terça-feira, 23 de agosto de 2011
Os ventos
Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.
Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.
Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.
Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu.
Ashford Castle, Irlanda, julho 92
Álvaro Pacheco
In Geometria dos Ventos (1992)
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Eu, no tempo
Meu espírito caminha irreversivelmente para a irrealidade de tudo.
O universo para, de repente, à espera de minha infância.
Tudo repousa em seu lugar.
O tempo, no relógio.
O silencio, na pedra.
Jogo as máscaras fora e me identifico comigo
que me esperava há séculos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Entre o Real e a Fabula
sexta-feira, 29 de julho de 2011
EM SEDA
Por esta luz que me alumia
e me inventa em seda a estrada
entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada
- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei -
sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.
(Fernando Campanella, 2010)
e me inventa em seda a estrada
entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada
- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei -
sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.
(Fernando Campanella, 2010)
quinta-feira, 28 de julho de 2011
SMILE
Viver quando a vida é um mar de rosas,
onde voga o batel das ilusões,
oh quanto é bom viver!
Quando a falena de asas luminosas
— Amor — se abriga em nossos corações,
como é triste morrer!
Viver, quando o Ideal é um sonho findo,
e o presente — amarga realidade...
como é triste viver!
Quando a Crença e o Amor não se extinguindo,
e empunhamos a taça da Saudade...
oh quanto é bom morrer!
Rosalia Sandoval
(Alagoas)
Da revista: "O Lyrio", nº 18 e 19, abril e maio 1904, PE
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Intervalo
Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...
Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...
Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...
Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...
Às vezes...
Só às vezes...
Vera Muniz
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...
Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...
Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...
Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...
Às vezes...
Só às vezes...
Vera Muniz
Rochas
Não me apresse.
Meus olhos embriagam-se
Na visão altiva das montanhas...
Não tenho pressa.
Meu corpo inteiro dança
No ritmo idílico da eternidade...
Componho, pedra a pedra,
O jardim onde meu coração habita.
Vera Muniz
Meus olhos embriagam-se
Na visão altiva das montanhas...
Não tenho pressa.
Meu corpo inteiro dança
No ritmo idílico da eternidade...
Componho, pedra a pedra,
O jardim onde meu coração habita.
Vera Muniz
quarta-feira, 13 de julho de 2011
ALEGRIA
Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.
Helena Kolody
In: Correnteza
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.
Helena Kolody
In: Correnteza
CICLO
Do telhado, solitário,
Sempre, um corvo centenário
Observa o pátio da escola.
Há um século, vive cheio
De meninos em recreio. . .
Como a vida não varia!
Claras risadas amenas
E sempre os mesmos brinquedos.
Mudam os rostos apenas.
Helena Kolody
In: Correnteza
Sempre, um corvo centenário
Observa o pátio da escola.
Há um século, vive cheio
De meninos em recreio. . .
Como a vida não varia!
Claras risadas amenas
E sempre os mesmos brinquedos.
Mudam os rostos apenas.
Helena Kolody
In: Correnteza
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Compensação
O pensamento vestido de imaginados
Surge como um gânglio enfartado
E movimenta o cérebro cansado
Pelas distância sem rumo.
No caminho pedras e abismos
Se agarram ao nosso corpo frágil
E nos levam para a paisagem eterna
Num céu onde não há fim.
O mundo é um grande olho que espia tudo
E ensina um sofrimento mudo.
A luz pode ser esperança ou desespero
No olhar do transeunte que jamais veremos.
Sabemos que todos seguem o mesmo rumo
Nos jardins plantados de ciprestes.
Adalgisa Nery in Erosão
quarta-feira, 6 de julho de 2011
TAL VEZ, O QUE BASTE SABER*
I
Não que eu saiba tanto assim,
ou que menos me importe saber:
Há quantos, exatos incríveis anos,
não tomo um copo de cólera?
II
Não que me caiba aventar aqui,
quão mal me comporte ou sobreviva ali.
Ou arguir: Qual a veríssima idade
das algas, estrelas, pedras - da Luz?
Vez que tantos diferem de mim,
em tanta alegria ou tão pouca sorte,
qual a estival infame verdade do Tempo?
III
Sei, talvez suficiente, da noite, das luas,
dos rios e vaidades; do distraído
conviver com a morte – severa amante,
pão nosso primo de cada dia.
Conheço suas mais íntimas, venais,
profundas entranhas; becos, vielas e ruas
E elas, todas, muito mais sabem de mim!
IV
Sei, da madrugada, o estuário das manhas
- malditas e surdas; a densa voz de cada cidade:
A farsa inteira – crua, da servil tempestade
com que profana e abafa a viva manhã!
V
Do dia, mares, amor e sol, já soube
- e quis - mais.
Hoje, bem pouco sei. Mas o que sei me basta.
É este parco, velho, provável falso saber
que alimenta meu viver.
(Amanhã será outra noite!)
*Jairo De Britto, em
"Dunas de Marfim"
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Chuva Interior
Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.
Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.
Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.
Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.
Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.
Mario Chamie
(1933-2011)
Mário Chamie *(Cajobi, 1 de abril de 1933 - São Paulo, 3 de julho de 2011) foi um poeta e crítico brasileiro. Era formado em Direito pela Universidade de São Paulo. Foi secretário municipal de Cultura de São Paulo e criou a Pinacoteca Municipal de São Paulo, o Museu da Cidade de São Paulo e o Centro Cultural São Paulo.
Com seu livro Lavra Lavra, de 1962, instaurou o "poema-práxis". Mário Chamie é um nome muito importante na história das vanguardas surgidas no final da década de 1950, como dissidente do concretismo e fundador da "poesia-práxis". Tem mais de 140 obras publicadas e traduzidas em 57 idiomas. Gilberto Freyre escreveu sobre Chamie: "A criatividade se apresenta tão dele e tão não somente dele que é como se palavras, ou relações entre palavras, nascessem com ele, como se fossem de todo inventadas".
Foi professor convidado a dar aulas e palestras em diversas universidades pelo mundo, como Harvard, onde deu aulas para o astro da música Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, de quem guarda até hoje uma coleção de cartas que este lhe enviara. Chamie dava aulas na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, e era locutor do programa 50 por 1, exibido pela Rede Record e apresentado por Álvaro Garnero.
Foi casado por muitos anos com a falecida Emilie Chamie, famosa por seus trabalhos gráficos de divulgação de peças publicitárias. Participou do Projeto da Academia Paulista de Letras (da qual foi membro) "Escritor na Escola", ministrando duas palestras sobre o ritmo da fala na poesia escrita, nos colégios EE. Prof. Narbal Fontes e EE. Dr. Octávio Mendes.
O poeta morreu em 3 de julho de 2011, no Hospital Oswaldo Cruz.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Manhã de Inverno
Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.
Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.
A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.
Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.
Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.
Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.
Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.
Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.
Machado de Assis,
in 'Falenas'
quarta-feira, 15 de junho de 2011
História Leal dos meus amores
Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.
Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...
Felipe de Oliveira
in Vida Extinta (1911) (Duas primeiras estrofes)
Do Blog da sobrinha do autor.
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terça-feira, 23 de agosto de 2011
Os ventos
Não há, nos ventos,
a liberdade da morte,
embora sejam implacáveis e
jamais perdoem as folhas secas.
Todos os ventos têm nome
mas não se conhece nenhum
de perto, embora
se agarrem a você
e desorganizem a harmonia.
Os ventos não têm forma
mas sabemos todas as suas aspirações
e os seus amores com o mar e as árvores.
Os ventos não têm a liberdade da morte
diluídos na essência
do que nunca aconteceu.
Ashford Castle, Irlanda, julho 92
Álvaro Pacheco
In Geometria dos Ventos (1992)
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Álvaro Pacheco
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Eu, no tempo
Meu espírito caminha irreversivelmente para a irrealidade de tudo.
O universo para, de repente, à espera de minha infância.
Tudo repousa em seu lugar.
O tempo, no relógio.
O silencio, na pedra.
Jogo as máscaras fora e me identifico comigo
que me esperava há séculos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Entre o Real e a Fabula
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Emílio Moura
sexta-feira, 29 de julho de 2011
EM SEDA
Por esta luz que me alumia
e me inventa em seda a estrada
entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada
- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei -
sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.
(Fernando Campanella, 2010)
e me inventa em seda a estrada
entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada
- se com o mundo me acertei/me desavim,
já nem sei -
sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.
(Fernando Campanella, 2010)
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Fernando Campanella
quinta-feira, 28 de julho de 2011
SMILE
Viver quando a vida é um mar de rosas,
onde voga o batel das ilusões,
oh quanto é bom viver!
Quando a falena de asas luminosas
— Amor — se abriga em nossos corações,
como é triste morrer!
Viver, quando o Ideal é um sonho findo,
e o presente — amarga realidade...
como é triste viver!
Quando a Crença e o Amor não se extinguindo,
e empunhamos a taça da Saudade...
oh quanto é bom morrer!
Rosalia Sandoval
(Alagoas)
Da revista: "O Lyrio", nº 18 e 19, abril e maio 1904, PE
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Rosália Sandoval
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Intervalo
Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...
Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...
Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...
Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...
Às vezes...
Só às vezes...
Vera Muniz
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...
Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...
Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...
Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...
Às vezes...
Só às vezes...
Vera Muniz
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Vera Muniz
Rochas
Não me apresse.
Meus olhos embriagam-se
Na visão altiva das montanhas...
Não tenho pressa.
Meu corpo inteiro dança
No ritmo idílico da eternidade...
Componho, pedra a pedra,
O jardim onde meu coração habita.
Vera Muniz
Meus olhos embriagam-se
Na visão altiva das montanhas...
Não tenho pressa.
Meu corpo inteiro dança
No ritmo idílico da eternidade...
Componho, pedra a pedra,
O jardim onde meu coração habita.
Vera Muniz
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Vera Muniz
quarta-feira, 13 de julho de 2011
ALEGRIA
Trêmula gota de orvalho
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.
Helena Kolody
In: Correnteza
Presa na teia de aranha,
Rebrilhando como estrela.
Helena Kolody
In: Correnteza
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Helena Kolody
CICLO
Do telhado, solitário,
Sempre, um corvo centenário
Observa o pátio da escola.
Há um século, vive cheio
De meninos em recreio. . .
Como a vida não varia!
Claras risadas amenas
E sempre os mesmos brinquedos.
Mudam os rostos apenas.
Helena Kolody
In: Correnteza
Sempre, um corvo centenário
Observa o pátio da escola.
Há um século, vive cheio
De meninos em recreio. . .
Como a vida não varia!
Claras risadas amenas
E sempre os mesmos brinquedos.
Mudam os rostos apenas.
Helena Kolody
In: Correnteza
Marcadores:
Helena Kolody
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Compensação
O pensamento vestido de imaginados
Surge como um gânglio enfartado
E movimenta o cérebro cansado
Pelas distância sem rumo.
No caminho pedras e abismos
Se agarram ao nosso corpo frágil
E nos levam para a paisagem eterna
Num céu onde não há fim.
O mundo é um grande olho que espia tudo
E ensina um sofrimento mudo.
A luz pode ser esperança ou desespero
No olhar do transeunte que jamais veremos.
Sabemos que todos seguem o mesmo rumo
Nos jardins plantados de ciprestes.
Adalgisa Nery in Erosão
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Adalgisa Nery
quarta-feira, 6 de julho de 2011
TAL VEZ, O QUE BASTE SABER*
I
Não que eu saiba tanto assim,
ou que menos me importe saber:
Há quantos, exatos incríveis anos,
não tomo um copo de cólera?
II
Não que me caiba aventar aqui,
quão mal me comporte ou sobreviva ali.
Ou arguir: Qual a veríssima idade
das algas, estrelas, pedras - da Luz?
Vez que tantos diferem de mim,
em tanta alegria ou tão pouca sorte,
qual a estival infame verdade do Tempo?
III
Sei, talvez suficiente, da noite, das luas,
dos rios e vaidades; do distraído
conviver com a morte – severa amante,
pão nosso primo de cada dia.
Conheço suas mais íntimas, venais,
profundas entranhas; becos, vielas e ruas
E elas, todas, muito mais sabem de mim!
IV
Sei, da madrugada, o estuário das manhas
- malditas e surdas; a densa voz de cada cidade:
A farsa inteira – crua, da servil tempestade
com que profana e abafa a viva manhã!
V
Do dia, mares, amor e sol, já soube
- e quis - mais.
Hoje, bem pouco sei. Mas o que sei me basta.
É este parco, velho, provável falso saber
que alimenta meu viver.
(Amanhã será outra noite!)
*Jairo De Britto, em
"Dunas de Marfim"
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Jairo De Britto
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Chuva Interior
Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.
Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.
Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.
Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.
Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.
Mario Chamie
(1933-2011)
Mário Chamie *(Cajobi, 1 de abril de 1933 - São Paulo, 3 de julho de 2011) foi um poeta e crítico brasileiro. Era formado em Direito pela Universidade de São Paulo. Foi secretário municipal de Cultura de São Paulo e criou a Pinacoteca Municipal de São Paulo, o Museu da Cidade de São Paulo e o Centro Cultural São Paulo.
Com seu livro Lavra Lavra, de 1962, instaurou o "poema-práxis". Mário Chamie é um nome muito importante na história das vanguardas surgidas no final da década de 1950, como dissidente do concretismo e fundador da "poesia-práxis". Tem mais de 140 obras publicadas e traduzidas em 57 idiomas. Gilberto Freyre escreveu sobre Chamie: "A criatividade se apresenta tão dele e tão não somente dele que é como se palavras, ou relações entre palavras, nascessem com ele, como se fossem de todo inventadas".
Foi professor convidado a dar aulas e palestras em diversas universidades pelo mundo, como Harvard, onde deu aulas para o astro da música Jim Morrison, vocalista da banda The Doors, de quem guarda até hoje uma coleção de cartas que este lhe enviara. Chamie dava aulas na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, e era locutor do programa 50 por 1, exibido pela Rede Record e apresentado por Álvaro Garnero.
Foi casado por muitos anos com a falecida Emilie Chamie, famosa por seus trabalhos gráficos de divulgação de peças publicitárias. Participou do Projeto da Academia Paulista de Letras (da qual foi membro) "Escritor na Escola", ministrando duas palestras sobre o ritmo da fala na poesia escrita, nos colégios EE. Prof. Narbal Fontes e EE. Dr. Octávio Mendes.
O poeta morreu em 3 de julho de 2011, no Hospital Oswaldo Cruz.
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Mário Chamie
quinta-feira, 30 de junho de 2011
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Manhã de Inverno
Coroada de névoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de sono e de preguiça,
Nos olhos da fantástica indolente.
Névoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capelas, lágrimas mais puras.
A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.
Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras úmidas da chuva;
Erma de flores, curva a planta o colo,
E o chão recebe o pranto da viúva.
Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas trêmulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua história escreve.
Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
As névoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o vale;
Já se vão descobrindo os horizontes.
Sobe de todo o pano; eis aparece
Da natureza o esplêndido cenário;
Tudo ali preparou co’os sábios olhos
A suprema ciência do empresário.
Canta a orquestra dos pássaros no mato
A sinfonia alpestre, — a voz serena
Acordo os ecos tímidos do vale;
E a divina comédia invade a cena.
Machado de Assis,
in 'Falenas'
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Machado de Assis
quarta-feira, 15 de junho de 2011
História Leal dos meus amores
Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.
Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...
Felipe de Oliveira
in Vida Extinta (1911) (Duas primeiras estrofes)
Do Blog da sobrinha do autor.
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