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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Um poema de Gastão Neves:


Meu relógio se aliena,
cumpre apenas o andamento.
Eu cumpro da vida a pena
de criar meu movimento.

Quem espera sempre alcança,
eu não espero nem vou,
- há muito renego a herança
de ser o que já não sou.

[Gastão Neves]

''Silêncio'' (trecho)



(…) Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar?

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve.

(Clarice Lispector)

Excerto de 'A descoberta do mundo: crônicas'

"Primavera"


Primavera Ah! quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"

E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço.

A alma da terra gorjeava e ria...
Nascia a primavera... E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!

Olavo Bilac,
in "Poesias"


[Tela de  Alexander Averin]

''O ETERNO AUSENTE''


A hora de partir foi tão inesperada!
Fechaste mansamente as portas da morada
E partiste.

Numa orgia floral, chegava a primavera,
Enchendo todo o céu de risadas de luz.

Por certo, o seu rumor feriu tua alma triste
Cerraste mansamente as portas da morada
E partiste.

Helena Kolody
de Musica Submersa 


[Tela de Eugène-Henri Cauchois]

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"Telas vivas"

 
Emoções são como tintas
em telas distintas
coloridas ou não,
imaginadas na mente,
em forças cadentes
impressas no coração.

Warllem Silva
In: Infinitude da Graça

"O verbo - a luz - o dia"


"Primeiro o espanto
seguido do pranto
num profundo vazio.

Preenchido por lágrimas,
sorrisos, dor e agonia!

Hoje alegria-aconchego
o verbo - a luz - o dia!"

Warllem Silva
In: 'Infinitude da Graça'


 [Tela de Alexander Averin]

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

''POEMA ESCRITO NO CHÃO''


Nos reveses desta vida
o amor não sofre senão
quando a alma é ferida
nos espinhos da paixão.

A desculpa concedida
no revés da ingratidão
arrefece a dor sofrida
no perfume do perdão.

Vê o vôo nas planuras
do orgulho nas alturas
que inebria o coração...

Deus que deu à alma das rosas o luzir das cores
também deu por abundância o perfume às flores
que rastejam pelo chão...


Afonso Estebanez

‘AVE’


ave
incrustada no espaço
ponto azul

isolada

(pedra
em parábola
no poema
espaço-tempo)

projeta
a fuga
no ângulo
de um voo

crê

demasiado em seu
escudo plumagem

ignora

quem seja
esboço apenas


Ricardo Augusto dos Anjos
De ‘Após a tragédia’
Editora Engra- 1962-

‘Poema’

ancorado está meu coração
nesta praia silenciosa onde
meus olhos de espanto como os peixes
espreitam a aurora de vidro que
deverá conduzir-me a transparência,
ao multicor. serei duende de cristal
integrado no que é mágico tentarei
o voo exato das aves idealizadas num tempo
anterior a aurora de vidro que resolvo
anterior ao pranto de onde procedo

Ricardo Augusto dos Anjos
De ‘Após a tragédia’
Editora Engra- 1962-

domingo, 8 de setembro de 2013

NÃO ERA ISSO




Não.
Não era isso.

O que eu queria dizer
era tão alto
e tão longe 
que nem conseguiu soletrar
suas palavras-estrelas.


Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível







PALAVRAS




Aluviões de palavras
corroem as cordilheiras.
Densas nuvens de palavras
limitam os horizontes.
Os batalhões de palavras
concentram as agressões.
Há loucura de palavras
a brotar por entre as pedras
de inumeráveis caminhos.

Ao passarem as palavras,
brilhará, límpido e eterno,
o Verbo esquecido. 


Helena Kolody
In: Sinfonia da vida 

A MIRAGEM NO CAMINHO



Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho




LOUCURA LÚCIDA



Pairo, de súbito,
noutra dimensão

Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

INFINITO PRESENTE



Estou sempre em viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge de passagem

Helena Kolody,
in Viagem Submersa



NUNCA E SEMPRE



Sempre cheguei tarde
ou cedo demais.
Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram
em minha primavera
as rosas que sonhei colher..

Mas sempre os passarinhos
cantaram e fizeram ninhos
pelos beirais
do meu viver.


Helena Kolody
in Sinfonia da vida 




quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Um poema de Gastão Neves:


Meu relógio se aliena,
cumpre apenas o andamento.
Eu cumpro da vida a pena
de criar meu movimento.

Quem espera sempre alcança,
eu não espero nem vou,
- há muito renego a herança
de ser o que já não sou.

[Gastão Neves]

''Silêncio'' (trecho)



(…) Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar?

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve.

(Clarice Lispector)

Excerto de 'A descoberta do mundo: crônicas'

"Primavera"


Primavera Ah! quem nos dera que isto, como outrora,
Inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
Que inda juntos pudéssemos agora
Ver o desabrochar da primavera!

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
Sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
"Beijemo-nos! amemo-nos! espera!"

E esse corpo de rosa recendia,
E aos meus beijos de fogo palpitava,
Alquebrado de amor e de cansaço.

A alma da terra gorjeava e ria...
Nascia a primavera... E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço!

Olavo Bilac,
in "Poesias"


[Tela de  Alexander Averin]

''O ETERNO AUSENTE''


A hora de partir foi tão inesperada!
Fechaste mansamente as portas da morada
E partiste.

Numa orgia floral, chegava a primavera,
Enchendo todo o céu de risadas de luz.

Por certo, o seu rumor feriu tua alma triste
Cerraste mansamente as portas da morada
E partiste.

Helena Kolody
de Musica Submersa 


[Tela de Eugène-Henri Cauchois]

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"Telas vivas"

 
Emoções são como tintas
em telas distintas
coloridas ou não,
imaginadas na mente,
em forças cadentes
impressas no coração.

Warllem Silva
In: Infinitude da Graça

"O verbo - a luz - o dia"


"Primeiro o espanto
seguido do pranto
num profundo vazio.

Preenchido por lágrimas,
sorrisos, dor e agonia!

Hoje alegria-aconchego
o verbo - a luz - o dia!"

Warllem Silva
In: 'Infinitude da Graça'


 [Tela de Alexander Averin]

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

''POEMA ESCRITO NO CHÃO''


Nos reveses desta vida
o amor não sofre senão
quando a alma é ferida
nos espinhos da paixão.

A desculpa concedida
no revés da ingratidão
arrefece a dor sofrida
no perfume do perdão.

Vê o vôo nas planuras
do orgulho nas alturas
que inebria o coração...

Deus que deu à alma das rosas o luzir das cores
também deu por abundância o perfume às flores
que rastejam pelo chão...


Afonso Estebanez

‘AVE’


ave
incrustada no espaço
ponto azul

isolada

(pedra
em parábola
no poema
espaço-tempo)

projeta
a fuga
no ângulo
de um voo

crê

demasiado em seu
escudo plumagem

ignora

quem seja
esboço apenas


Ricardo Augusto dos Anjos
De ‘Após a tragédia’
Editora Engra- 1962-

‘Poema’

ancorado está meu coração
nesta praia silenciosa onde
meus olhos de espanto como os peixes
espreitam a aurora de vidro que
deverá conduzir-me a transparência,
ao multicor. serei duende de cristal
integrado no que é mágico tentarei
o voo exato das aves idealizadas num tempo
anterior a aurora de vidro que resolvo
anterior ao pranto de onde procedo

Ricardo Augusto dos Anjos
De ‘Após a tragédia’
Editora Engra- 1962-

domingo, 8 de setembro de 2013

NÃO ERA ISSO




Não.
Não era isso.

O que eu queria dizer
era tão alto
e tão longe 
que nem conseguiu soletrar
suas palavras-estrelas.


Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível







PALAVRAS




Aluviões de palavras
corroem as cordilheiras.
Densas nuvens de palavras
limitam os horizontes.
Os batalhões de palavras
concentram as agressões.
Há loucura de palavras
a brotar por entre as pedras
de inumeráveis caminhos.

Ao passarem as palavras,
brilhará, límpido e eterno,
o Verbo esquecido. 


Helena Kolody
In: Sinfonia da vida 

A MIRAGEM NO CAMINHO



Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho




LOUCURA LÚCIDA



Pairo, de súbito,
noutra dimensão

Alucina-me a poesia,
loucura lúcida.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

INFINITO PRESENTE



Estou sempre em viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge de passagem

Helena Kolody,
in Viagem Submersa



NUNCA E SEMPRE



Sempre cheguei tarde
ou cedo demais.
Não vi a felicidade acontecer.

Nunca floresceram
em minha primavera
as rosas que sonhei colher..

Mas sempre os passarinhos
cantaram e fizeram ninhos
pelos beirais
do meu viver.


Helena Kolody
in Sinfonia da vida