Seja bem-vindo. Hoje é

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Rosas



Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?


Alphonsus de Guimaraens

Das Rosas e dos Sonhos



"O sonho que se esvai na desventura"
do anoitecer das pétalas das rosas,
é sonho embevecido pela alvura
da mão entregue às tramas amorosas.

O sonho que se esvai... Sonho ou loucura?
No sonho habitam cores enganosas...
E na loucura habita a entrega pura
de quem sonhou venturas ardorosas.

As rosas... Sempre as rosas por pretexto
para ilustrar a forma e dar contexto
ao que a palavra anseia em demonstrar.

Os sonhos... São as rosas desfolhadas
ao vento de ilusões vãs, derrocadas...
Em busca de um alguém a quem amar!


- Patricia Neme -

terça-feira, 28 de julho de 2009

Regresso



Regresso na espuma da vida
deixando-me cair numa poça de lua
de um cais qualquer

Estradas onde o tempo
é uma canção,
minha alma indefinida se reparte
em pedaços multicores

E sobre o deserto despojo-me de tudo
permanecendo minha busca incessante
profunda e gasta, de um sonho
cada dia mais distante


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 25/07/09
Código do Texto: T1718227

segunda-feira, 27 de julho de 2009

PRIMEIRA PÁGINA



Louras abelhas, leves borboletas,
Volúveis beija-flores,
Rápidos gênios, hospedes dos ares,
Solitários cantores,
Amantes uns das pompas das cidades,
Das galas e das festas,
Outros amigos das planícies vastas
E das amplas florestas;
Alado mundo, turbilhão volante,
Bando de sonhos vagos,
Ora adejando em caprichosos giros,
Ora em doces afagos
Pousando sobre as frontes cismadoras,
Vede, desponta o dia,
Sacudi vossas asas vaporosas,
Exultai de alegria!
Ide sem medo, lúcidas quimeras,
São horas de partir!...
Ide, corre, voai, que vos desejo
O mais almo porvir!...


Fagundes Varela
In: Cântico do Calvário e Outros Poemas

domingo, 26 de julho de 2009

SAUDADE



Um dia,
matarei essa saudade danada,
agarrada ao meu coração.

Um dia,
decretarei o seu despejo
e pintarei de branco
as paredes desse avesso.

Abrirei portas e janelas,
voltarei a fazer versos,
porei flor nos cabelos,
e batom nos lábios,
para atrair a musa
dessa saudade.


(Genaura Tormin)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Chuva de Ouro



As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

(1928)

Sosígenes Costa
De: Obra Poética (1958).
(Bahia 1901-1968)

quarta-feira, 22 de julho de 2009


(Alfred Gockel)

...Compreendi, então que a vida não é uma
sonata que, para realizar a sua beleza
tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja, é uma experiência
completa que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza
e amor justifica a vida inteira.

Rubem Alves

Imponderável ser



Estamos juntos em preto e branco
nossas imagens confundem-se
na clara luz dos diamantes

Múltipla me faço sendo uma só;
réplica de cera,
torno-me estátua verdadeira
um quadro irreal,
onde passeio meus sentidos

Nada mais é preciso à vida
parecer mais breve.
Festejo-a!


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 22/07/09
Código do Texto: T1712772

domingo, 19 de julho de 2009

ARQUITETA DE MIM



Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
aplicar remendos.

Prenhe estou de disfarces
e esgueira-me pelo corpo
a plangência do tempo,
restos de batalhas
que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma no existir!
Fabrico fantasias e metáforas.

(Genaura Tormin)

LIBERTAÇÃO



É certo, amei-te além do meu bom senso,
com força, com delírio... Com loucura!
Amei, tão de profundis, tão intenso...
Que me perdi... Quando à tua procura.

E achei-me em pranto largo, triste, denso,
nos campos semeados de ternura.
Amei-te... E o meu amor foi tão imenso...
E para ti, foi tudo uma aventura...

Porém, quando faltou-me o tudo e o nada,
a vida fez surgir nova alvorada,
nos sonhos que eu sonhei, como jamais.

E agora, hoje eu me encontro em outro peito,
que pulsa em meu viver e no meu leito...
De ti... Por fim, eu não me lembro mais!


Patrícia Neme

quinta-feira, 16 de julho de 2009

IMPASSE URBANO



O semáforo
irrita
a rua
que ri
de si
dó maior.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
(Formatado pela amiga Amália Catarina)

PERDA



Hoje me acordei tarde.
Perdi o frio
de quem desperta cedo
e pode dormir mais.

Perdi o sol que saiu
da moldura da janela

Perdi o canto do pássaro
da manhã na árvore.

Para sempre o perdi.


Geraldino Brasil
(1926-1996- Alagoas)

DOR, AH SE FOSSES GATO



Dor, dor do mundo, dor das pessoas,
fosses um pássaro e eu um gato sem dono!

Dor do mundo, dor das casas, dor das ruas,
de mim não te livrarias
mesmo que em vez de um pássaro
fosses arisco gato preto comedor de sonhos.

Porque eu levaria meu circo
com jaula de leão faminto
pelas avenidas e ruas e becos do mundo
até a pracinha sonhadora onde é sempre domingo.
Iria, poeta fantasiado de palhaço,
gritando do alto de minhas pernas de pau:

- Um gato vale uma entrada!
- Um gato vale uma entrada!


Geraldino Brasil
(1926-1996- Alagoas)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

NOTÍCIA DA MANHÃ



Eu sei que todos viram
e jamais esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormido.
E aos dormidos - e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração -
a todos que não a viram
contratei desta manhã
- manhã é céu derramado
é cristal de claridão -
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar - na cidade.

Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).

Amorosa e transparente,
esta é a sagrada manhã
que o céu inteiro derrama
sobre os campos, sobre as casas,
sobre os homens, sobre o mar.
Sua doce claridade
já se espalhou mansamente
por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
vai lavando corações
(não o do menino; o meu,
que é cheio de escuridões.

Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens e das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
nas torres das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonita!
A manhã está no chão, está nas palmeiras,
está no quintal dos subúrbios,
está nas avenidas centrais,
está nos terraços dos arranha-céus.
(Há muita, muita manhã
no menino; e um pouco em mim)

A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.

A manhã é geral.

As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde.

Os passarinhos namorando
- ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança,
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgarrados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando
ama alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.

E de repente a manhã
- manhã é céu derramado,
é claridão, claridão -
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.

Thiago de Mello

CANÇÃO DA TARDE NO CAMPO



Caminho do campo verde,
estrada depois da estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida
tão vazia mas tão bela,
tão certa mas tão perdida!

Eu ando sozinha por cima das pedras.
Mas a flor é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha por dentro dos bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

Eu ando sozinha ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

Cecília Meireles
de Vaga Musica

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Rosas



Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...

Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.

Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!

Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?


Alphonsus de Guimaraens

Das Rosas e dos Sonhos



"O sonho que se esvai na desventura"
do anoitecer das pétalas das rosas,
é sonho embevecido pela alvura
da mão entregue às tramas amorosas.

O sonho que se esvai... Sonho ou loucura?
No sonho habitam cores enganosas...
E na loucura habita a entrega pura
de quem sonhou venturas ardorosas.

As rosas... Sempre as rosas por pretexto
para ilustrar a forma e dar contexto
ao que a palavra anseia em demonstrar.

Os sonhos... São as rosas desfolhadas
ao vento de ilusões vãs, derrocadas...
Em busca de um alguém a quem amar!


- Patricia Neme -

terça-feira, 28 de julho de 2009

Regresso



Regresso na espuma da vida
deixando-me cair numa poça de lua
de um cais qualquer

Estradas onde o tempo
é uma canção,
minha alma indefinida se reparte
em pedaços multicores

E sobre o deserto despojo-me de tudo
permanecendo minha busca incessante
profunda e gasta, de um sonho
cada dia mais distante


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 25/07/09
Código do Texto: T1718227

segunda-feira, 27 de julho de 2009

PRIMEIRA PÁGINA



Louras abelhas, leves borboletas,
Volúveis beija-flores,
Rápidos gênios, hospedes dos ares,
Solitários cantores,
Amantes uns das pompas das cidades,
Das galas e das festas,
Outros amigos das planícies vastas
E das amplas florestas;
Alado mundo, turbilhão volante,
Bando de sonhos vagos,
Ora adejando em caprichosos giros,
Ora em doces afagos
Pousando sobre as frontes cismadoras,
Vede, desponta o dia,
Sacudi vossas asas vaporosas,
Exultai de alegria!
Ide sem medo, lúcidas quimeras,
São horas de partir!...
Ide, corre, voai, que vos desejo
O mais almo porvir!...


Fagundes Varela
In: Cântico do Calvário e Outros Poemas

domingo, 26 de julho de 2009

SAUDADE



Um dia,
matarei essa saudade danada,
agarrada ao meu coração.

Um dia,
decretarei o seu despejo
e pintarei de branco
as paredes desse avesso.

Abrirei portas e janelas,
voltarei a fazer versos,
porei flor nos cabelos,
e batom nos lábios,
para atrair a musa
dessa saudade.


(Genaura Tormin)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Chuva de Ouro



As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

(1928)

Sosígenes Costa
De: Obra Poética (1958).
(Bahia 1901-1968)

quarta-feira, 22 de julho de 2009


(Alfred Gockel)

...Compreendi, então que a vida não é uma
sonata que, para realizar a sua beleza
tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja, é uma experiência
completa que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza
e amor justifica a vida inteira.

Rubem Alves

Imponderável ser



Estamos juntos em preto e branco
nossas imagens confundem-se
na clara luz dos diamantes

Múltipla me faço sendo uma só;
réplica de cera,
torno-me estátua verdadeira
um quadro irreal,
onde passeio meus sentidos

Nada mais é preciso à vida
parecer mais breve.
Festejo-a!


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 22/07/09
Código do Texto: T1712772

domingo, 19 de julho de 2009

ARQUITETA DE MIM



Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
aplicar remendos.

Prenhe estou de disfarces
e esgueira-me pelo corpo
a plangência do tempo,
restos de batalhas
que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma no existir!
Fabrico fantasias e metáforas.

(Genaura Tormin)

LIBERTAÇÃO



É certo, amei-te além do meu bom senso,
com força, com delírio... Com loucura!
Amei, tão de profundis, tão intenso...
Que me perdi... Quando à tua procura.

E achei-me em pranto largo, triste, denso,
nos campos semeados de ternura.
Amei-te... E o meu amor foi tão imenso...
E para ti, foi tudo uma aventura...

Porém, quando faltou-me o tudo e o nada,
a vida fez surgir nova alvorada,
nos sonhos que eu sonhei, como jamais.

E agora, hoje eu me encontro em outro peito,
que pulsa em meu viver e no meu leito...
De ti... Por fim, eu não me lembro mais!


Patrícia Neme

quinta-feira, 16 de julho de 2009

IMPASSE URBANO



O semáforo
irrita
a rua
que ri
de si
dó maior.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
(Formatado pela amiga Amália Catarina)

PERDA



Hoje me acordei tarde.
Perdi o frio
de quem desperta cedo
e pode dormir mais.

Perdi o sol que saiu
da moldura da janela

Perdi o canto do pássaro
da manhã na árvore.

Para sempre o perdi.


Geraldino Brasil
(1926-1996- Alagoas)

DOR, AH SE FOSSES GATO



Dor, dor do mundo, dor das pessoas,
fosses um pássaro e eu um gato sem dono!

Dor do mundo, dor das casas, dor das ruas,
de mim não te livrarias
mesmo que em vez de um pássaro
fosses arisco gato preto comedor de sonhos.

Porque eu levaria meu circo
com jaula de leão faminto
pelas avenidas e ruas e becos do mundo
até a pracinha sonhadora onde é sempre domingo.
Iria, poeta fantasiado de palhaço,
gritando do alto de minhas pernas de pau:

- Um gato vale uma entrada!
- Um gato vale uma entrada!


Geraldino Brasil
(1926-1996- Alagoas)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

NOTÍCIA DA MANHÃ



Eu sei que todos viram
e jamais esquecerão.
Mas é possível que alguém,
denso de noite, estivesse
profundamente dormido.
E aos dormidos - e também
aos que estavam muito longe
e não puderam chegar,
aos que estavam perto e perto
permaneceram sem vê-la;
aos moribundos nos catres
e aos cegos de coração -
a todos que não a viram
contratei desta manhã
- manhã é céu derramado
é cristal de claridão -
que reinou, de leste a oeste,
de morro a mar - na cidade.

Pois dentro desta manhã
vou caminhando. E me vou tão feliz como a criança
que me leva pela mão.
Não tenho nem faço rumo:
vou no rumo da manhã,
levado pelo menino
(ele conhece caminhos
e mundos, melhor do que eu).

Amorosa e transparente,
esta é a sagrada manhã
que o céu inteiro derrama
sobre os campos, sobre as casas,
sobre os homens, sobre o mar.
Sua doce claridade
já se espalhou mansamente
por sobre todas as dores.
Já lavou a cidade. Agora,
vai lavando corações
(não o do menino; o meu,
que é cheio de escuridões.

Por verdadeira, a manhã
vai chamando outras manhãs
sempre radiosas que existem
(e às vezes tarde despontam
ou não despontam jamais)
dentro dos homens e das coisas:
na roupa estendida à corda,
nos navios chegando,
nas torres das igrejas,
nos pregões dos peixeiros,
na serra circular dos operários,
nos olhos da moça que passa, tão bonita!
A manhã está no chão, está nas palmeiras,
está no quintal dos subúrbios,
está nas avenidas centrais,
está nos terraços dos arranha-céus.
(Há muita, muita manhã
no menino; e um pouco em mim)

A beleza mensageira
desta radiosa manhã
não se resguardou no céu
nem ficou apenas no espaço,
feita de sol e de vento,
sobrepairando a cidade.
Não: a manhã se deu ao povo.

A manhã é geral.

As árvores da rua,
a réstia do mar,
as janelas abertas,
o pão esquecido no degrau,
as mulheres voltando da feira,
os vestidos coloridos,
o casal de velhos rindo na calçada,
o homem que passa com cara de sono,
a provisão de hortaliças,
o negro na bicicleta,
o barulho do bonde.

Os passarinhos namorando
- ah! pois todas essas coisas
que minha ternura encontra
num pedacinho de rua,
dão eterno testemunho
da amada manhã que avança
e de passagem derrama
aqui uma alegria,
ali entrega uma frase
(como o dia está bonito!)
à mulher que abre a janela,
além deixa uma esperança,
mais além uma coragem,
e além, aqui e ali
pelo campo e pela serra,
aos mendigos e aos sovinas,
aos marinheiros, aos tímidos,
aos desgarrados, aos prósperos,
aos solitários, aos mansos,
às velhas virgens, às puras
e às doidivanas também,
a manhã vai derramando
ama alegria de viver,
vai derramando um perdão,
vai derramando uma vontade de cantar.

E de repente a manhã
- manhã é céu derramado,
é claridão, claridão -
foi transformando a cidade
numa praça imensa praça,
e dentro da praça o povo
o povo inteiro cantando,
dentro do povo o menino
me levando pela mão.

Thiago de Mello

CANÇÃO DA TARDE NO CAMPO



Caminho do campo verde,
estrada depois da estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida
tão vazia mas tão bela,
tão certa mas tão perdida!

Eu ando sozinha por cima das pedras.
Mas a flor é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha por dentro dos bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

Eu ando sozinha ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

Cecília Meireles
de Vaga Musica