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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Requiescat


Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?

Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que não vive mais?

Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
Não lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!

O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez...

Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.

Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas pálidas murcharam,
E o nosso amor também.

Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguidão!

Lembras-te? os frutos eram doces...
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu... se minha fosses,
E eu te pudesse amar...

Em vão, porém, me beijas, louca!
Teu beijo, a palpitar e a arder,
Não achará, na minha boca,
Outro para o acolher.

Não há mais beijos, nem mais pranto!
Lembras-te? quando te perdi
Beijei-te tanto, chorei tanto,
Com tanto amor por ti,

Que os olhos, vês? já tenho enxutos,
E a minha boca se cansou:
A árvore já não tem mais frutos!
Adeus! tudo acabou!

Outras paixões, outras idades!
Sejam os nossos corações
Dois relicários de saudades
E de recordações.

Ah! esqueçamos, esqueçamos!
Durma tranqüilo o nosso amor
Na cova rasa onde o enterramos
Entre os rosais em flor...


Olavo Bilac,
in "Poesias"
(Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Poema De Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

''Exausto''


(Para Adélia Prado, que completou dia 13/12/2011 , 76 anos)

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado
In "Bagagem" (1993)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No curso do dia

Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.


Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.


Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.


Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.


Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.


E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.


Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Névoas

À frente a lua, atrás os sonhos,
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.

Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.

Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.

Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.

E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –

somente a lua à nossa frente.


Péricles Eugênio da Silva Ramos
in A Noite da Memória

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

E as vidas nelas estão


Tempo passa pela catraca
sonoridade dilacerada
equívocos planando
em jovens nuvens carregadas.

Lágrimas contidas mapeando
alegres imagens
vento sul na cela da oração
voa no globo mortal.

Uníssono rompido no etéreo mudo,
abotoando as violetas prematuras.

Nenhuma palavra veste a essência do sentimento.

Azul do véu
descortina
lábios de anil.

Espaço acenando ao vago instante
em paginas gaivotas
cores internas florescem
despertando a aurora orvalhada.

Utopia dos gestos incertos
abraçando um adágio forte.
Partitura
notas de saudades.

Presságios e calafrios
vazios e arrepios
interrogação
põe fim flor âmbar do cais.

Crepúsculo
crava os dentes
boca trava os giros,
gozos em déjá vu,
sorriso na moldura
sonho vivo consome a mente.

Foge o desespero
pela lateral da estação universal,
vãos distantes
paisagem descansa
por um olhar fundo marcado
presença ausente intacta natural.

Floresta estuprada chora.

Deságua
clamor suave de magoas
por falta de um toque, expressivo
perfume sol sentido aquece.


Aharon

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Como estão as montanhas


Como estão as montanhas
por detrás do horizonte,
e o litoral do sonho
além da nossa fronte;


como, no oceano denso,
anêmona perfeita
sua estrela desdobra
e o cego abismo aceita;


como, atrás das imagens,
a idéia se desenha,
e o oráculo cintila
na impenetrável brenha;


assim fica encerrrada,
assim, desconhecida,
nossa extrema verdade
na noite irreal da vida.


Cecília Meireles
In: Canções (1956)

Cecília Meireles nascimento 07/11/1901 - morte 09/11/1964

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

BEM-AVENTURANÇA


Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.

(Fernando Campanella)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A MÁQUINA DO MUNDO

(Fotografia do poeta mineiro Fernando Campanella)


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Viagem

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
Como se levassem nos bolsos
Doces geografias, pensamentos
De além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
Vem morrer no longe horizonte
Do meu quarto, onde esse alguém
É vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

FILHO PRÓDIGO


I

Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.

II

Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.

III

Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.

IV

Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.

V

Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

Foto do poeta e seu filho Leonardo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

IDEAL

Preciso semear
em todos os horizontes
brancas paisagens de aves
. . . sendeiro luz aos humanos.


Preciso ver germinar
. . . lá, muito lá,
beijos se encontrando,
desertos sussurrando . . .


preciso ver florescer
nessas vastidões submissas
pensamentos em largos vôos. . .


Desejo então,
nessas nesses raras,
absorver perfeições de céus
. . . ódios sorrindo aos perdões
. . . braços recolhendo ausências
. . . silêncios desenhando canções.



Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Feliz Ano-Novo Judaico 5772

Um sorriso se faz
olha lá os passos de luz vindo
te abraçar feito azul,
na tua estrada,
tua história,
tua memória,
teu coração.
Bem Vindo
doce abraço
aromas de mel
e maçã.
e o que passou deixa ir
feliz ou não.
Vai nascer um big bang
momento virgem
sair do mar
o sol
a vida
o alimento,
na alma
uma estrela
brilhando
ano novo
chegando.

Aharon

מל

חיוך גורם
נראה במורד המדרגות של אור מגיע
אני מחבק אותך כמו האור,
הדרך שלך,
הסיפור שלך,
הזיכרון שלך,
הלב שלך.
רצוי
מתוקה חיבוק
ארומות של דבש
וגם תפוח.
ומה להרפות עכשיו
מאושר או לא.
ייוולד המפץ הגדול
בתולה רגע
מן הים
השמש
חיים
אוכל,
נשמה
כוכב
מבריק
ראש השנה
הקרובים.

אהרון

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Veleiros de Papel

Há no ar uma sede
ferindo a alma dos pescadores,
roendo barcos
e velas em lance de rede.

O homem pelas sebes
Caminha,
recolhendo estrelas
entre as mãos - no céu.

Nas ribanceiras,
crianças empalmam rios,
plantam neve nas colinas
em brancas tendas de areia.

O cansaço dos inocente
põe pedras nos olhos,
fere de morte os covardes,
desmonta velhas embarcações.

Se nada segues
pouco vale o destino,
a morte cavalga veloz
sempre a caminho.

O homem vive
de pescar o tempo:
ora em veleiros de papel,
ora em veleiros de vento

Onévio Antonio Zabot
Joinville, Santa Catarina
Brasil

Copiado da página de minha amiga Dione.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os ventos


Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.

Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.

Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.

Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu.

Ashford Castle, Irlanda, julho 92



Álvaro Pacheco
In Geometria dos Ventos (1992)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Requiescat


Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?

Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que não vive mais?

Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
Não lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!

O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez...

Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.

Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas pálidas murcharam,
E o nosso amor também.

Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguidão!

Lembras-te? os frutos eram doces...
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu... se minha fosses,
E eu te pudesse amar...

Em vão, porém, me beijas, louca!
Teu beijo, a palpitar e a arder,
Não achará, na minha boca,
Outro para o acolher.

Não há mais beijos, nem mais pranto!
Lembras-te? quando te perdi
Beijei-te tanto, chorei tanto,
Com tanto amor por ti,

Que os olhos, vês? já tenho enxutos,
E a minha boca se cansou:
A árvore já não tem mais frutos!
Adeus! tudo acabou!

Outras paixões, outras idades!
Sejam os nossos corações
Dois relicários de saudades
E de recordações.

Ah! esqueçamos, esqueçamos!
Durma tranqüilo o nosso amor
Na cova rasa onde o enterramos
Entre os rosais em flor...


Olavo Bilac,
in "Poesias"
(Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Poema De Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

''Exausto''


(Para Adélia Prado, que completou dia 13/12/2011 , 76 anos)

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado
In "Bagagem" (1993)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

No curso do dia

Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.


Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.


Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.


Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.


Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.


E o que ficou, ficou: raiz noturna
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.


Gilberto Mendonça Teles
(Sociologia goiana, 1982, p.113)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Névoas

À frente a lua, atrás os sonhos,
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.

Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.

Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.

Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.

E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –

somente a lua à nossa frente.


Péricles Eugênio da Silva Ramos
in A Noite da Memória

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

E as vidas nelas estão


Tempo passa pela catraca
sonoridade dilacerada
equívocos planando
em jovens nuvens carregadas.

Lágrimas contidas mapeando
alegres imagens
vento sul na cela da oração
voa no globo mortal.

Uníssono rompido no etéreo mudo,
abotoando as violetas prematuras.

Nenhuma palavra veste a essência do sentimento.

Azul do véu
descortina
lábios de anil.

Espaço acenando ao vago instante
em paginas gaivotas
cores internas florescem
despertando a aurora orvalhada.

Utopia dos gestos incertos
abraçando um adágio forte.
Partitura
notas de saudades.

Presságios e calafrios
vazios e arrepios
interrogação
põe fim flor âmbar do cais.

Crepúsculo
crava os dentes
boca trava os giros,
gozos em déjá vu,
sorriso na moldura
sonho vivo consome a mente.

Foge o desespero
pela lateral da estação universal,
vãos distantes
paisagem descansa
por um olhar fundo marcado
presença ausente intacta natural.

Floresta estuprada chora.

Deságua
clamor suave de magoas
por falta de um toque, expressivo
perfume sol sentido aquece.


Aharon

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Como estão as montanhas


Como estão as montanhas
por detrás do horizonte,
e o litoral do sonho
além da nossa fronte;


como, no oceano denso,
anêmona perfeita
sua estrela desdobra
e o cego abismo aceita;


como, atrás das imagens,
a idéia se desenha,
e o oráculo cintila
na impenetrável brenha;


assim fica encerrrada,
assim, desconhecida,
nossa extrema verdade
na noite irreal da vida.


Cecília Meireles
In: Canções (1956)

Cecília Meireles nascimento 07/11/1901 - morte 09/11/1964

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

BEM-AVENTURANÇA


Graças, por todo pão e mistério
pela palavra soerguida
pela poesia
pela vida sobre a vida.

(Fernando Campanella)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A MÁQUINA DO MUNDO

(Fotografia do poeta mineiro Fernando Campanella)


E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Viagem

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
Como se levassem nos bolsos
Doces geografias, pensamentos
De além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
Vem morrer no longe horizonte
Do meu quarto, onde esse alguém
É vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

FILHO PRÓDIGO


I

Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.

II

Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.

III

Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.

IV

Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.

V

Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

Foto do poeta e seu filho Leonardo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

IDEAL

Preciso semear
em todos os horizontes
brancas paisagens de aves
. . . sendeiro luz aos humanos.


Preciso ver germinar
. . . lá, muito lá,
beijos se encontrando,
desertos sussurrando . . .


preciso ver florescer
nessas vastidões submissas
pensamentos em largos vôos. . .


Desejo então,
nessas nesses raras,
absorver perfeições de céus
. . . ódios sorrindo aos perdões
. . . braços recolhendo ausências
. . . silêncios desenhando canções.



Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Feliz Ano-Novo Judaico 5772

Um sorriso se faz
olha lá os passos de luz vindo
te abraçar feito azul,
na tua estrada,
tua história,
tua memória,
teu coração.
Bem Vindo
doce abraço
aromas de mel
e maçã.
e o que passou deixa ir
feliz ou não.
Vai nascer um big bang
momento virgem
sair do mar
o sol
a vida
o alimento,
na alma
uma estrela
brilhando
ano novo
chegando.

Aharon

מל

חיוך גורם
נראה במורד המדרגות של אור מגיע
אני מחבק אותך כמו האור,
הדרך שלך,
הסיפור שלך,
הזיכרון שלך,
הלב שלך.
רצוי
מתוקה חיבוק
ארומות של דבש
וגם תפוח.
ומה להרפות עכשיו
מאושר או לא.
ייוולד המפץ הגדול
בתולה רגע
מן הים
השמש
חיים
אוכל,
נשמה
כוכב
מבריק
ראש השנה
הקרובים.

אהרון

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Veleiros de Papel

Há no ar uma sede
ferindo a alma dos pescadores,
roendo barcos
e velas em lance de rede.

O homem pelas sebes
Caminha,
recolhendo estrelas
entre as mãos - no céu.

Nas ribanceiras,
crianças empalmam rios,
plantam neve nas colinas
em brancas tendas de areia.

O cansaço dos inocente
põe pedras nos olhos,
fere de morte os covardes,
desmonta velhas embarcações.

Se nada segues
pouco vale o destino,
a morte cavalga veloz
sempre a caminho.

O homem vive
de pescar o tempo:
ora em veleiros de papel,
ora em veleiros de vento

Onévio Antonio Zabot
Joinville, Santa Catarina
Brasil

Copiado da página de minha amiga Dione.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os ventos


Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.

Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.

Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.

Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu.

Ashford Castle, Irlanda, julho 92



Álvaro Pacheco
In Geometria dos Ventos (1992)