segunda-feira, 19 de março de 2012
'Relógio do Rosário'
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
Carlos Drummond de Andrade
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Carlos Drummond de Andrade
domingo, 11 de março de 2012
"CERCANIAS"
Há um prazo certo
um tempo justo
para olhar este mundo
— de relance.
Num abrir e fechar de olhos,
vão-se as paisagens
cercanias e miragens
— última chance.
Lenilde Freitas
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A GIRA DO POEMA
O poeta, abstraído, em que pensará?
(já nem respiro, só observo):
dezenas de umbigos o circundam.
Pensamentos giram alucinados ao redor de sua cabeça,
Nuvens de versos giram em torno de seu coração.
O mundo gira, a cabeça do poeta gira,
tudo gira ao Deus dará.
Como esses versos, baldios, tão frios,
todavia, espera pra ver depois dessa gira,
a doçura de poesia,
o poema ardente que se fará!
*Carmen Regina
(já nem respiro, só observo):
dezenas de umbigos o circundam.
Pensamentos giram alucinados ao redor de sua cabeça,
Nuvens de versos giram em torno de seu coração.
O mundo gira, a cabeça do poeta gira,
tudo gira ao Deus dará.
Como esses versos, baldios, tão frios,
todavia, espera pra ver depois dessa gira,
a doçura de poesia,
o poema ardente que se fará!
*Carmen Regina
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
A beleza, não raro, ,
precisa ser observada a uma certa distância
(das emoções humanas comezinhas
e dos ruídos interiores)
e a uma certa altura
(do mirante dos patamares da sabedoria e da inocência)
para ser percebida
em sua toda extensão e magnificência
até então inimaginadas.
Abraços do mini cais
Carmen Regina
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
SÓ ME RESTA CANTAR
(Tela de Edmund Greacen)
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
Recebido de minha querida amiga Dione Coppi.
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
Recebido de minha querida amiga Dione Coppi.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
'FILOSOFANDO'
'FILOSOFANDO'
- Interessante!... Aquele passarinho
que pelo espaço imenso, incerto, adeja,
não tem nada
porque nada deseja,
e no entanto tem tudo:
- a terra verde é sua...
- o céu azul é seu...
- interessante!... Aquele passarinho
tem muito mais do que eu
J.G.de Araújo Jorge
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
VESPERAL
Dentro do véu da tarde silenciosa,
os jardins adormecem a sonhar...
Choram, sonhando, a sorte de uma rosa
que vai morrer nos braços do luar.
Dentro do véu da a tarde silenciosa,
alguém soluça, erguendo os braços no ar,
uma velha balada dolorosa
de um grande amor que ninguém soube amar...
Pela tristeza de um longínquo olhar,
dentro do véu da tarde silenciosa,
beijo uma sombra que me faz chorar.
Canta um repuxo na hora vaporosa...
Quantas flores ainda vão tombar
dentro do véu da tarde silenciosa...
Onestaldo de Pennafort
Poesia (1987)
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
'POEMAS DO VENTO'
Gastar-se no tempo
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...
Memória.
Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.
Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...
Menotti Del Picchia
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...
Memória.
Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.
Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...
Menotti Del Picchia
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
TODO DIA É MENOS UM DIA
Todo dia é menos um dia;
menos um dia para ser feliz;
é menos um dia para dar e receber;
é menos um dia para amar e ser amado;
é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar !
Sim, porque calando nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outrem a chance de pensar,
refletir, saber o que falou ou escreveu.
Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.
Mas saber calar, mais raro ainda.
E como humanos estamos sujeitos a errar.
E nosso erro mais primário, é não saber:
Ouvir e calar !
Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.
Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso
para sentir um pouco de felicidade !
Todo dia é menos um dia para dizer:
- Desculpe, eu errei !
Para dizer:
- Perdoe-me por favor, fui injusto !
Todo dia é menos um dia;
Para voltarmos sobre os nossos passos.
De repente descobrimos que estamos muito longe
E já não há mais como encontrar
onde pisamos quando íamos.
Já não conseguiremos distinguir nossos passos
de tantos outros que vieram depois dos nossos.
E se esse dia chega, por mais que voltemos;
estaremos seguindo um caminho, que jamais
nos trará ao ponto de partida.
Por isso use cada dia com sabedoria.
Ouça e cale se não se sentir bem;
Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir
interpretar melhor e saber o que quis ser dito.
Carlos Drummond de Andrade
menos um dia para ser feliz;
é menos um dia para dar e receber;
é menos um dia para amar e ser amado;
é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar !
Sim, porque calando nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outrem a chance de pensar,
refletir, saber o que falou ou escreveu.
Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.
Mas saber calar, mais raro ainda.
E como humanos estamos sujeitos a errar.
E nosso erro mais primário, é não saber:
Ouvir e calar !
Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.
Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso
para sentir um pouco de felicidade !
Todo dia é menos um dia para dizer:
- Desculpe, eu errei !
Para dizer:
- Perdoe-me por favor, fui injusto !
Todo dia é menos um dia;
Para voltarmos sobre os nossos passos.
De repente descobrimos que estamos muito longe
E já não há mais como encontrar
onde pisamos quando íamos.
Já não conseguiremos distinguir nossos passos
de tantos outros que vieram depois dos nossos.
E se esse dia chega, por mais que voltemos;
estaremos seguindo um caminho, que jamais
nos trará ao ponto de partida.
Por isso use cada dia com sabedoria.
Ouça e cale se não se sentir bem;
Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir
interpretar melhor e saber o que quis ser dito.
Carlos Drummond de Andrade
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sábado, 14 de janeiro de 2012
'' Depois de tudo''
Hoje, também é o aniversário da morte, do poeta brasileiro Cassiano Ricado.
São José dos Campos, em 26 de julho de 1895 e morreu em Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974
'Depois de tudo'
Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.
Cassiano Ricardo
************************
Representante do modernismo de tendências nacionalistas, esteve associado aos grupos Verde-Amarelo, Anta e foi o fundador do grupo da Bandeira. Pertenceu às academias paulista e brasileira de letras.
Formou-se em direito no Rio de Janeiro, em 1917. Rumando para São Paulo, trabalhou como jornalista em diversas publicações, e chegou a fundar alguns jornais. Aproximou-se de Menotti Del Picchia e Plínio Salgado, à época da Semana de Arte Moderna de 1922. Em 1924 fundou A Novíssima, revista modernista. Em 1928 publica sua grande obra, Martim Cererê, experiência modernista que se coloca lado a lado com Macunaíma (de Mário de Andrade) e Cobra Norato (de Raul Bopp).
Afastando-se das idéias de Plínio Salgado, que por essa época já começavam a descaracterizar-se com nacionais e pareciam-se mais com imitações imperfeitas de dogmas nazistas, Cassiano Ricardo funda com Menotti del Picchia o grupo da Bandeira, em 1937. Neste ano ainda foi eleito para a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras, sendo o segundo modernista aceito na instituição (o primeiro havia sido Guilherme de Almeida, que foi encarregado de recebê-lo).
Em 1950 foi eleito presidente do Clube da Poesia de São Paulo, e entre 1953 e 1954 foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris, vindo a ocupar outros cargos públicos nos anos seguintes.
Sua obra passa por diversos momentos; inicialmente apresenta-se presa ao Parnasianismo e ao Simbolismo. Com a fase modernista, explora temas nacionalistas e depois restringe-se mais, louvando a epopéia bandeirante. Por fim detém-se em temas mais intimistas, cotidianos.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Josué Guimarães
Lembrança pela passagem do aniversário, do grande escritor gaúcho, Josué Guimarães.
Josué Guimarães (RS, 1921-1986) é considerado um dos grandes escritores brasileiros do século XX, tendo deixado uma obra fundamental como romancista, jornalista e autor de histórias infantis e infanto-juvenis.
Josué Marques Guimarães nasceu em São Jerônimo, no Rio Grande do Sul, em 7 de janeiro de 1921.
No ano seguinte sua família mudou-se para a cidade de Rosário do Sul, na fronteira com o Uruguai, onde seu pai, um pastor da Igreja Episcopal Brasileira, exercia as funções de telegrafista. Após a Revolução de 30 sua família foi para Porto Alegre, onde Josué Guimarães prosseguiu os estudos primários, completando o curso secundário no Ginásio Cru¬zeiro do Sul, mesma escola onde estudou o escritor Erico Verissimo. Ali funda o Grêmio Literário Humberto de Campos, participando ativamente na redação de artigos para o jornal da escola e, igualmente, na produção de textos teatrais que, a cada final de ano, passam a ser encenados na escola. Forma-se em 1938, no curso secundário (hoje ensino médio), prestando em seguida exames para a Faculdade de Medicina. Contudo, após as primeiras aulas de anatomia, sente-se "desestimulado" para dar continuidade àquela vocação. Sempre irrequieto, Josué buscou outros ares.
Em 1939 foi para o Rio de Janeiro onde, no Correio da Manhã, iniciou-se na profissão de jornalista, que exerceria até o final da sua vida. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, voltou para o Rio Grande, onde concluiu o curso de oficial da reserva, sendo designado para servir como aspirante no 7° R.C.I. em Santana do Livramento. Em 1940, aos dezenove anos de idade, casou-se com Zilda Marques. Desse matrimônio, nasceram quatro filhos: Marília, Elaine, Jaime e Sônia. Por ser casado, foi recusado como voluntário na FEB (Força Expedicionária Brasileira).
Em 1944, de volta à imprensa no Diário de Notícias, seguiu na carreira que o faria passar pelos principais jornais e revistas do país. É nesse jornal que o escritor manteve uma coluna assinada sob o pseudônimo de D. Xicote, a qual tinha por característica principal dar um tratamento irônico aos acontecimentos políticos da época. O próprio Josué se encarregava da elaboração das ilustrações, dos desenhos e das caricaturas da coluna. Mais tarde, a coluna D. Xicote reapareceu no jornal A Hora, de Porto Alegre, explorando modernos recursos gráficos e montagens fotográficas.
Trabalhou em inúmeras funções, de repórter a diretor de jornal, passando por secretário de redação, colunista, comentarista, cronista, edi¬to¬rialista, ilustrador, diagramador e repórter político. Em 1948, deixou o Diário de Notícias para exercer a função de repórter exclusivo e correspondente da revista O Cruzeiro no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Em 1949, colabora na revista Quixote nº 4, com a crônica "Sangue e Pó de Arroz". Essa publicação de Porto Alegre divulgou, por um longo período, nomes da literatura rio-grandense, renovando o cenário regional. Sempre atento aos fatos políticos, sociais e econômicos, nacionais ou internacionais, Josué criou um jornal, às próprias custas, cujo objetivo, segundo o escritor, não era ser um jornal de humor, mas igualmente não se tratava de um jornal sério, o periódico se chamava D. Xicote.
Atuou como correspondente especial no Extremo Oriente em 1952 (União Soviética e China Continental) e de 1974 a 1976 como correspondente da empresa jornalística Caldas Júnior em Portugal e África. Foi o primeiro jornalista brasileiro a ingressar na China Continental e na URSS como correspondente especial da Última Hora, do Rio de Janeiro, dirigido por Samuel Weiner. Ainda nessa época, Josué Guimarães escreveu o livro de viagem As muralhas de Jericó (L&PM).
No jornal Folha da Tarde, em 1954, o escritor lançou uma coluna que assinava com o pseudônimo D.Camilo. Nesse mesmo ano, passou a exercer as funções de subsecretário do jornal A Hora. Ali revolucionou o jornalismo gaúcho ao lado do então diagramador Xico Stockinger. Em 1956, trabalhou como redator da agência de propaganda MPM. Em meio a essa atividade, continuou, em momentos de recolhimento, com a produção de contos e crônicas. Em 1957, foi chamado por Assis Chateaubriand ao Rio de Janeiro para reestruturar o vespertino carioca Diário da Noite, órgão dos Diários Associados.
Como homem público foi chefe de gabinete de João Goulart na Secretaria de Justiça do Rio Grande, governo Ernesto Dornelles; foi vereador em Porto Alegre pela bancada do PTB, sendo eleito vice-presidente da Câmara. De 1961 até 1964 foi diretor da Agência Nacional, hoje Empresa Brasileira de Notícias, a convite do então presidente João Goulart. A partir de 1964, perseguido pelo regime autoritário, foi obrigado a escrever sob pseudônimo e a dar consultoria para empresas privadas nas áreas comercial e publicitária.
Josué Guimarães lançou-se tardiamente – aos 49 anos – no ofício que o consagraria como um dos maiores escritores do país. Seu primeiro livro foi Os Ladrões, reunindo contos, entre os quais o conto que dá nome ao livro, premiado no então importante Concurso de Contos do Paraná (este concurso promovido pelo Governo do Paraná foi, nas décadas de 60 e 70, o mais importante concurso literário do país, consagrando e lançando autores como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, João Antônio, além de muitos outros).
Em 1969, foi descoberto pelos órgãos de segurança da ditadura militar, respondendo a inquérito em liberdade. Retorna à capital gaúcha. Nesse mesmo período foi premiado no II Concurso de Contos do Estado do Paraná pelo conjunto de três contos "João do Rosário", "Mãos sujas de terra" e "O princípio e o fim", que posteriormente integrariam o livro Os ladrões. A essa época sua mulher e companheira é Nydia Moojem, com quem viveu até sua morte. Com ela teve dois filhos, Rodrigo e Adriana.
Sua obra – escrita em pouco menos de 20 anos – destaca-se como um acervo importante e fundamental. Democrata e humanista ferrenho, Josué Guimarães foi sistematicamente perseguido pela ditadura e os poderosos de plantão, mantendo uma admirável coerência que acabou por alijá-lo do meio cultural oficial. Depois de Erico Verissimo é, sem dúvida, o escritor mais importante da história recente do Rio Grande e um dos mais influentes e importantes do país. A ferro e fogo I (Tempo de Solidão) e A ferro e fogo II (Tempo de Guerra) – deixou o terceiro e último volume (Tempo de Angústia) inconcluso – são romances clássicos da literatura brasileira e sua obra-prima, as únicas obras de ficção realmente importantes que abordam a saga da colonização alemã no Brasil. A tão sonhada trilogia, que Josué não conseguiu concluir, é um romance de enorme dimensão artística, pela construção de seus personagens, emoção da trama e a dureza dos tempos que como poucos ele soube retratar com emocionante realismo. Dentro da vertente do romance histórico, Josué voltaria ao tema em Camilo Mortágua, fazendo um verdadeiro corte na sociedade gaúcha pós-rural, inaugurando uma trilha que mais tarde seria seguida por outros bons autores.
Seu livro Dona Anja foi traduzido para o espanhol e publicado pela Edivisión Editoriales, México, sob o título de Doña Angela.
Jousé Guimarães morreu no dia 23 de março de 1986.
****
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
CONTRAPONTO
— Qual no espaço exterior, no antro de nossas mentes
há momentos também de sóis deliqüescentes,
de etéreos candelabros num puro azul sem rastros!
— Somos feitos da mesma seiva de luz dos astros.
— Oh, a negra cabeça da noite rola do alto...
Sermos também lastrados de queda e sobressalto...
— O pulso que na esfera mais mínima palpita
é o mesmo que lateja na galáxia infinita.
— Mas eu sinto que o peito uma ânsia azul me invade
de ser somente luz, acima, imensidade!
Sinto que há dentro em mim um eu que me transcende!
Sobe o mar interior, e no abismo que ascende
algo vem se formando como espumas e cânticos!
— Dentro do coração somos todos românticos.
Anderson Braga Horta
O TEMPO
Espantados olhos
vasculhando a treva.
(A ignorância nossa
do mistério é ceva.)
Num lugar da noite
(ao lado ou cá dentro)
dormem o ontem, o hoje,
o amanhã e o sempre.
Onde a espada que
a armadura rompa,
onde a lança que
desmantele o escudo e
mostre as faces do
tempo simultâneas?
Anderson Braga Horta
In Fragmentos da Paixão (1971)
'Meu rastro'
Homenagem, ao poeta José Américo de Almeida, que completaria hoje
125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
******
125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
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segunda-feira, 19 de março de 2012
'Relógio do Rosário'
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
Carlos Drummond de Andrade
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domingo, 11 de março de 2012
"CERCANIAS"
Há um prazo certo
um tempo justo
para olhar este mundo
— de relance.
Num abrir e fechar de olhos,
vão-se as paisagens
cercanias e miragens
— última chance.
Lenilde Freitas
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Lenide Freitas
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A GIRA DO POEMA
O poeta, abstraído, em que pensará?
(já nem respiro, só observo):
dezenas de umbigos o circundam.
Pensamentos giram alucinados ao redor de sua cabeça,
Nuvens de versos giram em torno de seu coração.
O mundo gira, a cabeça do poeta gira,
tudo gira ao Deus dará.
Como esses versos, baldios, tão frios,
todavia, espera pra ver depois dessa gira,
a doçura de poesia,
o poema ardente que se fará!
*Carmen Regina
(já nem respiro, só observo):
dezenas de umbigos o circundam.
Pensamentos giram alucinados ao redor de sua cabeça,
Nuvens de versos giram em torno de seu coração.
O mundo gira, a cabeça do poeta gira,
tudo gira ao Deus dará.
Como esses versos, baldios, tão frios,
todavia, espera pra ver depois dessa gira,
a doçura de poesia,
o poema ardente que se fará!
*Carmen Regina
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Carmen Regina Dias
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Lá vai o espírito,
- é pura luz! -
em humanas águas deslizando
pelas corredeiras do e terno.
Aqui vou eu,
- faísca de estrela, -
em humana veste per correndo
as vias da evolução.
Carmen Regina
- é pura luz! -
em humanas águas deslizando
pelas corredeiras do e terno.
Aqui vou eu,
- faísca de estrela, -
em humana veste per correndo
as vias da evolução.
Carmen Regina
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Carmen Regina Dias
A beleza, não raro, ,
precisa ser observada a uma certa distância
(das emoções humanas comezinhas
e dos ruídos interiores)
e a uma certa altura
(do mirante dos patamares da sabedoria e da inocência)
para ser percebida
em sua toda extensão e magnificência
até então inimaginadas.
Abraços do mini cais
Carmen Regina
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Carmen Regina Dias
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
SÓ ME RESTA CANTAR
(Tela de Edmund Greacen)
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
Recebido de minha querida amiga Dione Coppi.
Por não terem noção da terra, os anjos
são - como é verde o céu - donos de tudo.
Bichos de lá e de cá são seus, e as rosas.
Mas não só os anjos que possuem tudo.
Os que amam, também, quando imaginam
que as estrelas lhes descem à altura das mãos
- bando de pássaros em oblíqua fuga -
Mas, além dos que se amam, são os loucos.
Ah, os loucos ( como esquecer os pobres loucos?)
é que possuem tudo: o mundo, os astros.
A sem razão das coisas lhes dá tudo.
E os encantados? que direi dos encantados?
Direi que o encantamento é a chave mágica
que Deus perdeu, já no sétimo dia,
é só quem, hoje, a encontra, encontra tudo.
Mas, e os suicídas? Esses, finalmente,
são os que conseguem, como alados monstros,
apagar as auroras mais tranquilas,
antes que elas se apaguem a seus olhos.
E - assim - não são, também, dono de tudo?
O universo, portanto, não é meu,
com as suas dádivas e com as suas vidas.
É dos anjos, dos loucos; é dos encantados.
Mas é - principalmente - dos suicídas.
Cassiano Ricardo
In 'A Difícil Manhã'
Recebido de minha querida amiga Dione Coppi.
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Cassiano Ricado
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
'FILOSOFANDO'
'FILOSOFANDO'
- Interessante!... Aquele passarinho
que pelo espaço imenso, incerto, adeja,
não tem nada
porque nada deseja,
e no entanto tem tudo:
- a terra verde é sua...
- o céu azul é seu...
- interessante!... Aquele passarinho
tem muito mais do que eu
J.G.de Araújo Jorge
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JG de Araújo Jorge
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
VESPERAL
Dentro do véu da tarde silenciosa,
os jardins adormecem a sonhar...
Choram, sonhando, a sorte de uma rosa
que vai morrer nos braços do luar.
Dentro do véu da a tarde silenciosa,
alguém soluça, erguendo os braços no ar,
uma velha balada dolorosa
de um grande amor que ninguém soube amar...
Pela tristeza de um longínquo olhar,
dentro do véu da tarde silenciosa,
beijo uma sombra que me faz chorar.
Canta um repuxo na hora vaporosa...
Quantas flores ainda vão tombar
dentro do véu da tarde silenciosa...
Onestaldo de Pennafort
Poesia (1987)
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Onestaldo de Pennafort
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
'POEMAS DO VENTO'
Gastar-se no tempo
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...
Memória.
Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.
Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...
Menotti Del Picchia
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...
Memória.
Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.
Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...
Menotti Del Picchia
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Menotti Del Picchia
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
TODO DIA É MENOS UM DIA
Todo dia é menos um dia;
menos um dia para ser feliz;
é menos um dia para dar e receber;
é menos um dia para amar e ser amado;
é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar !
Sim, porque calando nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outrem a chance de pensar,
refletir, saber o que falou ou escreveu.
Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.
Mas saber calar, mais raro ainda.
E como humanos estamos sujeitos a errar.
E nosso erro mais primário, é não saber:
Ouvir e calar !
Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.
Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso
para sentir um pouco de felicidade !
Todo dia é menos um dia para dizer:
- Desculpe, eu errei !
Para dizer:
- Perdoe-me por favor, fui injusto !
Todo dia é menos um dia;
Para voltarmos sobre os nossos passos.
De repente descobrimos que estamos muito longe
E já não há mais como encontrar
onde pisamos quando íamos.
Já não conseguiremos distinguir nossos passos
de tantos outros que vieram depois dos nossos.
E se esse dia chega, por mais que voltemos;
estaremos seguindo um caminho, que jamais
nos trará ao ponto de partida.
Por isso use cada dia com sabedoria.
Ouça e cale se não se sentir bem;
Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir
interpretar melhor e saber o que quis ser dito.
Carlos Drummond de Andrade
menos um dia para ser feliz;
é menos um dia para dar e receber;
é menos um dia para amar e ser amado;
é menos um dia para ouvir e, principalmente, calar !
Sim, porque calando nem sempre quer dizer
que concordamos com o que ouvimos ou lemos,
mas estamos dando a outrem a chance de pensar,
refletir, saber o que falou ou escreveu.
Saber ouvir é um raro dom, reconheçamos.
Mas saber calar, mais raro ainda.
E como humanos estamos sujeitos a errar.
E nosso erro mais primário, é não saber:
Ouvir e calar !
Todo dia é menos um dia para dar um sorriso.
Muitas vezes alguém precisa, apenas de um sorriso
para sentir um pouco de felicidade !
Todo dia é menos um dia para dizer:
- Desculpe, eu errei !
Para dizer:
- Perdoe-me por favor, fui injusto !
Todo dia é menos um dia;
Para voltarmos sobre os nossos passos.
De repente descobrimos que estamos muito longe
E já não há mais como encontrar
onde pisamos quando íamos.
Já não conseguiremos distinguir nossos passos
de tantos outros que vieram depois dos nossos.
E se esse dia chega, por mais que voltemos;
estaremos seguindo um caminho, que jamais
nos trará ao ponto de partida.
Por isso use cada dia com sabedoria.
Ouça e cale se não se sentir bem;
Leia e deixe de lado, outra hora você vai conseguir
interpretar melhor e saber o que quis ser dito.
Carlos Drummond de Andrade
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Carlos Drummond de Andrade
sábado, 14 de janeiro de 2012
'' Depois de tudo''
Hoje, também é o aniversário da morte, do poeta brasileiro Cassiano Ricado.
São José dos Campos, em 26 de julho de 1895 e morreu em Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974
'Depois de tudo'
Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.
Cassiano Ricardo
************************
Representante do modernismo de tendências nacionalistas, esteve associado aos grupos Verde-Amarelo, Anta e foi o fundador do grupo da Bandeira. Pertenceu às academias paulista e brasileira de letras.
Formou-se em direito no Rio de Janeiro, em 1917. Rumando para São Paulo, trabalhou como jornalista em diversas publicações, e chegou a fundar alguns jornais. Aproximou-se de Menotti Del Picchia e Plínio Salgado, à época da Semana de Arte Moderna de 1922. Em 1924 fundou A Novíssima, revista modernista. Em 1928 publica sua grande obra, Martim Cererê, experiência modernista que se coloca lado a lado com Macunaíma (de Mário de Andrade) e Cobra Norato (de Raul Bopp).
Afastando-se das idéias de Plínio Salgado, que por essa época já começavam a descaracterizar-se com nacionais e pareciam-se mais com imitações imperfeitas de dogmas nazistas, Cassiano Ricardo funda com Menotti del Picchia o grupo da Bandeira, em 1937. Neste ano ainda foi eleito para a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras, sendo o segundo modernista aceito na instituição (o primeiro havia sido Guilherme de Almeida, que foi encarregado de recebê-lo).
Em 1950 foi eleito presidente do Clube da Poesia de São Paulo, e entre 1953 e 1954 foi chefe do Escritório Comercial do Brasil em Paris, vindo a ocupar outros cargos públicos nos anos seguintes.
Sua obra passa por diversos momentos; inicialmente apresenta-se presa ao Parnasianismo e ao Simbolismo. Com a fase modernista, explora temas nacionalistas e depois restringe-se mais, louvando a epopéia bandeirante. Por fim detém-se em temas mais intimistas, cotidianos.
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Cassiano Ricardo
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Josué Guimarães
Lembrança pela passagem do aniversário, do grande escritor gaúcho, Josué Guimarães.
Josué Guimarães (RS, 1921-1986) é considerado um dos grandes escritores brasileiros do século XX, tendo deixado uma obra fundamental como romancista, jornalista e autor de histórias infantis e infanto-juvenis.
Josué Marques Guimarães nasceu em São Jerônimo, no Rio Grande do Sul, em 7 de janeiro de 1921.
No ano seguinte sua família mudou-se para a cidade de Rosário do Sul, na fronteira com o Uruguai, onde seu pai, um pastor da Igreja Episcopal Brasileira, exercia as funções de telegrafista. Após a Revolução de 30 sua família foi para Porto Alegre, onde Josué Guimarães prosseguiu os estudos primários, completando o curso secundário no Ginásio Cru¬zeiro do Sul, mesma escola onde estudou o escritor Erico Verissimo. Ali funda o Grêmio Literário Humberto de Campos, participando ativamente na redação de artigos para o jornal da escola e, igualmente, na produção de textos teatrais que, a cada final de ano, passam a ser encenados na escola. Forma-se em 1938, no curso secundário (hoje ensino médio), prestando em seguida exames para a Faculdade de Medicina. Contudo, após as primeiras aulas de anatomia, sente-se "desestimulado" para dar continuidade àquela vocação. Sempre irrequieto, Josué buscou outros ares.
Em 1939 foi para o Rio de Janeiro onde, no Correio da Manhã, iniciou-se na profissão de jornalista, que exerceria até o final da sua vida. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, voltou para o Rio Grande, onde concluiu o curso de oficial da reserva, sendo designado para servir como aspirante no 7° R.C.I. em Santana do Livramento. Em 1940, aos dezenove anos de idade, casou-se com Zilda Marques. Desse matrimônio, nasceram quatro filhos: Marília, Elaine, Jaime e Sônia. Por ser casado, foi recusado como voluntário na FEB (Força Expedicionária Brasileira).
Em 1944, de volta à imprensa no Diário de Notícias, seguiu na carreira que o faria passar pelos principais jornais e revistas do país. É nesse jornal que o escritor manteve uma coluna assinada sob o pseudônimo de D. Xicote, a qual tinha por característica principal dar um tratamento irônico aos acontecimentos políticos da época. O próprio Josué se encarregava da elaboração das ilustrações, dos desenhos e das caricaturas da coluna. Mais tarde, a coluna D. Xicote reapareceu no jornal A Hora, de Porto Alegre, explorando modernos recursos gráficos e montagens fotográficas.
Trabalhou em inúmeras funções, de repórter a diretor de jornal, passando por secretário de redação, colunista, comentarista, cronista, edi¬to¬rialista, ilustrador, diagramador e repórter político. Em 1948, deixou o Diário de Notícias para exercer a função de repórter exclusivo e correspondente da revista O Cruzeiro no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. Em 1949, colabora na revista Quixote nº 4, com a crônica "Sangue e Pó de Arroz". Essa publicação de Porto Alegre divulgou, por um longo período, nomes da literatura rio-grandense, renovando o cenário regional. Sempre atento aos fatos políticos, sociais e econômicos, nacionais ou internacionais, Josué criou um jornal, às próprias custas, cujo objetivo, segundo o escritor, não era ser um jornal de humor, mas igualmente não se tratava de um jornal sério, o periódico se chamava D. Xicote.
Atuou como correspondente especial no Extremo Oriente em 1952 (União Soviética e China Continental) e de 1974 a 1976 como correspondente da empresa jornalística Caldas Júnior em Portugal e África. Foi o primeiro jornalista brasileiro a ingressar na China Continental e na URSS como correspondente especial da Última Hora, do Rio de Janeiro, dirigido por Samuel Weiner. Ainda nessa época, Josué Guimarães escreveu o livro de viagem As muralhas de Jericó (L&PM).
No jornal Folha da Tarde, em 1954, o escritor lançou uma coluna que assinava com o pseudônimo D.Camilo. Nesse mesmo ano, passou a exercer as funções de subsecretário do jornal A Hora. Ali revolucionou o jornalismo gaúcho ao lado do então diagramador Xico Stockinger. Em 1956, trabalhou como redator da agência de propaganda MPM. Em meio a essa atividade, continuou, em momentos de recolhimento, com a produção de contos e crônicas. Em 1957, foi chamado por Assis Chateaubriand ao Rio de Janeiro para reestruturar o vespertino carioca Diário da Noite, órgão dos Diários Associados.
Como homem público foi chefe de gabinete de João Goulart na Secretaria de Justiça do Rio Grande, governo Ernesto Dornelles; foi vereador em Porto Alegre pela bancada do PTB, sendo eleito vice-presidente da Câmara. De 1961 até 1964 foi diretor da Agência Nacional, hoje Empresa Brasileira de Notícias, a convite do então presidente João Goulart. A partir de 1964, perseguido pelo regime autoritário, foi obrigado a escrever sob pseudônimo e a dar consultoria para empresas privadas nas áreas comercial e publicitária.
Josué Guimarães lançou-se tardiamente – aos 49 anos – no ofício que o consagraria como um dos maiores escritores do país. Seu primeiro livro foi Os Ladrões, reunindo contos, entre os quais o conto que dá nome ao livro, premiado no então importante Concurso de Contos do Paraná (este concurso promovido pelo Governo do Paraná foi, nas décadas de 60 e 70, o mais importante concurso literário do país, consagrando e lançando autores como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, João Antônio, além de muitos outros).
Em 1969, foi descoberto pelos órgãos de segurança da ditadura militar, respondendo a inquérito em liberdade. Retorna à capital gaúcha. Nesse mesmo período foi premiado no II Concurso de Contos do Estado do Paraná pelo conjunto de três contos "João do Rosário", "Mãos sujas de terra" e "O princípio e o fim", que posteriormente integrariam o livro Os ladrões. A essa época sua mulher e companheira é Nydia Moojem, com quem viveu até sua morte. Com ela teve dois filhos, Rodrigo e Adriana.
Sua obra – escrita em pouco menos de 20 anos – destaca-se como um acervo importante e fundamental. Democrata e humanista ferrenho, Josué Guimarães foi sistematicamente perseguido pela ditadura e os poderosos de plantão, mantendo uma admirável coerência que acabou por alijá-lo do meio cultural oficial. Depois de Erico Verissimo é, sem dúvida, o escritor mais importante da história recente do Rio Grande e um dos mais influentes e importantes do país. A ferro e fogo I (Tempo de Solidão) e A ferro e fogo II (Tempo de Guerra) – deixou o terceiro e último volume (Tempo de Angústia) inconcluso – são romances clássicos da literatura brasileira e sua obra-prima, as únicas obras de ficção realmente importantes que abordam a saga da colonização alemã no Brasil. A tão sonhada trilogia, que Josué não conseguiu concluir, é um romance de enorme dimensão artística, pela construção de seus personagens, emoção da trama e a dureza dos tempos que como poucos ele soube retratar com emocionante realismo. Dentro da vertente do romance histórico, Josué voltaria ao tema em Camilo Mortágua, fazendo um verdadeiro corte na sociedade gaúcha pós-rural, inaugurando uma trilha que mais tarde seria seguida por outros bons autores.
Seu livro Dona Anja foi traduzido para o espanhol e publicado pela Edivisión Editoriales, México, sob o título de Doña Angela.
Jousé Guimarães morreu no dia 23 de março de 1986.
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Josué Guimarães
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
CONTRAPONTO
— Qual no espaço exterior, no antro de nossas mentes
há momentos também de sóis deliqüescentes,
de etéreos candelabros num puro azul sem rastros!
— Somos feitos da mesma seiva de luz dos astros.
— Oh, a negra cabeça da noite rola do alto...
Sermos também lastrados de queda e sobressalto...
— O pulso que na esfera mais mínima palpita
é o mesmo que lateja na galáxia infinita.
— Mas eu sinto que o peito uma ânsia azul me invade
de ser somente luz, acima, imensidade!
Sinto que há dentro em mim um eu que me transcende!
Sobe o mar interior, e no abismo que ascende
algo vem se formando como espumas e cânticos!
— Dentro do coração somos todos românticos.
Anderson Braga Horta
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Anderson Braga Horta
O TEMPO
Espantados olhos
vasculhando a treva.
(A ignorância nossa
do mistério é ceva.)
Num lugar da noite
(ao lado ou cá dentro)
dormem o ontem, o hoje,
o amanhã e o sempre.
Onde a espada que
a armadura rompa,
onde a lança que
desmantele o escudo e
mostre as faces do
tempo simultâneas?
Anderson Braga Horta
In Fragmentos da Paixão (1971)
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Anderson Braga Horta
'Meu rastro'
Homenagem, ao poeta José Américo de Almeida, que completaria hoje
125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
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125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
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