quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
O TEMPO
Espantados olhos
vasculhando a treva.
(A ignorância nossa
do mistério é ceva.)
Num lugar da noite
(ao lado ou cá dentro)
dormem o ontem, o hoje,
o amanhã e o sempre.
Onde a espada que
a armadura rompa,
onde a lança que
desmantele o escudo e
mostre as faces do
tempo simultâneas?
Anderson Braga Horta
In Fragmentos da Paixão (1971)
'Meu rastro'
Homenagem, ao poeta José Américo de Almeida, que completaria hoje
125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
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125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
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José Américo de Almeida
""música de manivela""
Oswald de Andrada
(Nascido em São Paulo, 11 de janeiro de 1890)
Sente-se diante da vitrola
E esqueça das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços
Oswald de Andrade
José Oswald de Sousa Andrade Pereira Pinto de Oliveira Siqueira Neto ,
(São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)
foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Era filho único de Jose Oswald Nogueira de Andrade e de Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Seu nome pronuncia-se com acento na letra a (Oswáld).
Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo, sendo o mais inovador entre estes.
*Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)
*Manifesto Antropófago (1928)
Oswald de Andrade já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Colé Santana no filme Tabu (1982); Flávio Galvão e Ítala Nandi, no filme O Homem do Pau-Brasil (1982); Antônio Fagundes, no filme Eternamente Pagu (1987); e José Rubens Chachá, nas minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006).
As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também diversas áreas da criação artística: na música, o tropicalismo; na poesia, o movimento dos concretistas; e no teatro, grupos como Teatro Oficina e Cia. Antropofágica têm sua trajetória ligada ao poeta.
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(Nascido em São Paulo, 11 de janeiro de 1890)
Sente-se diante da vitrola
E esqueça das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços
Oswald de Andrade
José Oswald de Sousa Andrade Pereira Pinto de Oliveira Siqueira Neto ,
(São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)
foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Era filho único de Jose Oswald Nogueira de Andrade e de Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Seu nome pronuncia-se com acento na letra a (Oswáld).
Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo, sendo o mais inovador entre estes.
*Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)
*Manifesto Antropófago (1928)
Oswald de Andrade já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Colé Santana no filme Tabu (1982); Flávio Galvão e Ítala Nandi, no filme O Homem do Pau-Brasil (1982); Antônio Fagundes, no filme Eternamente Pagu (1987); e José Rubens Chachá, nas minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006).
As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também diversas áreas da criação artística: na música, o tropicalismo; na poesia, o movimento dos concretistas; e no teatro, grupos como Teatro Oficina e Cia. Antropofágica têm sua trajetória ligada ao poeta.
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sábado, 7 de janeiro de 2012
O Olhar
Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
Manoel Barros
in ‘Poemas Rupestres’
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
Manoel Barros
in ‘Poemas Rupestres’
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
OFÍCIO
Naturezas de borboleta
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.
Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.
O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.
Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada
no mais desprovido silêncio.
Fernando Campanella
Do blog do poeta.
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.
Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.
O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.
Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada
no mais desprovido silêncio.
Fernando Campanella
Do blog do poeta.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
COMPASSO DE CALMARIA
Já não falo de amor aos céus de pedra
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Requiescat
Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?
Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que não vive mais?
Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
Não lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!
O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez...
Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.
Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas pálidas murcharam,
E o nosso amor também.
Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguidão!
Lembras-te? os frutos eram doces...
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu... se minha fosses,
E eu te pudesse amar...
Em vão, porém, me beijas, louca!
Teu beijo, a palpitar e a arder,
Não achará, na minha boca,
Outro para o acolher.
Não há mais beijos, nem mais pranto!
Lembras-te? quando te perdi
Beijei-te tanto, chorei tanto,
Com tanto amor por ti,
Que os olhos, vês? já tenho enxutos,
E a minha boca se cansou:
A árvore já não tem mais frutos!
Adeus! tudo acabou!
Outras paixões, outras idades!
Sejam os nossos corações
Dois relicários de saudades
E de recordações.
Ah! esqueçamos, esqueçamos!
Durma tranqüilo o nosso amor
Na cova rasa onde o enterramos
Entre os rosais em flor...
Olavo Bilac,
in "Poesias"
(Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Poema De Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
''Exausto''
(Para Adélia Prado, que completou dia 13/12/2011 , 76 anos)
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Adélia Prado
In "Bagagem" (1993)
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
No curso do dia
Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)
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Gilberto Mendonça Teles
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Névoas
À frente a lua, atrás os sonhos,
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.
Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.
Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.
Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.
E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –
somente a lua à nossa frente.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
in A Noite da Memória
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.
Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.
Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.
Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.
E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –
somente a lua à nossa frente.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
in A Noite da Memória
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Péricles Eugênio da Silva Ramos
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
E as vidas nelas estão
Tempo passa pela catraca
sonoridade dilacerada
equívocos planando
em jovens nuvens carregadas.
Lágrimas contidas mapeando
alegres imagens
vento sul na cela da oração
voa no globo mortal.
Uníssono rompido no etéreo mudo,
abotoando as violetas prematuras.
Nenhuma palavra veste a essência do sentimento.
Azul do véu
descortina
lábios de anil.
Espaço acenando ao vago instante
em paginas gaivotas
cores internas florescem
despertando a aurora orvalhada.
Utopia dos gestos incertos
abraçando um adágio forte.
Partitura
notas de saudades.
Presságios e calafrios
vazios e arrepios
interrogação
põe fim flor âmbar do cais.
Crepúsculo
crava os dentes
boca trava os giros,
gozos em déjá vu,
sorriso na moldura
sonho vivo consome a mente.
Foge o desespero
pela lateral da estação universal,
vãos distantes
paisagem descansa
por um olhar fundo marcado
presença ausente intacta natural.
Floresta estuprada chora.
Deságua
clamor suave de magoas
por falta de um toque, expressivo
perfume sol sentido aquece.
Aharon
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Como estão as montanhas
Como estão as montanhas
por detrás do horizonte,
e o litoral do sonho
além da nossa fronte;
como, no oceano denso,
anêmona perfeita
sua estrela desdobra
e o cego abismo aceita;
como, atrás das imagens,
a idéia se desenha,
e o oráculo cintila
na impenetrável brenha;
assim fica encerrrada,
assim, desconhecida,
nossa extrema verdade
na noite irreal da vida.
Cecília Meireles
In: Canções (1956)
Cecília Meireles nascimento 07/11/1901 - morte 09/11/1964
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
BEM-AVENTURANÇA
Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.
(Fernando Campanella)
terça-feira, 1 de novembro de 2011
A MÁQUINA DO MUNDO
(Fotografia do poeta mineiro Fernando Campanella)
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
O TEMPO
Espantados olhos
vasculhando a treva.
(A ignorância nossa
do mistério é ceva.)
Num lugar da noite
(ao lado ou cá dentro)
dormem o ontem, o hoje,
o amanhã e o sempre.
Onde a espada que
a armadura rompa,
onde a lança que
desmantele o escudo e
mostre as faces do
tempo simultâneas?
Anderson Braga Horta
In Fragmentos da Paixão (1971)
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Anderson Braga Horta
'Meu rastro'
Homenagem, ao poeta José Américo de Almeida, que completaria hoje
125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
******
125 anos.(10 de janeiro)
A areia marcou meus pés
Voltei-me contente e vi.
Mar volúvel, por quem és,
Não subas até aqui.
Peço-te:em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia,
E depois olhar meu traço.
Até vir a maré cheia.
Já escrevi minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje minha trajectória
É simplesmente esse rastro.
José Américo de Ameida
José Américo de Almeida
(Areia,PB, 10 de janeiro de 1887 — João Pessoa,PB, 10 de março de 1980) foi um escritor (romancista, ensaísta, poeta e cronista), político, advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo brasileiro.
Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, tendo sido promotor público da comarca do Recife, promotor público da comarca de Sousa na Paraíba, procurador geral do estado da Paraíba aos vinte e quatro anos de idade, secretário de governo, deputado federal, interventor, ministro da Viação e Obras Públicas nos dois governos de Getúlio Vargas, senador, ministro do Tribunal de Contas da União, governador da Paraíba, fundador da Universidade Federal da Paraíba e seu primeiro reitor. Américo chegou a ser pré-candidato à Presidência da República, apoiado por Vargas para as eleições de 1938, porém as mesmas não aconteceram, em razão do golpe dado por Getúlio em 1937, que deu início à ditadura do Estado Novo.
Destacou-se no cenário nacional com a publicação de A bagaceira (1928), romance inaugural do chamado Romance de 30.
Foi o quinto ocupante da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 27 de outubro de 1966, na sucessão de Maurício Campos de Medeiros, e recebido pelo acadêmico Alceu Amoroso Lima em 28 de junho de 1967.
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José Américo de Almeida
""música de manivela""
Oswald de Andrada
(Nascido em São Paulo, 11 de janeiro de 1890)
Sente-se diante da vitrola
E esqueça das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços
Oswald de Andrade
José Oswald de Sousa Andrade Pereira Pinto de Oliveira Siqueira Neto ,
(São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)
foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Era filho único de Jose Oswald Nogueira de Andrade e de Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Seu nome pronuncia-se com acento na letra a (Oswáld).
Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo, sendo o mais inovador entre estes.
*Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)
*Manifesto Antropófago (1928)
Oswald de Andrade já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Colé Santana no filme Tabu (1982); Flávio Galvão e Ítala Nandi, no filme O Homem do Pau-Brasil (1982); Antônio Fagundes, no filme Eternamente Pagu (1987); e José Rubens Chachá, nas minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006).
As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também diversas áreas da criação artística: na música, o tropicalismo; na poesia, o movimento dos concretistas; e no teatro, grupos como Teatro Oficina e Cia. Antropofágica têm sua trajetória ligada ao poeta.
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(Nascido em São Paulo, 11 de janeiro de 1890)
Sente-se diante da vitrola
E esqueça das vicissitudes da vida
Na dura labuta de todos os dias
Não deve ninguém que se preze
Descuidar dos prazeres da alma
Discos a todos os preços
Oswald de Andrade
José Oswald de Sousa Andrade Pereira Pinto de Oliveira Siqueira Neto ,
(São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)
foi um escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Era filho único de Jose Oswald Nogueira de Andrade e de Inês Henriqueta Inglês de Sousa Andrade. Seu nome pronuncia-se com acento na letra a (Oswáld).
Foi um dos promotores da Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Foi considerado pela crítica como o elemento mais rebelde do grupo, sendo o mais inovador entre estes.
*Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924)
*Manifesto Antropófago (1928)
Oswald de Andrade já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Colé Santana no filme Tabu (1982); Flávio Galvão e Ítala Nandi, no filme O Homem do Pau-Brasil (1982); Antônio Fagundes, no filme Eternamente Pagu (1987); e José Rubens Chachá, nas minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006).
As ideias de Oswald de Andrade influenciaram também diversas áreas da criação artística: na música, o tropicalismo; na poesia, o movimento dos concretistas; e no teatro, grupos como Teatro Oficina e Cia. Antropofágica têm sua trajetória ligada ao poeta.
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Oswald de Andrade
sábado, 7 de janeiro de 2012
O Olhar
Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
Manoel Barros
in ‘Poemas Rupestres’
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
Manoel Barros
in ‘Poemas Rupestres’
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Manoel de Barros
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
OFÍCIO
Naturezas de borboleta
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.
Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.
O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.
Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada
no mais desprovido silêncio.
Fernando Campanella
Do blog do poeta.
forjam casulos em silêncio.
Em segredo, universos tramam
O absoluto florescimento.
Tanta beleza em surdina
que já não se conta o tempo.
O ferreiro tece o concreto
em diurno alheamento.
Também meu ofício de arte
por estas vias se encorpa.
Tanta mobilidade, tantas formas
me saíram do bolso
assim como do nada
no mais desprovido silêncio.
Fernando Campanella
Do blog do poeta.
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Fernando Campanella
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
COMPASSO DE CALMARIA
Já não falo de amor aos céus de pedra
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda.Estou à espera
deste reino que é a morte.
Lêdo Ivo,
In O Sinal Metafórico
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Ledo Ivo
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Requiescat
Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?
Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que não vive mais?
Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
Não lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!
O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez...
Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.
Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas pálidas murcharam,
E o nosso amor também.
Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguidão!
Lembras-te? os frutos eram doces...
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu... se minha fosses,
E eu te pudesse amar...
Em vão, porém, me beijas, louca!
Teu beijo, a palpitar e a arder,
Não achará, na minha boca,
Outro para o acolher.
Não há mais beijos, nem mais pranto!
Lembras-te? quando te perdi
Beijei-te tanto, chorei tanto,
Com tanto amor por ti,
Que os olhos, vês? já tenho enxutos,
E a minha boca se cansou:
A árvore já não tem mais frutos!
Adeus! tudo acabou!
Outras paixões, outras idades!
Sejam os nossos corações
Dois relicários de saudades
E de recordações.
Ah! esqueçamos, esqueçamos!
Durma tranqüilo o nosso amor
Na cova rasa onde o enterramos
Entre os rosais em flor...
Olavo Bilac,
in "Poesias"
(Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918)
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Olavo Bilac
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Poema De Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
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Vinícius de Moraes
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
''Exausto''
(Para Adélia Prado, que completou dia 13/12/2011 , 76 anos)
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Adélia Prado
In "Bagagem" (1993)
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Adélia Prado
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
No curso do dia
Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)
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Gilberto Mendonça Teles
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Névoas
À frente a lua, atrás os sonhos,
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.
Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.
Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.
Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.
E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –
somente a lua à nossa frente.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
in A Noite da Memória
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.
Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.
Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.
Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.
E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –
somente a lua à nossa frente.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
in A Noite da Memória
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Péricles Eugênio da Silva Ramos
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
E as vidas nelas estão
Tempo passa pela catraca
sonoridade dilacerada
equívocos planando
em jovens nuvens carregadas.
Lágrimas contidas mapeando
alegres imagens
vento sul na cela da oração
voa no globo mortal.
Uníssono rompido no etéreo mudo,
abotoando as violetas prematuras.
Nenhuma palavra veste a essência do sentimento.
Azul do véu
descortina
lábios de anil.
Espaço acenando ao vago instante
em paginas gaivotas
cores internas florescem
despertando a aurora orvalhada.
Utopia dos gestos incertos
abraçando um adágio forte.
Partitura
notas de saudades.
Presságios e calafrios
vazios e arrepios
interrogação
põe fim flor âmbar do cais.
Crepúsculo
crava os dentes
boca trava os giros,
gozos em déjá vu,
sorriso na moldura
sonho vivo consome a mente.
Foge o desespero
pela lateral da estação universal,
vãos distantes
paisagem descansa
por um olhar fundo marcado
presença ausente intacta natural.
Floresta estuprada chora.
Deságua
clamor suave de magoas
por falta de um toque, expressivo
perfume sol sentido aquece.
Aharon
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Nelson Aharon
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Como estão as montanhas
Como estão as montanhas
por detrás do horizonte,
e o litoral do sonho
além da nossa fronte;
como, no oceano denso,
anêmona perfeita
sua estrela desdobra
e o cego abismo aceita;
como, atrás das imagens,
a idéia se desenha,
e o oráculo cintila
na impenetrável brenha;
assim fica encerrrada,
assim, desconhecida,
nossa extrema verdade
na noite irreal da vida.
Cecília Meireles
In: Canções (1956)
Cecília Meireles nascimento 07/11/1901 - morte 09/11/1964
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Cecília Meireles
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
BEM-AVENTURANÇA
Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.
(Fernando Campanella)
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Fernando Campanella
terça-feira, 1 de novembro de 2011
A MÁQUINA DO MUNDO
(Fotografia do poeta mineiro Fernando Campanella)
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade
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