Seja bem-vindo. Hoje é

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

''2''


A flor abriu nos caminhos do abismo.

Mãos desfeitas colheram-na
nos caminhos do abismo,
e as pétalas inocentes não murcharam.

A flor azul abriu no deserto silente.

Mãos crispadas colheram-na
no deserto silente
e as pétalas virginais não se crestaram.

A flor azul abriu no píncaro alto e puro.

Mãos sagradas colheram-na
no píncaro alto e puro,
e as pétalas miraculosas não tombaram.

E nos caminhos tristes,
no deserto,
no píncaro,

os Poetas cantaram. . .


Tasso da Silveira
In: Puro Canto

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

'LIBERTAÇÃO'


Nossos desejos se purificaram e o nosso pensamento foi subindo, ascendendo, serenando...
Nossas paixões se altearam
como o vento, que, depois de varrer o pó do chão,
para as estrelas trêmulas se eleva,

e, mais alto que a sombra, além da treva,


fica ressoando,


longe e livre, na ignota solidão...



Tasso da Silveira


(SILVEIRA In MURICY, 1936, p. 167-168)
.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

'Primavera'


Ouro flutuando
pelos ramos desfolhados
nos ipês floridos.

Delores Pires

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"O Vento e Eu"



O vento morria de tédio
porque apenas gostava de cantar
mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
tão comprida como a minha vida
e com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
e fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso,
me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!

Mário Quintana

sábado, 15 de setembro de 2012

"As horas desfeitas"

Das horas, que é feito,
que é feito do encanto
da musica dos dias
do teu canto
de puras harmonias?
Longe de nós o pranto
o peito não nos vinha
triste magoar.
Rumoroso era o espanto
que sentíamos de amar.
De amarmo-nos sem cessar.
Das horas, que é feito?
Hoje tudo desfeito
foi-se em fumo e vento e sombra
e turvo mar.

Natal, RN, 03/06/1984.


Luiz Rabelo
In: Poemas

"POESIA"


Tudo, para ser poesia,
precisa de sentimento,
ser pensamento que cria,
indo além do pensamento.

Ser força que se irradia,
ser ideia e sofrimento,
ser contrario à noite e ao dia,
ser igual ao som do vento.

Ser o chão, ser a escalada,
ser a essência do lamento
uma dor que do alto cai...

Ser tudo não sendo nada,
nada mais que o desalento
de um soluço que se esvai...

Natal, RN, 16/07/1986



Luiz Rabelo
In: Poemas

terça-feira, 21 de agosto de 2012

UM POEMA DENISON MENDES


A palavra bebeu demais, doces licores, perdeu o sentido, fez um striptease. Mais tarde, envergonhada, não soube o que dizer.

Denison Mendes

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"A NOITE"


Um vento fresco e suave entre os pinhais murmura;
A Noite, aos ombros solta a desgrenhada coma,
No seu plaustro de crepe, entre as nuvens assoma ...
Tornam-se o campo e o céu de uma cor mais escura.

Um novo aspecto em tudo. um novo e bom aroma
De látiros exala a amplíssima verdura.
Num hausto longo, a Noite, aos ares a frescura
Doce, entreabrindo a flor dos negros lábios, toma ...

Por vales e rechãs caminha, passo a passo,
Atento o ouvido, à escuta ... E no seu plaustro enorme
Cujo rumor desperta a placidez do espaço,

À encantada região das estrelas se eleva ...
E, ao ver que dorme o espaço e o mundo inteiro dorme,
Volve, quieta, de novo, à habitação da treva.


Francisca Júlia
in Poesias

''HORAS INTERMINÁVEIS''



. . . sem consciência de poemas com janelas
de arvores que lhes arrancaram seus frutos
de flor que mentiu sua cor
de rio que perdeu seu curso sem avisos
de vozes que se sufocaram na choupana dos deuses
de exércitos que se perderam sem fronteiras de vitórias
de crucificações nas almas já sepultadas
de paredes a amordaçarem esperanças-verdes
de queixas sobre versos não falantes dos infinitos buscas.


de todas as horas sem inteligência
para dizerem da religião dos afogados
dos afogados sem amor.


de todas as horas
a clamarem pelo universo de todos os tristes
quando desejam
comungar intenções Deus.



Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

terça-feira, 31 de julho de 2012

'VIDA, VIDA'

(Tela de Alessandra Placucci)


A vida
está
na pétala
colorida,
da flor,
no sorriso
ingênuo
das crianças
que brincam,
correm,
pulam,
nos passantes
que andam
lá fora,
no homem
que trabalha
arduamente
para
o sustento
do lar,
no rosto
cansado
das pessoas
que carregam
o peso
do sofrimento,
e,
sobretudo,
no AMOR!


Delores Pires
In: A Estrela e a Busca

'ESPELHOS'


Bendito amor! Jardim, pomar, eden, garimpo,
de nossa vida, irmã!

Oh! cada qual de nós é um cristal limpo
que espelha um outro, irmã!

Claros espelhos frente a frente duplicando
a luz de uma feérica manhã -
as almas vão o amor recíproco aumentando.
É assim que fulge - é assim que cresce o lume brando
do sonho nosso, irmã!


Murilo Araujo,
in "Carrilhões" (1917)

terça-feira, 24 de julho de 2012

'MOMENTO'


Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silencio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!


A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das arvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!


Todas as coisas – em clausura – cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.

Rio, 9/9/87

Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados

''Para nada''


Estou de passagem:
olho a vida de uma janela
que amanhã estará fechada.
Não sabemos para que.
Talvez também
para nada.

Natal, RN, 22/06/1986


Luiz Rabelo
In: Poemas

'O poeta e a Prece'

(Pôr-do-sol em Colatina, ES, cidade do autor do poema)


A oração do poeta é a poesia
Pela qual ele vive e se extasia,
É o seu pensamento preferido.
A rima da musica do verso,
Com a métrica vai ao universo,
A tônica, o ritmo querido.

Só depois da poesia já pronta,
Ele festeja e logo se apronta,
Alegre, vai seu verso declamar.
E assim, recitando os versos seus,
Com respeito envia a prece a Deus,
Na mais bela maneira de amar.



Francisco Hilário Waichert
In: Poesias Pôr do Sol

quarta-feira, 11 de julho de 2012

METÁFORA


Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves .
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem .
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo .

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero .)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago : a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

''2''


A flor abriu nos caminhos do abismo.

Mãos desfeitas colheram-na
nos caminhos do abismo,
e as pétalas inocentes não murcharam.

A flor azul abriu no deserto silente.

Mãos crispadas colheram-na
no deserto silente
e as pétalas virginais não se crestaram.

A flor azul abriu no píncaro alto e puro.

Mãos sagradas colheram-na
no píncaro alto e puro,
e as pétalas miraculosas não tombaram.

E nos caminhos tristes,
no deserto,
no píncaro,

os Poetas cantaram. . .


Tasso da Silveira
In: Puro Canto

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

'LIBERTAÇÃO'


Nossos desejos se purificaram e o nosso pensamento foi subindo, ascendendo, serenando...
Nossas paixões se altearam
como o vento, que, depois de varrer o pó do chão,
para as estrelas trêmulas se eleva,

e, mais alto que a sombra, além da treva,


fica ressoando,


longe e livre, na ignota solidão...



Tasso da Silveira


(SILVEIRA In MURICY, 1936, p. 167-168)
.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

'Primavera'


Ouro flutuando
pelos ramos desfolhados
nos ipês floridos.

Delores Pires

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"O Vento e Eu"



O vento morria de tédio
porque apenas gostava de cantar
mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
tão comprida como a minha vida
e com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
e fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso,
me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!

Mário Quintana

sábado, 15 de setembro de 2012

"As horas desfeitas"

Das horas, que é feito,
que é feito do encanto
da musica dos dias
do teu canto
de puras harmonias?
Longe de nós o pranto
o peito não nos vinha
triste magoar.
Rumoroso era o espanto
que sentíamos de amar.
De amarmo-nos sem cessar.
Das horas, que é feito?
Hoje tudo desfeito
foi-se em fumo e vento e sombra
e turvo mar.

Natal, RN, 03/06/1984.


Luiz Rabelo
In: Poemas

"POESIA"


Tudo, para ser poesia,
precisa de sentimento,
ser pensamento que cria,
indo além do pensamento.

Ser força que se irradia,
ser ideia e sofrimento,
ser contrario à noite e ao dia,
ser igual ao som do vento.

Ser o chão, ser a escalada,
ser a essência do lamento
uma dor que do alto cai...

Ser tudo não sendo nada,
nada mais que o desalento
de um soluço que se esvai...

Natal, RN, 16/07/1986



Luiz Rabelo
In: Poemas

terça-feira, 21 de agosto de 2012

UM POEMA DENISON MENDES


A palavra bebeu demais, doces licores, perdeu o sentido, fez um striptease. Mais tarde, envergonhada, não soube o que dizer.

Denison Mendes

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"A NOITE"


Um vento fresco e suave entre os pinhais murmura;
A Noite, aos ombros solta a desgrenhada coma,
No seu plaustro de crepe, entre as nuvens assoma ...
Tornam-se o campo e o céu de uma cor mais escura.

Um novo aspecto em tudo. um novo e bom aroma
De látiros exala a amplíssima verdura.
Num hausto longo, a Noite, aos ares a frescura
Doce, entreabrindo a flor dos negros lábios, toma ...

Por vales e rechãs caminha, passo a passo,
Atento o ouvido, à escuta ... E no seu plaustro enorme
Cujo rumor desperta a placidez do espaço,

À encantada região das estrelas se eleva ...
E, ao ver que dorme o espaço e o mundo inteiro dorme,
Volve, quieta, de novo, à habitação da treva.


Francisca Júlia
in Poesias

''HORAS INTERMINÁVEIS''



. . . sem consciência de poemas com janelas
de arvores que lhes arrancaram seus frutos
de flor que mentiu sua cor
de rio que perdeu seu curso sem avisos
de vozes que se sufocaram na choupana dos deuses
de exércitos que se perderam sem fronteiras de vitórias
de crucificações nas almas já sepultadas
de paredes a amordaçarem esperanças-verdes
de queixas sobre versos não falantes dos infinitos buscas.


de todas as horas sem inteligência
para dizerem da religião dos afogados
dos afogados sem amor.


de todas as horas
a clamarem pelo universo de todos os tristes
quando desejam
comungar intenções Deus.



Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

terça-feira, 31 de julho de 2012

'VIDA, VIDA'

(Tela de Alessandra Placucci)


A vida
está
na pétala
colorida,
da flor,
no sorriso
ingênuo
das crianças
que brincam,
correm,
pulam,
nos passantes
que andam
lá fora,
no homem
que trabalha
arduamente
para
o sustento
do lar,
no rosto
cansado
das pessoas
que carregam
o peso
do sofrimento,
e,
sobretudo,
no AMOR!


Delores Pires
In: A Estrela e a Busca

'ESPELHOS'


Bendito amor! Jardim, pomar, eden, garimpo,
de nossa vida, irmã!

Oh! cada qual de nós é um cristal limpo
que espelha um outro, irmã!

Claros espelhos frente a frente duplicando
a luz de uma feérica manhã -
as almas vão o amor recíproco aumentando.
É assim que fulge - é assim que cresce o lume brando
do sonho nosso, irmã!


Murilo Araujo,
in "Carrilhões" (1917)

terça-feira, 24 de julho de 2012

'MOMENTO'


Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silencio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!


A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das arvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!


Todas as coisas – em clausura – cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.

Rio, 9/9/87

Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados

''Para nada''


Estou de passagem:
olho a vida de uma janela
que amanhã estará fechada.
Não sabemos para que.
Talvez também
para nada.

Natal, RN, 22/06/1986


Luiz Rabelo
In: Poemas

'O poeta e a Prece'

(Pôr-do-sol em Colatina, ES, cidade do autor do poema)


A oração do poeta é a poesia
Pela qual ele vive e se extasia,
É o seu pensamento preferido.
A rima da musica do verso,
Com a métrica vai ao universo,
A tônica, o ritmo querido.

Só depois da poesia já pronta,
Ele festeja e logo se apronta,
Alegre, vai seu verso declamar.
E assim, recitando os versos seus,
Com respeito envia a prece a Deus,
Na mais bela maneira de amar.



Francisco Hilário Waichert
In: Poesias Pôr do Sol

quarta-feira, 11 de julho de 2012

METÁFORA


Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves .
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem .
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo .

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero .)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago : a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella