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terça-feira, 24 de julho de 2012

''Para nada''


Estou de passagem:
olho a vida de uma janela
que amanhã estará fechada.
Não sabemos para que.
Talvez também
para nada.

Natal, RN, 22/06/1986


Luiz Rabelo
In: Poemas

'O poeta e a Prece'

(Pôr-do-sol em Colatina, ES, cidade do autor do poema)


A oração do poeta é a poesia
Pela qual ele vive e se extasia,
É o seu pensamento preferido.
A rima da musica do verso,
Com a métrica vai ao universo,
A tônica, o ritmo querido.

Só depois da poesia já pronta,
Ele festeja e logo se apronta,
Alegre, vai seu verso declamar.
E assim, recitando os versos seus,
Com respeito envia a prece a Deus,
Na mais bela maneira de amar.



Francisco Hilário Waichert
In: Poesias Pôr do Sol

quarta-feira, 11 de julho de 2012

METÁFORA


Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves .
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem .
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo .

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero .)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago : a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella

quinta-feira, 28 de junho de 2012

'O Nunca Mais não é verdade.'


O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tampo não
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planícies e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

Hilda Hilst
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)

terça-feira, 29 de maio de 2012

''INVENTÁRIO''


Permitirei ao rosto
que se dispa, em silêncio,
das usuras do tempo:
à linha do lábio
legarei a memória do beijo;
à curva da mão
o gesto simples do afagar;
aos olhos, que buscaram,
a maciez do orvalho.

E ao corpo, que adocicou
com seu louco mistério
a vida dos dias perdidos,
doarei chaves de solidão.

Ymah Théres

''Ritual''

Despida de aromas
e de seu íntimo segredo
cabe à flor a renúncia de suas sépalas.
Vai fanando devagar
na tarde que o verão queima:
não há gota d’água que a abençoe
a flor é um sonho murcho
Mas a brisa percorreu seus contornos
a abelha levou-lhe o pólen de seu amor.
Certo é que mais dia menos dia
há de haver outro jardim.

(Ymah Théres)

(THÉRES, 1991, p. 46)

''Poemeto''


Vejo é a rosa
mas há o espinho
mesmo que o toque
seja fortuito mesmo
que o jardim repouse
vejo a rosa
mas há é o espinho.

(Ymah Théres)
(THÉRES, 1991, p. 45)

Imaculada Therezinha Miranda Ribeiro, conhecida como Ymah Théres,
Nascida em Lima Duarte, no ano de 1939, Ymah formou-se em jornalismo pela antiga Faculdade de Filosofia e Letras – Fafile (UFJF) e viveu em Juiz de Fora, onde faleceu em 2008, aos 69 anos. Durante mais de 30 anos, colaborou como articulista em inúmeros periódicos mineiros. Membro titular e fundadora da Academia Juizforana de Letras, a poetisa teve seu talento reconhecido por meio de inúmeras premiações e menções honrosas recebidas em concursos literários.

domingo, 27 de maio de 2012

''DO MUNDO''


Vão, que já não são meus
os filhos, os versos, a história.

Comigo não ficam meus passos
nem o desenho do corpo.


Vão os que do mundo vieram:
as folhas, os porres, os cansaços.


Se depositamos guirlandas e lágrimas
aos pés deste deus, nossos tesouros
já não ficam ensimesmados.


Vão, pois, esvaziem-se nossos barcos
por tamanha generosa partida.


E para tantos outros encontros
solte-se a órbita do peito no espaço.

(Fernando Campanella)

domingo, 13 de maio de 2012

ALGUMA COISA


Alguma coisa fica
do caminhar contínuo
e deste sono.
Alguma folha fica
da primavera
no outono.
Algum fruto, algum gesto, alguma voz.
Alguma coisa frutifica.
E fica em nós.

Renata Pallottini

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pouca Fala



  Como é fácil dizer. É abrir a boca
e deixar que se livre, como um rio
perdido de si mesmo, o desvairio.
Aprendi: toda vez que deixo a boca
entregar-se à aventura da verdade,
não demora e a traição da liberdade
me devolve a palavra desalada.
O tempo é o do fazer silencioso,
e um pouco de canção, brasa que o azul
do sonho que trabalha vai lavrando.
Com a terra que abriga e dá caminho
a um sonho de semente que não sabe
que abre um rastro de luz na escuridão.

Thiago de Mello
In: Poesia Comprometida Com a Minha e a Tua Vida

quarta-feira, 18 de abril de 2012

'O Paradoxo dos Sentidos'


A distância nos aproxima.
A ausência traz tua presença.
Quando não te vejo mais te percebo.
No silêncio a sós ouço tua voz.
Na solidão ando contigo em pensamento pela mão.
Enxergo claro a noite através da escuridão.
No antagonismo da adversidade
mostra-se os sentidos e a autenticidade.
Será sempre assim?
Precisaremos do oposto em nosso posto.
Do amargo para lembrar o doce do gosto.
Indeléveis marcas da vida são os reversos.
Que muitas vezes só entendemos nos versos.

Jorge Cabral
(Porto alegre- RS)

Metamorfose


As borboletas são as flores
que, enfim, conseguiram voar,
mas vivem a rondar as plantas
como quem ronda o antigo lar;


há sempre, pelo ar, um jardim
de rosa múltipla e jasmim,


e há, talvez, a vontade enorme
em tudo de perder seu peso,
ter a leveza de quem dorme,


ser a lembrança no abandono,
ou luz de estrela se apagando.


Alberto da Cunha Melo
In: Dois caminhos e uma oração

"A GENTE NUNCA ESTA SÓ"


A gente nunca está só.
Ou se está com uma saudade
De um sonho desfeito em pó;
Ou se está com uma esperança
De nova felicidade
No coração que não cansa. . .


Sempre uma sombra com a gente,
Constantemente,
Uma sombra. . . Boa. . . ou má. . .
Só é que nunca se está.

Adelmar Tavares
In: Poesias Escolhidas


***********

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti
(Recife, 16 de fevereiro de 1888 — Rio de Janeiro, 20 de junho de 1963)
foi um advogado, professor, jurista, magistrado e poeta brasileiro. Ocupou a cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras, onde foi eleito em 25 de março de 1926. Era considerado o

segunda-feira, 19 de março de 2012

'Relógio do Rosário'


Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 11 de março de 2012

"CERCANIAS"


Há um prazo certo
um tempo justo
para olhar este mundo
— de relance.

Num abrir e fechar de olhos,
vão-se as paisagens
cercanias e miragens
— última chance.

Lenilde Freitas

terça-feira, 24 de julho de 2012

''Para nada''


Estou de passagem:
olho a vida de uma janela
que amanhã estará fechada.
Não sabemos para que.
Talvez também
para nada.

Natal, RN, 22/06/1986


Luiz Rabelo
In: Poemas

'O poeta e a Prece'

(Pôr-do-sol em Colatina, ES, cidade do autor do poema)


A oração do poeta é a poesia
Pela qual ele vive e se extasia,
É o seu pensamento preferido.
A rima da musica do verso,
Com a métrica vai ao universo,
A tônica, o ritmo querido.

Só depois da poesia já pronta,
Ele festeja e logo se apronta,
Alegre, vai seu verso declamar.
E assim, recitando os versos seus,
Com respeito envia a prece a Deus,
Na mais bela maneira de amar.



Francisco Hilário Waichert
In: Poesias Pôr do Sol

quarta-feira, 11 de julho de 2012

METÁFORA


Já não tento reter do dia
a luz que por exata concede
a chama alquímica dos amantes
a doçura de pétalas breves .
O tempo tem o galope das fúrias
ventos que jamais enternecem .
Melhor correr da memória o labirinto
drenar os aquíferos fundos
e aguardar: tudo vai escapando
o que restar será na noite
a forma intáctil, o espectro redivivo .

(Mais no mundo me tardo
mais no comando de sombras me esmero .)

Deus conceda que me baste
este último apelo de náufrago : a metáfora,
pétala incorpórea com que me visto.

Fernando Campanella

quinta-feira, 28 de junho de 2012

'O Nunca Mais não é verdade.'


O Nunca Mais não é verdade.
Há ilusões e assomos, há repentes
De perpetuar a Duração.
O Nunca Mais é só meia-verdade:
Como se visses a ave entre a folhagem
E ao mesmo tampo não
(E antevisses
Contentamento e morte na paisagem).

O Nunca Mais é de planícies e fendas.
É de abismos e arroios.
É de perpetuidade no que pensas efêmero
E breve e pequenino
No que sentes eterno.

Nem é corvo ou poema o Nunca Mais.

Hilda Hilst
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)

terça-feira, 29 de maio de 2012

''INVENTÁRIO''


Permitirei ao rosto
que se dispa, em silêncio,
das usuras do tempo:
à linha do lábio
legarei a memória do beijo;
à curva da mão
o gesto simples do afagar;
aos olhos, que buscaram,
a maciez do orvalho.

E ao corpo, que adocicou
com seu louco mistério
a vida dos dias perdidos,
doarei chaves de solidão.

Ymah Théres

''Ritual''

Despida de aromas
e de seu íntimo segredo
cabe à flor a renúncia de suas sépalas.
Vai fanando devagar
na tarde que o verão queima:
não há gota d’água que a abençoe
a flor é um sonho murcho
Mas a brisa percorreu seus contornos
a abelha levou-lhe o pólen de seu amor.
Certo é que mais dia menos dia
há de haver outro jardim.

(Ymah Théres)

(THÉRES, 1991, p. 46)

''Poemeto''


Vejo é a rosa
mas há o espinho
mesmo que o toque
seja fortuito mesmo
que o jardim repouse
vejo a rosa
mas há é o espinho.

(Ymah Théres)
(THÉRES, 1991, p. 45)

Imaculada Therezinha Miranda Ribeiro, conhecida como Ymah Théres,
Nascida em Lima Duarte, no ano de 1939, Ymah formou-se em jornalismo pela antiga Faculdade de Filosofia e Letras – Fafile (UFJF) e viveu em Juiz de Fora, onde faleceu em 2008, aos 69 anos. Durante mais de 30 anos, colaborou como articulista em inúmeros periódicos mineiros. Membro titular e fundadora da Academia Juizforana de Letras, a poetisa teve seu talento reconhecido por meio de inúmeras premiações e menções honrosas recebidas em concursos literários.

domingo, 27 de maio de 2012

''DO MUNDO''


Vão, que já não são meus
os filhos, os versos, a história.

Comigo não ficam meus passos
nem o desenho do corpo.


Vão os que do mundo vieram:
as folhas, os porres, os cansaços.


Se depositamos guirlandas e lágrimas
aos pés deste deus, nossos tesouros
já não ficam ensimesmados.


Vão, pois, esvaziem-se nossos barcos
por tamanha generosa partida.


E para tantos outros encontros
solte-se a órbita do peito no espaço.

(Fernando Campanella)

domingo, 13 de maio de 2012

ALGUMA COISA


Alguma coisa fica
do caminhar contínuo
e deste sono.
Alguma folha fica
da primavera
no outono.
Algum fruto, algum gesto, alguma voz.
Alguma coisa frutifica.
E fica em nós.

Renata Pallottini

terça-feira, 1 de maio de 2012

Pouca Fala



  Como é fácil dizer. É abrir a boca
e deixar que se livre, como um rio
perdido de si mesmo, o desvairio.
Aprendi: toda vez que deixo a boca
entregar-se à aventura da verdade,
não demora e a traição da liberdade
me devolve a palavra desalada.
O tempo é o do fazer silencioso,
e um pouco de canção, brasa que o azul
do sonho que trabalha vai lavrando.
Com a terra que abriga e dá caminho
a um sonho de semente que não sabe
que abre um rastro de luz na escuridão.

Thiago de Mello
In: Poesia Comprometida Com a Minha e a Tua Vida

quarta-feira, 18 de abril de 2012

'O Paradoxo dos Sentidos'


A distância nos aproxima.
A ausência traz tua presença.
Quando não te vejo mais te percebo.
No silêncio a sós ouço tua voz.
Na solidão ando contigo em pensamento pela mão.
Enxergo claro a noite através da escuridão.
No antagonismo da adversidade
mostra-se os sentidos e a autenticidade.
Será sempre assim?
Precisaremos do oposto em nosso posto.
Do amargo para lembrar o doce do gosto.
Indeléveis marcas da vida são os reversos.
Que muitas vezes só entendemos nos versos.

Jorge Cabral
(Porto alegre- RS)

Metamorfose


As borboletas são as flores
que, enfim, conseguiram voar,
mas vivem a rondar as plantas
como quem ronda o antigo lar;


há sempre, pelo ar, um jardim
de rosa múltipla e jasmim,


e há, talvez, a vontade enorme
em tudo de perder seu peso,
ter a leveza de quem dorme,


ser a lembrança no abandono,
ou luz de estrela se apagando.


Alberto da Cunha Melo
In: Dois caminhos e uma oração

"A GENTE NUNCA ESTA SÓ"


A gente nunca está só.
Ou se está com uma saudade
De um sonho desfeito em pó;
Ou se está com uma esperança
De nova felicidade
No coração que não cansa. . .


Sempre uma sombra com a gente,
Constantemente,
Uma sombra. . . Boa. . . ou má. . .
Só é que nunca se está.

Adelmar Tavares
In: Poesias Escolhidas


***********

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti
(Recife, 16 de fevereiro de 1888 — Rio de Janeiro, 20 de junho de 1963)
foi um advogado, professor, jurista, magistrado e poeta brasileiro. Ocupou a cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras, onde foi eleito em 25 de março de 1926. Era considerado o

segunda-feira, 19 de março de 2012

'Relógio do Rosário'


Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 11 de março de 2012

"CERCANIAS"


Há um prazo certo
um tempo justo
para olhar este mundo
— de relance.

Num abrir e fechar de olhos,
vão-se as paisagens
cercanias e miragens
— última chance.

Lenilde Freitas