Anjos]
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Augusto dos Anjos
''ILUSÃO''
Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes
Tudo que sentes. A infelicidade
Parece às vezes com a felicidade
E os infelizes mostram ser felizes!
Assim, em Tebas - a tumbal cidade,
A múmia de um herói do tempo de Ísis,
Ostenta ainda as mesmas cicatrizes
Que eternizaram sua heroicidade!
Quem vê o herói, inda com o braço altivo,
Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,
E, persuadido fica do que diz...
Bem como tu, que nessa crença infinda
Feliz me viste no Passado, e ainda
Te persuades de que sou feliz!
[Augusto dos Anjos]
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Augusto dos Anjos
AUGUSTO DOS ANJOS
Augusto dos Anjos nasceu no engenho Pau
d'Arco, no município de Sapé, estado da Paraíba. Foi educado nas
primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908. Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos 7 anos de idade.
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia Sagrada ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.
Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.
Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.
Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
*Os poemas de Augusto dos Anjos (fortemente influenciados por Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, Cesário Verde e Antero de Quental, Charles Darwin e Friedrich Nietzsche) revelam a sua multiplicidade de interesses: ciências naturais, química, mitologia, matemática, religião, geografia e filosofia.
*Embora tenha escrito em diversos sistemas métricos, foi o soneto decassílabo que consagrou Augusto dos Anjos. Cultivando a morbidez e o dualismo agônico, compôs versos de impactante força e misteriosa musicalidade. Como pode ser comprovado em poemas clássicos como Psicologia de um Vencido ou Versos Íntimos.
Augusto dos Anjos foi um poeta 'avant la lettre', pois soube antecipar alguns recursos da modernidade: pessimismo sobre a condição humana, excesso verborrágico, frequente adjetivação, renovação vocabular e o uso distintivo de recursos gráficos (pontos de exclamação, reticências, letras maiúsculas).
Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.
Com a obra de Herbert Spencer, teria aprendido a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendido a evolução da natureza e da humanidade. De Ernst Haeckel, teria absorvido o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhauer o teria inspirado a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. E da Bíblia Sagrada ao qual, também, não contestava sua essência espiritualística, usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.
Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.
Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, onde era diretor de um grupo escolar. A causa de sua morte foi a pneumonia.
Durante sua vida, publicou vários poemas em periódicos, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publicou seu livro único de poemas, Eu. Após sua morte, seu amigo Órris Soares organizaria uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas até então não publicados pelo autor.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
*Os poemas de Augusto dos Anjos (fortemente influenciados por Charles Baudelaire e Edgar Allan Poe, Cesário Verde e Antero de Quental, Charles Darwin e Friedrich Nietzsche) revelam a sua multiplicidade de interesses: ciências naturais, química, mitologia, matemática, religião, geografia e filosofia.
*Embora tenha escrito em diversos sistemas métricos, foi o soneto decassílabo que consagrou Augusto dos Anjos. Cultivando a morbidez e o dualismo agônico, compôs versos de impactante força e misteriosa musicalidade. Como pode ser comprovado em poemas clássicos como Psicologia de um Vencido ou Versos Íntimos.
Augusto dos Anjos foi um poeta 'avant la lettre', pois soube antecipar alguns recursos da modernidade: pessimismo sobre a condição humana, excesso verborrágico, frequente adjetivação, renovação vocabular e o uso distintivo de recursos gráficos (pontos de exclamação, reticências, letras maiúsculas).
[Pesquisa e fotografia retirados da Internet]
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Biografia de Augusto dos Anjos.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
''AUSÊNCIA DEFENSIVA''
Estou sempre em qualquer lugar
onde eu penso sem pensamento
porque o tempo passa no tempo
sem que o sonho possa esperar.
Estou sempre em qualquer lugar
onde o pranto chora sem mágoa
murmuram os riachos sem água
navegam meus barcos sem mar.
Estou sempre em qualquer lugar
onde os jardins crescem abertos
sem sucumbir como os desertos
onde ninguém vai me encontrar.
Estou sempre em qualquer lugar
despertando as minhas ternuras
dentre as pedras das amarguras
que me lançam querendo amar.
Afonso Estebanez Stael
{Tela de Josephine Wall}
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Afonso Estebanez
segunda-feira, 8 de julho de 2013
''VOCÊ ESCOLHE''
(a uma jovem)
Você inicia sem muita convicção
a marcha para dentro de si mesma;
longa caminhada dos desesperados
em busca da verdade que se pensa.
A dor que rompe a alma é sensação
exata de incisiva lâmina nos nervos
tensos trançados no oco do abismo
- câncer de desamor e desavenças.
Você poderá olhar para os espelhos
e sentir-se consútil. E, perdida,
fazer-se íntima da morte com um gesto.
Ou então abordar a Flor Visível
e ficar naquela contemplação enorme
cristalizando as cores nos sentidos.
Ricardo dos Anjos
(Niterói - 1974)
{Tela de Michael Garmash}
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Ricardo Augusto dos Anjos
''Canto Primeiro''
Se algum irmão de sangue (de poesia)
Mago de duplas cores no seu manto
Testemunhou sem anjo em muitos cantos
Eu, de alma tão sofrida de inocências
O meu não cantaria?
E antes deste amor
Que passeio entre sombras!
Tantas luas ausentes
E veladas fontes.
Que asperezas de tato descobri
Nas coisas de contexto delicado.
Andei
Em direção oposta aos grande ventos.
Nos pássaros mais altos, meu olhar
De novo incandescia. Ah, fui sempre
A das visões tardias!
Desde sempre caminho entre dois mundos
Mas a tua face é aquela onde me via
Onde me sei agora desdobrada.
Hilda Hilst
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Hilda Hilst
À MESMA HORA
À mesma hora, no mesmo lugar,
eu caminhava entre árvores
e espremia nos dedos
o mudo cipreste.
Mas naquele instante
entre cúmplices imagens
(quando a sombra me tece
e o sem-fundo do lago me diz)
no frescor do mais contido sumo
cheirei a poesia, como do nada
e caminhei sobre águas –
o naufrágio por um triz.
(Fernando Campanella)
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***
Deus
tu que me salvaste
dos longos braços
da morte
tantas vezes
- Salva-me da Vida.
Miriam Portela
in ' Nos Mares de Vênus.'
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''Só queria''
Só queria uma palavrinha,
poderia se bem simples,
uma palavrinha amiga,
uma palavrinha carinhosa..
Uma palavra sem desdicha,
Uma palavra de entendimento
Uma só, que compreendesse
minha ânsia, minha carência ...
Uma palavrinha que perdoasse
os erros meus,
uma palavrinha que não fizesse chorar
essa velha alma...
Uma palavra que dissesse;
Eu te compreendo
e te amo mesmo assim...
Anna Carlini
[1949]
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quarta-feira, 27 de março de 2013
''PRELÚDIO CREPUSCULAR''
No poente
silente
os choupos esguios
balançam
e dançam
refletidos
nos lagos adormecidos
e frios.
A bruma
esfuma
a paisagem
onde a sombra
ensombra
a ramagem.
A claridade amortece...
E, lenta, a noite desce
sobre o jardim,
enquanto fico a relembrar
a tarde em que sobre mim
eu tive o teu olhar.
A claridade amortece...
E nos espelhos gelados
projetam-se magoados
os altos choupos esguios
por entre as sombras das rosas,
que finas e veludosas
perfumam os lagos frios.
No céu, porém, claro e fino
como o teu olhar cristalino
uma estrela cintila,
e espelha-se na água dormente,
enquanto o poente
vacila...
Alfredo Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas
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quinta-feira, 14 de março de 2013
''Metamorfose''
As borboletas são as flores
que, enfim, conseguiram voar,
mas vivem a rondar as plantas
como quem ronda o antigo lar;
há sempre, pelo ar, um jardim
de rosa múltipla e jasmim,
e há, talvez, a vontade enorme
em tudo de perder seu peso,
ter a leveza de quem dorme,
ser a lembrança no abandono,
ou luz de estrela se apagando.
Alberto da Cunha Melo
In: Dois caminhos e uma oração
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Alberto da Cunha Melo
''RIOS''
Rios de minh’alma
Caudalosos de amor,
Correntezas sem calma
Descolorindo-se
Às vezes em dor!
Nascentes tão puras,
Despejam venturas
Após desventuras,
Naufrágios de Amor!
Ontem turbulentos,
Hoje venturosos,
Amanhã silenciosos
...águas de sangue
...águas de luz!
Rios de minh’alma:
- desviastes tantos cursos
Buscando margens seguras ..!
Repousastes
Num eterno espraiar ...,
Alvina Nunes Tzovenos
in 'Sonhos e vivencias'
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''A VIDA TEM CORES''
A vida tem cores
Nas cores da vida,
Em aquarela tingida
... desenha luz e som !
A vida tem cores
No beijo dos pássaros, num adeus sem perfumes
... no pólen da flores!
A vida tem cores
Numa palavra amarga,
Num céu muito amplo
... presença que tarda!
A vida tem cores
Num abraço amoroso
Num sorriso que chega
... num crepúsculo cheiroso!
A vida tem cores
Nos sonhos vividos,
Nos mares inquietos
... nos encontros perdidos!
A vida tem muitas e muitas cores,
As que ninguém pode ver,
Quando minh’alma chora e ri
Pela felicidade
Que eu posso conter!
A vida tem cores
Mesmo num coração morto!
Alvina Nunes Tzovenos
de "Sonhos e vivencias"
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
'SENSAÇÕES¨'
Sensações de tristeza ou de alegria,
dá-no-las a Alma, como ideal produto
das impressões vitais de cada dia
engalanado em luz, sombreado em luto.
Pode o Espírito estar tranquilo e enxuto:
mas, se os olhos se inquietam, à porfia,
a lágrima, que esponta, é já o fruto
das sensações... É o coração que expia...
E, ao transcorrer desse diamante bruto,
a Vida, toda, se consubstancia,
tal, um século, às vezes, num minuto!
Ilumina-se, assim, a Alma sombria:
— o que sinto, olho, gosto, palpo, escuto...
— sensações de tristeza ou de alegria...
[Hermes Fontes]
(Tela de EDOUARD FREDERIC WILHELM RICHTER)
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