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domingo, 8 de setembro de 2013

SALDO



Na pagina adolescente
deste mundo em flor,
sou um saldo anterior.

Helena Kolody
in Poesia Mínima

SINFONIA DA VIDA



Seu livro de estréia, Paisagem interior, publicado em 1941,
 contém 45 poemas, três dos quais são haicais.
Alguns dos poemas deste primeiro livro foram depois
 retrabalhados por Helena, conforme pode-se ver em edições
 posteriores reunindo suas obras. O seguinte depoimento,
 transcrito na antologia Sinfonia da Vida (1997),
 é significativo:

Antigamente, eu me derramava em palavras. Um dia,
 o Dr. Andrade Muricy, um paranaense que era crítico de
 arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me: “Você vai muito
 melhor no poema curto. Você quer encompridar e, 
às vezes, dilui o poema ou se repete. Você tem talento
 para a síntese”. Daí em diante, comecei a cortar os
 excedentes, deixando só o sumo, o essencial.

TRISTEZA DAS MÃOS


Capa da primeira edição de ‘Correnteza’ 1.977

Choram em silêncio a dor de envelhecer.

Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.

Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!

Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.

Tímidas mãos que se apagam na sombra!

Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.

Velhas mãos solitárias,
Como dói recordar!


Helena Kolody

A SOMBRA DO RIO


Capa da primeira edição de 'A sombra no Rio' - 1.951-

ANTOLOGIA POÉTICA


Capa da Primeira Edição de Antologia Poética- 1.967

CANÇÃO DE NINAR


(Capa da 1ª edição do livro.)

(para uma criança da favela) 

Criança, és fio d'água 
Triste desde a fonte. 
Humilde plantinha 
Nascido em monturo: 
Quanta ausência mora 
Nesse olhar escuro!

Recosta a cabeça 
Na minha cantiga
Deixa que te envolva,
Que te beije e embale. 

Helena Kolody 
Do livro: "Vida breve" [1964],

APELIDOS



Eram Jucas e Chiquinhos, 
Ninas, Lolas, Mariquitas. 
Apelidos que o amor 
seleva nas criaturas. 

Hoje são números. 
(Computadores não programam ternura) 

Helena Kolody 

Do livro: "Ontem agora", Secretaria de
 Estado de Cultura do Paraná, 1991, PR
 

OBRAS DE HELENA KOLODY



Obras 

1. Paisagem interior. edição da autora, 1941.
2. Música submersa, edição da autora, 1945.
3. A sombra do rio, edição da autora, 1951.
4. Triologia, separata de Um século de poesia.
 Curitiba. Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1959.
5. Poesias completas. Curitiba: edição de homenagem 
a cargo de alunos, 1962.
6. Vida breve, edição da autrora, 1964.
7. 20 poemas, reunião e edição da autora, 1965.
8. Era espacial e Trilha sonora, edição da autora, 1966.
9. Antologia poética, organiza e editada pela autora, 1967.
10. Tempo, edição da autora, 1970.
11. Correnteza, edição da autora, 1977.
12. Infinito Presente, edição da autrora, 1980.
13. Poesias escolhidas. Curitiba: Sociedade dos
 Amigos da Cultura Ucraíana. Tradução de Wira Wowk
 para o ucraniano, 1983.
14. Sempre palavra. Curitiba: Criar Edições, 1985.
15. Poesia mínima. Curitiba: Criar Edições. 1986.
16. Viagem no espelho: reunião. Curitiba: Criar 
Edições, 1988.
17. Ontem, agora. Curitiba: Secretaria do Estado de
 Cultura, 1991.
18. Reika, Curitb: Fundação Cultural de Curitiba, 1994.
 Série Buquinista. 19. Antoloia poética. Curitba: 
Livrarias Curitiba, 1994.
20. Viagem no espelho, 2ª edição. Curitiba: Editora da
 UFPR, 1995.
21. Caixinha de música. Curitiba: Secretaria do Estado 
da Cultura, 1996.
22. Luz infinita. Curitiba: Museu Biblioteca Ucraniana
 em Curitiba. Tradução de Ghryghory Kotchur e Wira 
Selanski para o ucraniano. Edição bilíngüe.


Texto retirado do Livro "Helena Kolody - Sinfonia da
 vida; Organização: Tereza Hatue de Rezende. 
Coleção Antologia poética. D.E.L. Editora/Letraviva,
 Pólo Editorial do Parná "A transformaçaõ que a gente lê.
 - 1997, pág. 

AUTO-BIOGRAFIA



Nasci no dia 12 de outubro de 1912, no núcleo colonial de Cruz 
Machado, em pleno sertão paranaense. Eram 8 horas da manhã de
 um dia de sol e geada. 

Meus pais eram ucranianos, que se conheceram a casaram no Paraná.
 Eu sou a primogênita e a 1ª brasileira de minha família. 

Miguel Kolody, meu pai, nasceu na parte da Ucrânia chamada
 Galícia Orienta, em 1881. Tendo perdido o pai na grande 
epidemia de cólera que assoloua Ucrânia em 1893, Miguel,
 no ano seguinte, emigrou para o Brasil com a mãe e os irmãos. 

Mamãe, cujo nome de solteira era Victoria Szandrowska, também
 nasceu na Galícia Oriental, em 1892. Veio para o Brasil em 1911. 

Vovô radicou-se em Cruz Machado, onde papai trabalhava. "Seu" 
Miguel conheceu a jovem Victoria e apaixounou-se por ela. 
Casaram-se em Janeiro de 1912. Estava escrito o primeiro 
capítulo da minha história. 

Texto retirado do Livro "Helena Kolody - Sinfonia da vida; 
Organização: Tereza Hatue de Rezende. Coleção Antologia 
poética. D.E.L. Editora/Letraviva, Pólo Editorial do Parná
 "A transformaçaõ que a gente lê. - 1997, pág. 11. 

BIOGRAFIA DE HELENA KOLODY



Nascimento-Cruz Machado,PR- 12 de outubro de 1912 — 
Morte-Curitiba, 15 de fevereiro de 2004


Em 12 de outubro de 1912, Helena nasceu, filha de Miguel
 e Vitória Kolody, imigrantes ucranianos, em Cruz Machado,
 Paraná. É a primeira brasileira da família. Passou a 
infância no cenário catarinense de uma pequena vila :Três
 Barras. Com 16 anos teve a primeira publicação de um poema 
seu, “A lágrima”, na revista O Garoto, editada por 
estudantes. Trabalhou por 23 anos no Instituto de Educação. 

“Desde pequena eu amei as palavras. Quem me alfabetizou foi
 minha tia de Rio Negro, professora do primeiro ano primário.
 Eu nunca esqueço a primeira cartilha que tive em mãos,
 cheia de figuras. Amei tanto aquele livro que nunca mais
 parei de ler. As escolas emprestavam livros de sábado para
 segunda e, assim, eu passava os finais de semana lendo e 
lendo.”


Helena apreciava, desde pequena, a leitura de livros,
 revistas, textos que lhe caíssem à mão. “Passava os finais
 de semana lendo. Umas coleções, como “As grandes lendas da
 humanidade “ eram minha delícia naquela época , tudo com o
 elemento maravilhoso , mágico“. Assim , Helena Kolody 
permeou sua produção poética com a crença no homem e em 
suas possibilidades desde que aliada à religiosidade. A
 análise intimista – alma solitária , silêncio , apego a 
bens espirituais , carência amorosa – constitui em traço
 forte de seu trabalho. "Quando criança, eu já gostava
 de  poesias e as cantava como se fossem hinos da escola."
 Ela lembra ainda de amores platônicos na adolescência, que
 lhe inspiraram algumas poesias em que aparece uma
 resignação altiva. "Não acreditava que me amavam. Eu era
 meio gordinha..." Helena não apreciava o progresso e este
 fato fez com que o leitor observasse poemas amargurados,
 melancólicos associados a um fio de esperança no dia de 
amanhã. Com circularidade, ela produziu textos poéticos
 que se avultavam em antíteses ou mesmo abstrações e 
humildade. 

Ocupou a cadeira número 28 da Academia Paranaense de Letras. 

Em 14 de fevereiro de 2004, Helena se despede do mundo que
 tão bem a recebeu e que tantas informações recebeu dela.
 Uma perda que pode ser preenchida pela divulgação de
 seus poemas – eternos versos de vida. 














sexta-feira, 6 de setembro de 2013

POEMAS DE GILBERTO MENDONÇA TELES

Criação



O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
tímidos,
embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.


No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
a meia-luz,
os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
e se apagam de repente.


No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
como um dia de festa, ou de verão.


No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
roendo,
roendo
um osso duro de roer.


Gilberto Mendonça Teles,
in Álibis



História


Toda história tem seu texto
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.


Tem um sujeito que a escolhe
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe
qui tollis peccata mundi.


Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.


Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
R tem a essência que muda
e permanece, calada.


Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar pelo avesso,
ler o que está subscrito.


Gilberto Mendonça Teles



O discurso


Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.


Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.


Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.


E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.


Gilberto Mendonça Teles





DECLINAÇÃO



O mar não me levou:
o meus cuidados
(o que era ruim /o que era bom demais)
ficaram por aí, pelos cerrados,
à sombra dos paus-terras de Goiás. 

O mar não me lavou:
meu corpo todo
tem as marcas da terra – o sol, o chão,
os cheiros doces dos quintais, do lodo,
e a febre do meu T nesta sezão. 

Eu sou quem sou. Não me mudei. Mudou-me
uma parte da vida, mas foi sem:
não me levou nem me lavou,
livrou-me
da danação de todo mal, amém. 

(Se houver louvor aqui, se alguma luva,
qualquer pessoa a pode usar por mim:
a minha história é como um guarda-chuva
que a gente esquece,
quando chega ao fim.)


Gilberto Mendonça Teles



ELIPSE



Vim descobrir o que ficou de elipse
e precisão,
o que se fez sucinto e reticente,
o inacabado do cabo Não. 

Vim recolher esta úmida sintaxe
que foi além
e não poupou a rigidez da língua
que ficou sem. 

E vim, não para ver, deixar a meio
fala e raiz:
vim extrair de ti a própria essência
do que não fiz. 


Gilberto Mendonça Teles


ANULAÇÃO


Ocupar o espaço
contido na sombra,
ser o pó do espesso,
o vão da penumbra, 

o dó sem começo,
o nó sem vislumbre,
o invisível traço
do não-ser: escombro. 

Ser zero, ou nem isso:
letra morta, timbre
do vazio no osso.

Ser aquém do nome
— o só do soluço
de coisa nenhuma.

Gilberto Mendonça Teles




ANÚNCIO 



Troco urgentemente uma secretária 
eletrônica, 22ov, bastante conservada 
(motivo mudança de amor e domicílio), 
por uma secretária invisível, 
dessas que fazem desaparecer 
tudo de repente: 
colóquio de alquimistas 
congressos de bruxas 
reuniões de catedráticos 
e até o I simpósio 
de mulheres jubilosas. 

Que seja loirena e diligente, 
que seja meiga, sobretudo quando visível. 
Que não se esqueça dos pequenos aniversários 
(uma semana disso, um mês daquilo) 
e os saiba comemorar condignamente 
nalgum lugar secreto: 
ilha ou limbo 
beira de mar 
quarto de hotel 
fumaça de cachimbo. 
Que seja também multilíngüe 
para entender-me em todos os sentidos. 
E que não perca nunca o seu charme 
para me seduzir ou raptar-me 
nas horas mais incríveis de solidão. 

(Cartas para esta redação.) 

Gilberto Mendonça Teles





Preciso urgentemente encontrar 
minha secretária invisível 
que se perdeu sexta-feira 
em reuniões e telefonemas 
e me deixou a ver navios. 

Melhor: um submarino atômico 
que entrou pelo rio e bombardeou 
toda a cidade, virando-a 
pelo avesso, como um absurdo 
e até remoto cataclismo. 

(Gratifica-se bem quem der notícia 
a esta redação. Ou à polícia.) 

Gilberto Mendonça Teles




ORIGEM

Agarro o azul do poema pelo fio
mais delgado da lã de seu discurso 
e vou trançando as linhas do relâm-
pago no vidro opaco da janela. 

Seu novelo de nuvens reduplica 
a concreta visão desse animal 
que se enreda em si mesmo, toureando 
a púrpura do mito e se exibindo
diante da minha astúcia de momento. 

Sou cheio de improviso. Sou portátil. 
E sou noite e falácia. Sou impulso
e excesso de acidentes. Sou prodígios.
E agora que há sinais de ressonância 
sou milícia verbal configurando 
a subversão na zona do silêncio. 
.......................
Todo início é noturno. Todo início
é maior que seu tempo e sua agenda 
de imprevistos. Mas todo início aguarda 
a visita dos deuses e demônios.

Há fórmulas polidas nos subúrbios 
da fala. Há densidades nos recintos 
desprovidos de margens. E nos mínimos
detalhes de ruptura existe um sopro
de solidão que soa nesta vértebra 
de audácia e persistência. 
...........................................Alguém pertuba 
o horário de recreio das palavras. 

Gilberto Mendonça Teles
In 'Arte de armar' (1977)


CONVITE

Vem comigo para dentro 
da palavra multidão:
de mãos dadas somos vento,
somos chuva de trovão.

Se uma andorinha sozinha
não pode fazer verão, 
vem comigo mais ainda 
para dentro da expressão. 

Cada letra tem seu ninho 
de palavras no porão:
vem tirá-las de seu limbo, 
vem fazer tua oração. 

Dentro de cada palavra,
no seu timbre e elocução, 
saberás de peixe, cabra, 
de liberdade e quinhão. 

E até na palavra nova, 
bliro, ilhaval e zirlão 
alguma coisa se dobra, 
tem sentido a sedução. 

Pega portanto uma letra, 
pega a palavra invenção
e transforma em borboleta 
um risco arisco no chão.

É no centro da linguagem,
no seu silêncio e pressão, 
que se dedilha uma casa, 
que se desenha a canção. 

Gilberto Mendonça Teles
In (Álibis) 2000.



Etnologia


Ainda 

há índios.

Gilberto Mendonça Teles



Nos Últimos 20 anos

Nos últimos vinte anos, muitas coisas
tiveram seu princípio –

.................Uma lagarta
começou a comer o talo verde
de uma folha esculpida na parede
do edifício mais próximo.

................Uma aranha
teceu e desteceu a sua renda
à espera da odisséia de um inseto
curioso.

................Um beija-flor impaciente
começou a amolar o longo bico
no metal do verão.

................Recém-nascido,
um menino berrava o beabá
mijando indiferente na linguagem.
Entre greves, censura e terrorismo,
um relâmpago veio da internet,
riscou no movimento o próprio site
e se perdeu na pós-modernidade
do milênio.

................Enquanto isso, o amor abria
seus e-mails (sem vírus), a sua flor
de signos, suas formas, a sua arte
de escandir as vogais, tanger os ictos,
as consonâncias e, sílaba a sílaba,
plantar no íntimo do homem o desejo
mais fundo da poesia.

Gilberto Mendonça Teles



DILEMA

Tenho o sangue da gente aventureira
e o amor à terra que me deu o sonho.
Mas me encontro parado na fronteira,
sem saber se recuo, ou se a transponho.
Aprisionado pelo ideal que sonho
na solidão da praia derradeira,
risco na areia o poema que suponho
ficará na memória a vida inteira.

O gosto de lutar contra o imprevisto
fez-me todo de vento e não resisto
ao desespero bom de ir mais além.
Estendo os olhos para o mar, e penso:
"- Tenho chumbo nos pés e o mar e imenso:
só me resta sonhar como um refém." 


Gilberto Mendonça Teles



MELODIAS

Ternas melodias de longínquas plagas,
ns manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas erras vindes me encantar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância do poema, no ar?

Ou vindes dos astros – de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos,
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha:
São as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha.

Essas melodias que a minh´alma douram,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.


Gilberto Mendonça Teles



O OUTRO

Já não serei eu mesmo, serei outro
quando me virem segurando as horas
e desenhando pássaros barrocos
nas pétalas das conchas e das rosas.

Se, deslumbrado pela luz da autora,
eu caminhar sem rumo, como um louco,
sabei que levo estrelas na memória
e me contemplo velho, sendo moço.

Diante dos homens gritarei comícios
e arrastarei por onde for o bando
que me seguir os passos indecisos.

E quando a noite vier rolando o medo,
eu dormirei nas pedras como um santo
e sonharei nas ruas como um bêbado. 


Gilberto Mendonça Teles







SONETO XXII


Não morrerás em mim. Não morrerás
assim como uma sombra na distância,
o vento no horizonte e, nas manhãs,
a alegria mais pura que inventamos.
Serás presente em tudo e viverás
o segredo de todos os momentos.
Todas as coisas gritarão teu nome
e o silêncio mais puro, o mais sutil,
aquele que mais dói e acende as noites
e o ser profundamente intranqüiliza
este restituirá o movimento,
a eternidade viva de teus passos
e a certeza mais limpa de que nunca
tu morrerás em mim.
Não morrerás.


Gilberto Mendonça Teles
de Sonetos do azul sem tempo






ROSÁRIO

Para Mary

Em pleno sol de outono, em pleno maio, abrindo
a alma para os cristais dos dias mais risonhos,
vou desfiando ao léu, pelo horizonte infindo,
meu rosário de sonhos.

Vou desfiando, assim, meu rosário de contas
esplêndidas, azuis, de rósea cor tocadas
e que são como orvalho a oscilar-se nas pontas
das folhas pelo sol do estio marchetadas.

Hei de rezá-las todas.
Passá-las, de uma a uma, em cânticos de hinário,
que os dias deste mês de noivados, de bodas,
serão contas de luz na cruz do meu rosário.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


ACALANTO


Fecho meus olhos para o teu canto
e ouço a cantiga vibrando no ar:
asas de vento, sons de acalanto,
a luz do dia no próprio encanto
que o sol da vida te faz cantar.

Fecha teus olhos para o meu canto
e ouve o marulho longe de um mar,
lançando à praia do desencanto
todo o meu sonho desfeito em pranto
que o sal da vida me faz chorar.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos



CANÇÃO


As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.


Gilberto Mendonça Teles
Planície “in” Hora Aberta



O discurso


Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.


Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.


Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.


E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não. 

Gilberto Mendonça Teles



Meus Outros Anos


Eu me lembro, eu me lembro, Casimiro,
no meu São João, no meu Goiás, na aurora
da minha vida, eu li o teu suspiro,
li teus versos de amor que leio agora.

E que meu filho lê, e todo mundo
sabe de cor, de coração, de ouvido,
desde que sinta o apelo mais profundo
de tudo que tem força e tem sentido.

Contigo comecei a ver e vi
as coisas mais comuns - o natural:
o rio, a bananeira, a juriti
e a tarde que cismava no quintal.

Contigo descobri a travessia
do tempo na manhã, no amor, no medo,
nos olhares da prima que sabia
a dimensão maior do meu brinquedo.

E até este confuso sentimento,
esta idéia de pátria, que persiste,
veio de teus poemas, no momento
em que tudo era belo e apenas triste

era pensar no exílio e ver no termo
um motivo de doença e de pecado;
triste era imaginar o poeta enfermo,
tossindo os seus silêncios no passado.

Eu me lembro, eu me lembro! e quis de perto
ver o teu rio, teu São João, teu lar;
ler a poesia desse céu aberto
que continuas a escrever no mar.

Gilberto Mendonça Teles


ELIPSE



Vim descobrir o que ficou de elipse
e precisão,
o que se fez sucinto e reticente,
o inacabado do cabo Não. 

Vim recolher esta úmida sintaxe
que foi além
e não poupou a rigidez da língua
que ficou sem.

E vim, não para ver, deixar a meio
fala e raiz:
vim extrair de ti a própria essência
do que não fiz. 

Gilberto Mendonça Teles


ANULAÇÃO



Ocupar o espaço
contido na sombra,
ser o pó do espesso,
o vão da penumbra, 

o dó sem começo,
o nó sem vislumbre,
o invisível traço
do não-ser: escombro. 

Ser zero, ou nem isso:
letra morta, timbre
do vazio no osso.

Ser aquém do nome
— o só do soluço
de coisa nenhuma.

Gilberto Mendonça Teles


Geração

Sou um poeta só, sem geração,
que chegou tarde à gare modernista
e entrou num trem qualquer na contramão,
e vai seguindo sem sair da pista.

A de quarenta e cinco me tutela,
me trata como a um filho natural.
Eu chego às vezes tímido à janela
mas vou brincar no fundo do quintal.

Na poesia concreta, a retaguarda
é que me vê brincando de arlequim.
Às vezes fujo à rima e lavo um fardo
de roupas sujas, não tão sujo assim..

A de sessenta e um foi de proveta,
foi mágica de circo para um só.
Ninguém me viu caçando borboleta
ou pescando escondido o meu lobó.

Quem fez letra, cantou e usou bodoque
que se fez marginal pela cidade,
será que fez poesia ou fez xerox
ou apenas tropicou na liberdade.

Gilberto Mendonça Teles
de Hora Aberta


À Linha da Vida


A que, visível, se interrompe
na palma da máo, decisiva:
a ultrapassagem do horizonte
pelo lado avesso da escrita.


À Linha do Universo


A que, invisível, se deleita
no olho sensual da fechadura:
a letra (aleph) e seu pentelho
no espaço-tempo que se enruga.

E, anjo ou demônio, pinta o sete
mas tão relativo e medroso
que o tom azul logo se perde
na linha de fundo do esboço.


À Linha-d’água


Visível enquanto invisível,
compõe seu ritmo avergoado:
a imagem se imprime no nível
do que está deste e do outro lado.

Por sob a carga o sonho e o medo
de haver perdido e haver ganhado:
no contrabando do segredo
o contrapeso do sagrado.

E o que ficou quase perdido
(o que me deixa envergonhado)
ainda viaja sem sentido,
meio à deriva,
xxxxxxxxxxxe bem calado.


Rio, 1986.

Gilberto Mendonça Teles


Locus Amoenus


Sou homem do mato e meio bugre:
falo pouco e penso enviesado,
usando sempre expressões populares.
E, por gostar de fazer arte,
ando morto de amor,
mas vivinho da sílvia.

Às vezes sou até meio exibido:
mato a cobra e mostro logo o pau,
enquanto os deuses brincam
no lugar mais ameno da floresta.

Daí talvez o meu gosto e inclinação
pelas coisas mais simples:
cheiro de flor, resina, zigue-
zague de borboleta e barulhinho
de folha seca nos trilheiros,
além do indispensável gole de cachaça
que faz muito bem depois do poema.

O que não se explica é este jeito de sombra,
este balanço do corpo nos atalhos
e este sestro de chupar a ponta da língua
e extrair a polpa de uma fruta
no meio do cerrado.

É daí que aprecio melhor
o pisco repentino de uma estrela.

Gilberto Mendonça Teles


45

A Domingos Carvalho da Silva


Sou da geração
de quarenta e cinco
ou tenho na mão
a porta sem trinco?


(Nem sei quantas são
as telhas de zinco
que cobrem meu chão
de quarenta e cinco.)


Semeei meu grão?
fui ao fim do afinco?
pesquei a paixão
de quarenta e cinco?


Tudo é sim e não
em quarenta e cinco.
E a melhor lição
forma sempre um vinco


de interrogação
no tempo, onde brinco
procurando um vão
entre o 4 e o 5.



Gilberto Mendonça Teles





EU TE ESPERO



Eu sempre te esperei.
Eu sempre te esperei em uma nuvem de neve
tão diáfana e sutil, tão vaporosa e leve
e, num halo de luz, vinda de onde não sei,
Eu sempre te esperei.
E eu sei que tu virás.
E eu sei que tu virás num sonho alucinado,
na brancura de paz de um silêncio ondulado
e, suave como um luar de finos tafetás,
eu sei que tu virás.
E nem sei quando vens.
E nem sei quando vens. O tempo é um hiato.
Só o amor é verdade, e tudo o mais, abstrato.
Só o amor é que encerra o supremo dos bens,
e nem sei quando vens.
Mas te espero feliz.
Mas te espero feliz e entre anseios te aguardo.
Hás de chegar um dia e nessa espera eu ardo.
Sempre, por toda a vida (é minha alma que o diz)
Te esperarei feliz.


Gilberto Mendonça Teles
(HORA ABERTA - poemas reunidos - Ed. Vozes, 2003)

DO LIVRO POEMAS REUNIDOS

Madrugada 


Ainda há estrelas no céu, tremelicando, tontas,
e a manhã já vem vindo, indolente e indecisa,
até que o passaredo o concerto organiza
para esperar-te, ó sol, que dos longes despontas.

Um rego d'água corre e um vento brando alisa
as franças do capim ridente,em cujas pontas
o orvalho da manhã esplende como as contas
de explêndido cristal que o sol, beijando , irisa.

As aves cantam numa alegria incontida;
a terra cheia, ri-se o capinzal molhado;
e toda a natureza é um hálito de vida.

E de há muito que está o caboclo de pé,
olhando, preguiçoso, e no sonho abismado,
a fumaça a subir do rancho de sapé.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



Simplicidade

Tudo é tão simples nesta vida e fica
às vezes tão confuso ou tão bisonho
que a linguagem das coisas se duplica
ante os olhos atônitos de sonho.
E essa simplicidade, clara e rica
de sensações indefiníveis, ponho
no pensamento real que frutifica
na ambiguidade em que me decomponho.
Mas o cenário vai mudando. E a vida 
se lança calma e convenientemente
na foz do tempo. E eu continuo , a esmo,
minha jornada interrompida,
procurando o horizonte inexistente
na planície impossível de mim mesmo.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

IV

Há na espera um prenúncio de incerteza
sobre a alegria que não sei mais terna.
Tudo me leva a ti, e eu sigo mesmo
tocando estrelas cada vez mais perto.

Não desconheço a exatidão da noite
nem o horizonte que te ausenta sempre.
Um dia acordarei para teu corpo
e só ternura de palavras entre

os teus cabelos te direi, de encanto.
Minha linguagem rútila terá
a eternidade que terei, cantando.

E tudo o mais será como o silêncio
pesando sobre a noite, a noite e o campo,
e o campo que não mais se esquecerá.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


MELODIAS


Ternas melodias de longínquas plagas,
nas manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas terras vindes me encontrar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância do poema, no ar?

Ou vindes dos astros - de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha;
são as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha

Essas melodias que a minh'alma douram ,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



HINO AO SONO


À noite, quando sinto o meu corpo sentindo
a fadiga, o cansaço e o tédio do trabalho,
tu vens, ó sono bom, vens lentamente vindo
enrolar-me na lã do teu fluido agasalho.

E, como uma flor branca embebida de orvalho,
a suave languidez de tua alma se diluindo
cobre todo o meu ser e no teu ser me espalho
como um som que se escuta a ampliar-se, sumindo...

Em ti, como num mar distante, cujas águas
refletissem a dor , as tristezas e as mágoas
de quem de cedo tivesse o desprezo da sorte,

todo o meu ser se abisma, ansioso, e se evapora!
Porque tu és, ó sono, essa essência sonora
tranquilizante a vida poetizando a morte.


Gilberto M.Teles
In Poemas Reunidos


POEMA


De ti me vem esta alegria pura,
singela como o som de flauta rústica,
irradiante como o sol
na manhã rumorosa,
cheia de orvalhos,
cheia de pássaros,
cheia de luz
e da ansiedade imensa
de completar
o amor!

De ti me vem esta alegria silenciosa
e inexplicável de saber que vivo
na cadência feliz da sintonia
universal dos elementos.
De ti me vem
o sussuro das vozes sonorosas
e a linguagem inefável
deste amor.

De ti me vem esta alegria
de ser livre e de estar sozinho te esperando
nalgumas dessas ilhas afastadas,
perdidas no Pacífico do Sonho.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos

CANTIGA I

Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda 
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda.

Há tanto silêncio,
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavravida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
-Alguém docemente
pensará na vida.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


CANTIGA III


Soprei na esquina do vento
a condição do meu canto:
- "Que os homens todos me entendam!"
Mas, como um rio em silêncio,
fui-me no tempo ocultando.

Era preciso, e falei.
Gritei as minhas palavras.
Tinha esperança, e de lei.
E hoje, cansado, nem sei
se alguém, de longe, escutava.

Surpreendo agora na curva
repentina do planalto
a noite que vem na chuva
de uma tristeza tão muda
que nem sei mais o que faço.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos


HINO À NOITE

Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei contigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos







do livro PLURAL DE NUVENS



LUDUS


Tolle, lege. 
Santo Agostinho

Toma a palavra, e principia. Tudo 
tem um pouco de ti: um sol, um sema. 
No fundo, teu desejo:
............................. lodo e ludo, 
jogo de truque e blefe de poema.

Toma este livro, toma e lê (ou lege);
não só um tomo, a obra inteira soma 
à solidão maior que te protege 
como um corpo de baile no idioma.

E toma ao pé da letra o que combina 
com teu gosto e prazer:
............................. o cimo, a suma 
de todos os sabores,
............................. vitamina, 
quintessência final de coisa alguma.

Gilberto Mendonça Teles
In 'Plural de Nuvens’(1990)


AQUI E AGORA


Procuro o aqui e o agora, 
o agoraqui, o que já foi 
e continua: a cor de outrora 
no couro curtido de um boi.

Procuro o que está sendo, 
o que se acende, o que se apaga,
o acontecido acontecendo, 
sombra de peixe fora d'água.

Procuro o que figura
no que perdi te procurando,
o que se gastou na usura
do que me vem de vez em quando.

Procuro o que projeto 
além de mim, no que me sobra: 
talvez a sombra de um inseto 
na plantação da minha obra.

Procuro o procurar-te, 
o que sempre fiz e não sei. 
Talvez o aqui e o agora, a parte 
do que ficou fora da lei.

Gilberto Mendonça Teles
In ‘Plural de Nuvens’(1990)



PLURAL DE NUVENS


Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


SIGNO

Ainda existe a rosa nos cabelos 
vermelhos da poesia.


Ainda há força 
no azul do seu mistério, no seu canto,
no eixo de sua aérea encruzilhada.


Ainda, a sua origem, seu mais íntimo
silêncio: o veludoso ardor das pétalas,
o aroma das amoras no políndromo,
das palavras de aladas peripécias.


Ainda, esta morada, o seu precioso
espaço interior, o alumbramento
da forma em desatino, a descontínua 
perspectiva do ser na travessia.


Ainda, a sua angústia, o novo tempo
se exaurindo nas coisas, lapidando
os favos da romã e consumindo
seu avesso de fogo e sutilezas.


E ainda a sua imagem:
lago, espelho,
alma e corpo submerso, o indelével
estribilho do amor e seu disfarce,
e seus pontos de cruz na superfície.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens















CANTIGA



Se vives dentro da noite
como uma estrela , a brilhar,
eu vou pela noite a dentro
no meu silêncio, a sonhar.

(Alguém haverá que impeça
um sonhador de sonhar?
E essas palavras comuns,
não são também para usar?)

Estendo as mãos: a distância
se interpõe.Fico a pensar:
por que as estrelas são tantas?
Por que não posso voar?

Gilberto Mendonça Teles
In 'Poemas'


domingo, 8 de setembro de 2013

SALDO



Na pagina adolescente
deste mundo em flor,
sou um saldo anterior.

Helena Kolody
in Poesia Mínima

SINFONIA DA VIDA



Seu livro de estréia, Paisagem interior, publicado em 1941,
 contém 45 poemas, três dos quais são haicais.
Alguns dos poemas deste primeiro livro foram depois
 retrabalhados por Helena, conforme pode-se ver em edições
 posteriores reunindo suas obras. O seguinte depoimento,
 transcrito na antologia Sinfonia da Vida (1997),
 é significativo:

Antigamente, eu me derramava em palavras. Um dia,
 o Dr. Andrade Muricy, um paranaense que era crítico de
 arte no Rio de Janeiro, aconselhou-me: “Você vai muito
 melhor no poema curto. Você quer encompridar e, 
às vezes, dilui o poema ou se repete. Você tem talento
 para a síntese”. Daí em diante, comecei a cortar os
 excedentes, deixando só o sumo, o essencial.

TRISTEZA DAS MÃOS


Capa da primeira edição de ‘Correnteza’ 1.977

Choram em silêncio a dor de envelhecer.

Foram um dia a graça inocente
De um berço num lar.

Pálidas mãos, sulcadas de renúncias!

Foram jovens e belas,
Confiantes em si mesmas, todo-poderosas.

Tímidas mãos que se apagam na sombra!

Mãos feitas de luz, intrépidas e leais,
Solícitas e compreensivas,
Ternas mãos maternais.

Velhas mãos solitárias,
Como dói recordar!


Helena Kolody

A SOMBRA DO RIO


Capa da primeira edição de 'A sombra no Rio' - 1.951-

ANTOLOGIA POÉTICA


Capa da Primeira Edição de Antologia Poética- 1.967

CANÇÃO DE NINAR


(Capa da 1ª edição do livro.)

(para uma criança da favela) 

Criança, és fio d'água 
Triste desde a fonte. 
Humilde plantinha 
Nascido em monturo: 
Quanta ausência mora 
Nesse olhar escuro!

Recosta a cabeça 
Na minha cantiga
Deixa que te envolva,
Que te beije e embale. 

Helena Kolody 
Do livro: "Vida breve" [1964],

APELIDOS



Eram Jucas e Chiquinhos, 
Ninas, Lolas, Mariquitas. 
Apelidos que o amor 
seleva nas criaturas. 

Hoje são números. 
(Computadores não programam ternura) 

Helena Kolody 

Do livro: "Ontem agora", Secretaria de
 Estado de Cultura do Paraná, 1991, PR
 

OBRAS DE HELENA KOLODY



Obras 

1. Paisagem interior. edição da autora, 1941.
2. Música submersa, edição da autora, 1945.
3. A sombra do rio, edição da autora, 1951.
4. Triologia, separata de Um século de poesia.
 Curitiba. Centro Paranaense Feminino de Cultura, 1959.
5. Poesias completas. Curitiba: edição de homenagem 
a cargo de alunos, 1962.
6. Vida breve, edição da autrora, 1964.
7. 20 poemas, reunião e edição da autora, 1965.
8. Era espacial e Trilha sonora, edição da autora, 1966.
9. Antologia poética, organiza e editada pela autora, 1967.
10. Tempo, edição da autora, 1970.
11. Correnteza, edição da autora, 1977.
12. Infinito Presente, edição da autrora, 1980.
13. Poesias escolhidas. Curitiba: Sociedade dos
 Amigos da Cultura Ucraíana. Tradução de Wira Wowk
 para o ucraniano, 1983.
14. Sempre palavra. Curitiba: Criar Edições, 1985.
15. Poesia mínima. Curitiba: Criar Edições. 1986.
16. Viagem no espelho: reunião. Curitiba: Criar 
Edições, 1988.
17. Ontem, agora. Curitiba: Secretaria do Estado de
 Cultura, 1991.
18. Reika, Curitb: Fundação Cultural de Curitiba, 1994.
 Série Buquinista. 19. Antoloia poética. Curitba: 
Livrarias Curitiba, 1994.
20. Viagem no espelho, 2ª edição. Curitiba: Editora da
 UFPR, 1995.
21. Caixinha de música. Curitiba: Secretaria do Estado 
da Cultura, 1996.
22. Luz infinita. Curitiba: Museu Biblioteca Ucraniana
 em Curitiba. Tradução de Ghryghory Kotchur e Wira 
Selanski para o ucraniano. Edição bilíngüe.


Texto retirado do Livro "Helena Kolody - Sinfonia da
 vida; Organização: Tereza Hatue de Rezende. 
Coleção Antologia poética. D.E.L. Editora/Letraviva,
 Pólo Editorial do Parná "A transformaçaõ que a gente lê.
 - 1997, pág. 

AUTO-BIOGRAFIA



Nasci no dia 12 de outubro de 1912, no núcleo colonial de Cruz 
Machado, em pleno sertão paranaense. Eram 8 horas da manhã de
 um dia de sol e geada. 

Meus pais eram ucranianos, que se conheceram a casaram no Paraná.
 Eu sou a primogênita e a 1ª brasileira de minha família. 

Miguel Kolody, meu pai, nasceu na parte da Ucrânia chamada
 Galícia Orienta, em 1881. Tendo perdido o pai na grande 
epidemia de cólera que assoloua Ucrânia em 1893, Miguel,
 no ano seguinte, emigrou para o Brasil com a mãe e os irmãos. 

Mamãe, cujo nome de solteira era Victoria Szandrowska, também
 nasceu na Galícia Oriental, em 1892. Veio para o Brasil em 1911. 

Vovô radicou-se em Cruz Machado, onde papai trabalhava. "Seu" 
Miguel conheceu a jovem Victoria e apaixounou-se por ela. 
Casaram-se em Janeiro de 1912. Estava escrito o primeiro 
capítulo da minha história. 

Texto retirado do Livro "Helena Kolody - Sinfonia da vida; 
Organização: Tereza Hatue de Rezende. Coleção Antologia 
poética. D.E.L. Editora/Letraviva, Pólo Editorial do Parná
 "A transformaçaõ que a gente lê. - 1997, pág. 11. 

BIOGRAFIA DE HELENA KOLODY



Nascimento-Cruz Machado,PR- 12 de outubro de 1912 — 
Morte-Curitiba, 15 de fevereiro de 2004


Em 12 de outubro de 1912, Helena nasceu, filha de Miguel
 e Vitória Kolody, imigrantes ucranianos, em Cruz Machado,
 Paraná. É a primeira brasileira da família. Passou a 
infância no cenário catarinense de uma pequena vila :Três
 Barras. Com 16 anos teve a primeira publicação de um poema 
seu, “A lágrima”, na revista O Garoto, editada por 
estudantes. Trabalhou por 23 anos no Instituto de Educação. 

“Desde pequena eu amei as palavras. Quem me alfabetizou foi
 minha tia de Rio Negro, professora do primeiro ano primário.
 Eu nunca esqueço a primeira cartilha que tive em mãos,
 cheia de figuras. Amei tanto aquele livro que nunca mais
 parei de ler. As escolas emprestavam livros de sábado para
 segunda e, assim, eu passava os finais de semana lendo e 
lendo.”


Helena apreciava, desde pequena, a leitura de livros,
 revistas, textos que lhe caíssem à mão. “Passava os finais
 de semana lendo. Umas coleções, como “As grandes lendas da
 humanidade “ eram minha delícia naquela época , tudo com o
 elemento maravilhoso , mágico“. Assim , Helena Kolody 
permeou sua produção poética com a crença no homem e em 
suas possibilidades desde que aliada à religiosidade. A
 análise intimista – alma solitária , silêncio , apego a 
bens espirituais , carência amorosa – constitui em traço
 forte de seu trabalho. "Quando criança, eu já gostava
 de  poesias e as cantava como se fossem hinos da escola."
 Ela lembra ainda de amores platônicos na adolescência, que
 lhe inspiraram algumas poesias em que aparece uma
 resignação altiva. "Não acreditava que me amavam. Eu era
 meio gordinha..." Helena não apreciava o progresso e este
 fato fez com que o leitor observasse poemas amargurados,
 melancólicos associados a um fio de esperança no dia de 
amanhã. Com circularidade, ela produziu textos poéticos
 que se avultavam em antíteses ou mesmo abstrações e 
humildade. 

Ocupou a cadeira número 28 da Academia Paranaense de Letras. 

Em 14 de fevereiro de 2004, Helena se despede do mundo que
 tão bem a recebeu e que tantas informações recebeu dela.
 Uma perda que pode ser preenchida pela divulgação de
 seus poemas – eternos versos de vida. 














sexta-feira, 6 de setembro de 2013

POEMAS DE GILBERTO MENDONÇA TELES

Criação



O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
tímidos,
embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.


No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
a meia-luz,
os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
e se apagam de repente.


No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
como um dia de festa, ou de verão.


No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
roendo,
roendo
um osso duro de roer.


Gilberto Mendonça Teles,
in Álibis



História


Toda história tem seu texto
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.


Tem um sujeito que a escolhe
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe
qui tollis peccata mundi.


Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.


Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
R tem a essência que muda
e permanece, calada.


Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar pelo avesso,
ler o que está subscrito.


Gilberto Mendonça Teles



O discurso


Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.


Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.


Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.


E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.


Gilberto Mendonça Teles





DECLINAÇÃO



O mar não me levou:
o meus cuidados
(o que era ruim /o que era bom demais)
ficaram por aí, pelos cerrados,
à sombra dos paus-terras de Goiás. 

O mar não me lavou:
meu corpo todo
tem as marcas da terra – o sol, o chão,
os cheiros doces dos quintais, do lodo,
e a febre do meu T nesta sezão. 

Eu sou quem sou. Não me mudei. Mudou-me
uma parte da vida, mas foi sem:
não me levou nem me lavou,
livrou-me
da danação de todo mal, amém. 

(Se houver louvor aqui, se alguma luva,
qualquer pessoa a pode usar por mim:
a minha história é como um guarda-chuva
que a gente esquece,
quando chega ao fim.)


Gilberto Mendonça Teles



ELIPSE



Vim descobrir o que ficou de elipse
e precisão,
o que se fez sucinto e reticente,
o inacabado do cabo Não. 

Vim recolher esta úmida sintaxe
que foi além
e não poupou a rigidez da língua
que ficou sem. 

E vim, não para ver, deixar a meio
fala e raiz:
vim extrair de ti a própria essência
do que não fiz. 


Gilberto Mendonça Teles


ANULAÇÃO


Ocupar o espaço
contido na sombra,
ser o pó do espesso,
o vão da penumbra, 

o dó sem começo,
o nó sem vislumbre,
o invisível traço
do não-ser: escombro. 

Ser zero, ou nem isso:
letra morta, timbre
do vazio no osso.

Ser aquém do nome
— o só do soluço
de coisa nenhuma.

Gilberto Mendonça Teles




ANÚNCIO 



Troco urgentemente uma secretária 
eletrônica, 22ov, bastante conservada 
(motivo mudança de amor e domicílio), 
por uma secretária invisível, 
dessas que fazem desaparecer 
tudo de repente: 
colóquio de alquimistas 
congressos de bruxas 
reuniões de catedráticos 
e até o I simpósio 
de mulheres jubilosas. 

Que seja loirena e diligente, 
que seja meiga, sobretudo quando visível. 
Que não se esqueça dos pequenos aniversários 
(uma semana disso, um mês daquilo) 
e os saiba comemorar condignamente 
nalgum lugar secreto: 
ilha ou limbo 
beira de mar 
quarto de hotel 
fumaça de cachimbo. 
Que seja também multilíngüe 
para entender-me em todos os sentidos. 
E que não perca nunca o seu charme 
para me seduzir ou raptar-me 
nas horas mais incríveis de solidão. 

(Cartas para esta redação.) 

Gilberto Mendonça Teles





Preciso urgentemente encontrar 
minha secretária invisível 
que se perdeu sexta-feira 
em reuniões e telefonemas 
e me deixou a ver navios. 

Melhor: um submarino atômico 
que entrou pelo rio e bombardeou 
toda a cidade, virando-a 
pelo avesso, como um absurdo 
e até remoto cataclismo. 

(Gratifica-se bem quem der notícia 
a esta redação. Ou à polícia.) 

Gilberto Mendonça Teles




ORIGEM

Agarro o azul do poema pelo fio
mais delgado da lã de seu discurso 
e vou trançando as linhas do relâm-
pago no vidro opaco da janela. 

Seu novelo de nuvens reduplica 
a concreta visão desse animal 
que se enreda em si mesmo, toureando 
a púrpura do mito e se exibindo
diante da minha astúcia de momento. 

Sou cheio de improviso. Sou portátil. 
E sou noite e falácia. Sou impulso
e excesso de acidentes. Sou prodígios.
E agora que há sinais de ressonância 
sou milícia verbal configurando 
a subversão na zona do silêncio. 
.......................
Todo início é noturno. Todo início
é maior que seu tempo e sua agenda 
de imprevistos. Mas todo início aguarda 
a visita dos deuses e demônios.

Há fórmulas polidas nos subúrbios 
da fala. Há densidades nos recintos 
desprovidos de margens. E nos mínimos
detalhes de ruptura existe um sopro
de solidão que soa nesta vértebra 
de audácia e persistência. 
...........................................Alguém pertuba 
o horário de recreio das palavras. 

Gilberto Mendonça Teles
In 'Arte de armar' (1977)


CONVITE

Vem comigo para dentro 
da palavra multidão:
de mãos dadas somos vento,
somos chuva de trovão.

Se uma andorinha sozinha
não pode fazer verão, 
vem comigo mais ainda 
para dentro da expressão. 

Cada letra tem seu ninho 
de palavras no porão:
vem tirá-las de seu limbo, 
vem fazer tua oração. 

Dentro de cada palavra,
no seu timbre e elocução, 
saberás de peixe, cabra, 
de liberdade e quinhão. 

E até na palavra nova, 
bliro, ilhaval e zirlão 
alguma coisa se dobra, 
tem sentido a sedução. 

Pega portanto uma letra, 
pega a palavra invenção
e transforma em borboleta 
um risco arisco no chão.

É no centro da linguagem,
no seu silêncio e pressão, 
que se dedilha uma casa, 
que se desenha a canção. 

Gilberto Mendonça Teles
In (Álibis) 2000.



Etnologia


Ainda 

há índios.

Gilberto Mendonça Teles



Nos Últimos 20 anos

Nos últimos vinte anos, muitas coisas
tiveram seu princípio –

.................Uma lagarta
começou a comer o talo verde
de uma folha esculpida na parede
do edifício mais próximo.

................Uma aranha
teceu e desteceu a sua renda
à espera da odisséia de um inseto
curioso.

................Um beija-flor impaciente
começou a amolar o longo bico
no metal do verão.

................Recém-nascido,
um menino berrava o beabá
mijando indiferente na linguagem.
Entre greves, censura e terrorismo,
um relâmpago veio da internet,
riscou no movimento o próprio site
e se perdeu na pós-modernidade
do milênio.

................Enquanto isso, o amor abria
seus e-mails (sem vírus), a sua flor
de signos, suas formas, a sua arte
de escandir as vogais, tanger os ictos,
as consonâncias e, sílaba a sílaba,
plantar no íntimo do homem o desejo
mais fundo da poesia.

Gilberto Mendonça Teles



DILEMA

Tenho o sangue da gente aventureira
e o amor à terra que me deu o sonho.
Mas me encontro parado na fronteira,
sem saber se recuo, ou se a transponho.
Aprisionado pelo ideal que sonho
na solidão da praia derradeira,
risco na areia o poema que suponho
ficará na memória a vida inteira.

O gosto de lutar contra o imprevisto
fez-me todo de vento e não resisto
ao desespero bom de ir mais além.
Estendo os olhos para o mar, e penso:
"- Tenho chumbo nos pés e o mar e imenso:
só me resta sonhar como um refém." 


Gilberto Mendonça Teles



MELODIAS

Ternas melodias de longínquas plagas,
ns manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas erras vindes me encantar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância do poema, no ar?

Ou vindes dos astros – de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos,
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha:
São as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha.

Essas melodias que a minh´alma douram,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.


Gilberto Mendonça Teles



O OUTRO

Já não serei eu mesmo, serei outro
quando me virem segurando as horas
e desenhando pássaros barrocos
nas pétalas das conchas e das rosas.

Se, deslumbrado pela luz da autora,
eu caminhar sem rumo, como um louco,
sabei que levo estrelas na memória
e me contemplo velho, sendo moço.

Diante dos homens gritarei comícios
e arrastarei por onde for o bando
que me seguir os passos indecisos.

E quando a noite vier rolando o medo,
eu dormirei nas pedras como um santo
e sonharei nas ruas como um bêbado. 


Gilberto Mendonça Teles







SONETO XXII


Não morrerás em mim. Não morrerás
assim como uma sombra na distância,
o vento no horizonte e, nas manhãs,
a alegria mais pura que inventamos.
Serás presente em tudo e viverás
o segredo de todos os momentos.
Todas as coisas gritarão teu nome
e o silêncio mais puro, o mais sutil,
aquele que mais dói e acende as noites
e o ser profundamente intranqüiliza
este restituirá o movimento,
a eternidade viva de teus passos
e a certeza mais limpa de que nunca
tu morrerás em mim.
Não morrerás.


Gilberto Mendonça Teles
de Sonetos do azul sem tempo






ROSÁRIO

Para Mary

Em pleno sol de outono, em pleno maio, abrindo
a alma para os cristais dos dias mais risonhos,
vou desfiando ao léu, pelo horizonte infindo,
meu rosário de sonhos.

Vou desfiando, assim, meu rosário de contas
esplêndidas, azuis, de rósea cor tocadas
e que são como orvalho a oscilar-se nas pontas
das folhas pelo sol do estio marchetadas.

Hei de rezá-las todas.
Passá-las, de uma a uma, em cânticos de hinário,
que os dias deste mês de noivados, de bodas,
serão contas de luz na cruz do meu rosário.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


ACALANTO


Fecho meus olhos para o teu canto
e ouço a cantiga vibrando no ar:
asas de vento, sons de acalanto,
a luz do dia no próprio encanto
que o sol da vida te faz cantar.

Fecha teus olhos para o meu canto
e ouve o marulho longe de um mar,
lançando à praia do desencanto
todo o meu sonho desfeito em pranto
que o sal da vida me faz chorar.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos



CANÇÃO


As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.


Gilberto Mendonça Teles
Planície “in” Hora Aberta



O discurso


Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.


Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.


Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.


E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não. 

Gilberto Mendonça Teles



Meus Outros Anos


Eu me lembro, eu me lembro, Casimiro,
no meu São João, no meu Goiás, na aurora
da minha vida, eu li o teu suspiro,
li teus versos de amor que leio agora.

E que meu filho lê, e todo mundo
sabe de cor, de coração, de ouvido,
desde que sinta o apelo mais profundo
de tudo que tem força e tem sentido.

Contigo comecei a ver e vi
as coisas mais comuns - o natural:
o rio, a bananeira, a juriti
e a tarde que cismava no quintal.

Contigo descobri a travessia
do tempo na manhã, no amor, no medo,
nos olhares da prima que sabia
a dimensão maior do meu brinquedo.

E até este confuso sentimento,
esta idéia de pátria, que persiste,
veio de teus poemas, no momento
em que tudo era belo e apenas triste

era pensar no exílio e ver no termo
um motivo de doença e de pecado;
triste era imaginar o poeta enfermo,
tossindo os seus silêncios no passado.

Eu me lembro, eu me lembro! e quis de perto
ver o teu rio, teu São João, teu lar;
ler a poesia desse céu aberto
que continuas a escrever no mar.

Gilberto Mendonça Teles


ELIPSE



Vim descobrir o que ficou de elipse
e precisão,
o que se fez sucinto e reticente,
o inacabado do cabo Não. 

Vim recolher esta úmida sintaxe
que foi além
e não poupou a rigidez da língua
que ficou sem.

E vim, não para ver, deixar a meio
fala e raiz:
vim extrair de ti a própria essência
do que não fiz. 

Gilberto Mendonça Teles


ANULAÇÃO



Ocupar o espaço
contido na sombra,
ser o pó do espesso,
o vão da penumbra, 

o dó sem começo,
o nó sem vislumbre,
o invisível traço
do não-ser: escombro. 

Ser zero, ou nem isso:
letra morta, timbre
do vazio no osso.

Ser aquém do nome
— o só do soluço
de coisa nenhuma.

Gilberto Mendonça Teles


Geração

Sou um poeta só, sem geração,
que chegou tarde à gare modernista
e entrou num trem qualquer na contramão,
e vai seguindo sem sair da pista.

A de quarenta e cinco me tutela,
me trata como a um filho natural.
Eu chego às vezes tímido à janela
mas vou brincar no fundo do quintal.

Na poesia concreta, a retaguarda
é que me vê brincando de arlequim.
Às vezes fujo à rima e lavo um fardo
de roupas sujas, não tão sujo assim..

A de sessenta e um foi de proveta,
foi mágica de circo para um só.
Ninguém me viu caçando borboleta
ou pescando escondido o meu lobó.

Quem fez letra, cantou e usou bodoque
que se fez marginal pela cidade,
será que fez poesia ou fez xerox
ou apenas tropicou na liberdade.

Gilberto Mendonça Teles
de Hora Aberta


À Linha da Vida


A que, visível, se interrompe
na palma da máo, decisiva:
a ultrapassagem do horizonte
pelo lado avesso da escrita.


À Linha do Universo


A que, invisível, se deleita
no olho sensual da fechadura:
a letra (aleph) e seu pentelho
no espaço-tempo que se enruga.

E, anjo ou demônio, pinta o sete
mas tão relativo e medroso
que o tom azul logo se perde
na linha de fundo do esboço.


À Linha-d’água


Visível enquanto invisível,
compõe seu ritmo avergoado:
a imagem se imprime no nível
do que está deste e do outro lado.

Por sob a carga o sonho e o medo
de haver perdido e haver ganhado:
no contrabando do segredo
o contrapeso do sagrado.

E o que ficou quase perdido
(o que me deixa envergonhado)
ainda viaja sem sentido,
meio à deriva,
xxxxxxxxxxxe bem calado.


Rio, 1986.

Gilberto Mendonça Teles


Locus Amoenus


Sou homem do mato e meio bugre:
falo pouco e penso enviesado,
usando sempre expressões populares.
E, por gostar de fazer arte,
ando morto de amor,
mas vivinho da sílvia.

Às vezes sou até meio exibido:
mato a cobra e mostro logo o pau,
enquanto os deuses brincam
no lugar mais ameno da floresta.

Daí talvez o meu gosto e inclinação
pelas coisas mais simples:
cheiro de flor, resina, zigue-
zague de borboleta e barulhinho
de folha seca nos trilheiros,
além do indispensável gole de cachaça
que faz muito bem depois do poema.

O que não se explica é este jeito de sombra,
este balanço do corpo nos atalhos
e este sestro de chupar a ponta da língua
e extrair a polpa de uma fruta
no meio do cerrado.

É daí que aprecio melhor
o pisco repentino de uma estrela.

Gilberto Mendonça Teles


45

A Domingos Carvalho da Silva


Sou da geração
de quarenta e cinco
ou tenho na mão
a porta sem trinco?


(Nem sei quantas são
as telhas de zinco
que cobrem meu chão
de quarenta e cinco.)


Semeei meu grão?
fui ao fim do afinco?
pesquei a paixão
de quarenta e cinco?


Tudo é sim e não
em quarenta e cinco.
E a melhor lição
forma sempre um vinco


de interrogação
no tempo, onde brinco
procurando um vão
entre o 4 e o 5.



Gilberto Mendonça Teles





EU TE ESPERO



Eu sempre te esperei.
Eu sempre te esperei em uma nuvem de neve
tão diáfana e sutil, tão vaporosa e leve
e, num halo de luz, vinda de onde não sei,
Eu sempre te esperei.
E eu sei que tu virás.
E eu sei que tu virás num sonho alucinado,
na brancura de paz de um silêncio ondulado
e, suave como um luar de finos tafetás,
eu sei que tu virás.
E nem sei quando vens.
E nem sei quando vens. O tempo é um hiato.
Só o amor é verdade, e tudo o mais, abstrato.
Só o amor é que encerra o supremo dos bens,
e nem sei quando vens.
Mas te espero feliz.
Mas te espero feliz e entre anseios te aguardo.
Hás de chegar um dia e nessa espera eu ardo.
Sempre, por toda a vida (é minha alma que o diz)
Te esperarei feliz.


Gilberto Mendonça Teles
(HORA ABERTA - poemas reunidos - Ed. Vozes, 2003)

DO LIVRO POEMAS REUNIDOS

Madrugada 


Ainda há estrelas no céu, tremelicando, tontas,
e a manhã já vem vindo, indolente e indecisa,
até que o passaredo o concerto organiza
para esperar-te, ó sol, que dos longes despontas.

Um rego d'água corre e um vento brando alisa
as franças do capim ridente,em cujas pontas
o orvalho da manhã esplende como as contas
de explêndido cristal que o sol, beijando , irisa.

As aves cantam numa alegria incontida;
a terra cheia, ri-se o capinzal molhado;
e toda a natureza é um hálito de vida.

E de há muito que está o caboclo de pé,
olhando, preguiçoso, e no sonho abismado,
a fumaça a subir do rancho de sapé.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



Simplicidade

Tudo é tão simples nesta vida e fica
às vezes tão confuso ou tão bisonho
que a linguagem das coisas se duplica
ante os olhos atônitos de sonho.
E essa simplicidade, clara e rica
de sensações indefiníveis, ponho
no pensamento real que frutifica
na ambiguidade em que me decomponho.
Mas o cenário vai mudando. E a vida 
se lança calma e convenientemente
na foz do tempo. E eu continuo , a esmo,
minha jornada interrompida,
procurando o horizonte inexistente
na planície impossível de mim mesmo.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

IV

Há na espera um prenúncio de incerteza
sobre a alegria que não sei mais terna.
Tudo me leva a ti, e eu sigo mesmo
tocando estrelas cada vez mais perto.

Não desconheço a exatidão da noite
nem o horizonte que te ausenta sempre.
Um dia acordarei para teu corpo
e só ternura de palavras entre

os teus cabelos te direi, de encanto.
Minha linguagem rútila terá
a eternidade que terei, cantando.

E tudo o mais será como o silêncio
pesando sobre a noite, a noite e o campo,
e o campo que não mais se esquecerá.


Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


MELODIAS


Ternas melodias de longínquas plagas,
nas manhãs da vida fascinando a gente,
sois o desafio de revoltas vagas
pela alma ecoando como um som ausente.

Ternas melodias, de que mundo ignoto,
de que estranhas terras vindes me encontrar?
Sois a transparência que no sonho noto?
Sois a ressonância do poema, no ar?

Ou vindes dos astros - de uma Sírius? Vênus?
De que firmamento, de que céus surgistes?
Quérulos gemidos de amarguras plenos
só podem ser ecos de meus sonhos tristes.

Essas melodias cheias de tristeza
são talvez saudades que em meu peito eu tinha;
são as confidências dessa natureza
de milhares de almas que possuo na minha

Essas melodias que a minh'alma douram ,
que a meus sonhos beijam com tamanho ardor,
essas melodias tão sonoras foram
de remotos tempos vibrações de amor.


Gilberto M. Teles
Im Poemas Reunidos



HINO AO SONO


À noite, quando sinto o meu corpo sentindo
a fadiga, o cansaço e o tédio do trabalho,
tu vens, ó sono bom, vens lentamente vindo
enrolar-me na lã do teu fluido agasalho.

E, como uma flor branca embebida de orvalho,
a suave languidez de tua alma se diluindo
cobre todo o meu ser e no teu ser me espalho
como um som que se escuta a ampliar-se, sumindo...

Em ti, como num mar distante, cujas águas
refletissem a dor , as tristezas e as mágoas
de quem de cedo tivesse o desprezo da sorte,

todo o meu ser se abisma, ansioso, e se evapora!
Porque tu és, ó sono, essa essência sonora
tranquilizante a vida poetizando a morte.


Gilberto M.Teles
In Poemas Reunidos


POEMA


De ti me vem esta alegria pura,
singela como o som de flauta rústica,
irradiante como o sol
na manhã rumorosa,
cheia de orvalhos,
cheia de pássaros,
cheia de luz
e da ansiedade imensa
de completar
o amor!

De ti me vem esta alegria silenciosa
e inexplicável de saber que vivo
na cadência feliz da sintonia
universal dos elementos.
De ti me vem
o sussuro das vozes sonorosas
e a linguagem inefável
deste amor.

De ti me vem esta alegria
de ser livre e de estar sozinho te esperando
nalgumas dessas ilhas afastadas,
perdidas no Pacífico do Sonho.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos

CANTIGA I

Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda 
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda.

Há tanto silêncio,
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavravida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
-Alguém docemente
pensará na vida.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos


CANTIGA III


Soprei na esquina do vento
a condição do meu canto:
- "Que os homens todos me entendam!"
Mas, como um rio em silêncio,
fui-me no tempo ocultando.

Era preciso, e falei.
Gritei as minhas palavras.
Tinha esperança, e de lei.
E hoje, cansado, nem sei
se alguém, de longe, escutava.

Surpreendo agora na curva
repentina do planalto
a noite que vem na chuva
de uma tristeza tão muda
que nem sei mais o que faço.


Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos


HINO À NOITE

Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei contigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos







do livro PLURAL DE NUVENS



LUDUS


Tolle, lege. 
Santo Agostinho

Toma a palavra, e principia. Tudo 
tem um pouco de ti: um sol, um sema. 
No fundo, teu desejo:
............................. lodo e ludo, 
jogo de truque e blefe de poema.

Toma este livro, toma e lê (ou lege);
não só um tomo, a obra inteira soma 
à solidão maior que te protege 
como um corpo de baile no idioma.

E toma ao pé da letra o que combina 
com teu gosto e prazer:
............................. o cimo, a suma 
de todos os sabores,
............................. vitamina, 
quintessência final de coisa alguma.

Gilberto Mendonça Teles
In 'Plural de Nuvens’(1990)


AQUI E AGORA


Procuro o aqui e o agora, 
o agoraqui, o que já foi 
e continua: a cor de outrora 
no couro curtido de um boi.

Procuro o que está sendo, 
o que se acende, o que se apaga,
o acontecido acontecendo, 
sombra de peixe fora d'água.

Procuro o que figura
no que perdi te procurando,
o que se gastou na usura
do que me vem de vez em quando.

Procuro o que projeto 
além de mim, no que me sobra: 
talvez a sombra de um inseto 
na plantação da minha obra.

Procuro o procurar-te, 
o que sempre fiz e não sei. 
Talvez o aqui e o agora, a parte 
do que ficou fora da lei.

Gilberto Mendonça Teles
In ‘Plural de Nuvens’(1990)



PLURAL DE NUVENS


Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.

Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


SIGNO

Ainda existe a rosa nos cabelos 
vermelhos da poesia.


Ainda há força 
no azul do seu mistério, no seu canto,
no eixo de sua aérea encruzilhada.


Ainda, a sua origem, seu mais íntimo
silêncio: o veludoso ardor das pétalas,
o aroma das amoras no políndromo,
das palavras de aladas peripécias.


Ainda, esta morada, o seu precioso
espaço interior, o alumbramento
da forma em desatino, a descontínua 
perspectiva do ser na travessia.


Ainda, a sua angústia, o novo tempo
se exaurindo nas coisas, lapidando
os favos da romã e consumindo
seu avesso de fogo e sutilezas.


E ainda a sua imagem:
lago, espelho,
alma e corpo submerso, o indelével
estribilho do amor e seu disfarce,
e seus pontos de cruz na superfície.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural de Nuvens















CANTIGA



Se vives dentro da noite
como uma estrela , a brilhar,
eu vou pela noite a dentro
no meu silêncio, a sonhar.

(Alguém haverá que impeça
um sonhador de sonhar?
E essas palavras comuns,
não são também para usar?)

Estendo as mãos: a distância
se interpõe.Fico a pensar:
por que as estrelas são tantas?
Por que não posso voar?

Gilberto Mendonça Teles
In 'Poemas'