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quarta-feira, 15 de junho de 2011

História Leal dos meus amores

(Felipe Daudt de Oliveira)

Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.

Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...

Felipe de Oliveira
in Vida Extinta (1911) (Duas primeiras estrofes)
Do Blog da sobrinha do autor.

Elegia de Maio


Longo, lento, infindável o crepúsculo.
Na larga enseada uma tinta imprecisa
antes do lusco-fusco
insinua-se em tudo, esmaiada.
Corre um brusco arrepio de brisa,
encrespa-se de leve a água vidrada.

Difuso em tudo, o ouro da luz de outono
resiste, como a clara
recordação de um longo dia para
e ainda hesita, antes da noite e o sono.

Escurecer que é quase amanhecer...
Um não sei que de claridade escura
diluído em tudo, em tudo arde e perdura:
já é quase noite o longo dia
a noite espera e sonha: ainda é dia.
Lá no alto, o adeus da tarde que ficou...
É dia ainda, o sol acorda agora
no largo oceano o sono de outra aurora,
mas derrama no seio do meu rio
todo o ouro do dia que passou.
Serena esta luz de ouro em meu outono:
recordação, antes do grande sono...

Augusto Meyer
Poesias, 1957

Augusto Meyer (Porto Alegre, 24 de janeiro de 1902 — Rio de Janeiro, 10 de julho de 1970) foi um jornalista, ensaísta, poeta, memorialista e folclorista brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia.

Era filho dos imigrantes alemães Augusto Ricardo Meyer e Rosa Meyer.

Colaborou em diversos jornais do Rio Grande do Sul, especialmente no Diário de Notícias e Correio do Povo, escrevendo poemas e ensaios críticos. Estreou na literatura em 1920, com o livro de poesias A ilusão querida, mas foi com os livros Coração verde, Giraluz e Poemas de Bilu que conquistou renome nacional. Foi diretor da Biblioteca Pública do Estado, em Porto Alegre.

Convidado por Getúlio Vargas para organizar o Instituto Nacional do Livro, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1937, junto a um grupo de intelectuais gaúchos. Foi diretor do INL durante cerca de trinta anos. Em 1947 recebeu o Prêmio Filipe de Oliveira na categoria Memórias e, em 1950, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra literária.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

NESTA SELVA

Nesta selva selvagem,
o homem persegue nuvens que o perseguem.

Neste reino
de insânia, o homem soluça.

O homem soluça: “Deus!” – e o eco tão longe
vai que talvez nem Deus possa escutá-lo.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

terça-feira, 7 de junho de 2011

A MEDIDA DO AZUL


A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto - já por ser absoluto.

A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se,
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.

A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,

pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável

Ernesto Penafort

Ernesto Penafort nasceu em Manaus, Amazonas, em 27 de
março de 1936 e faleceu na mesma cidade em 3 de junho de
1992. Na década de 60,estudou Ciências Sociais na
Universidade do Brasil, abandonando o curso devido ao
clima político vivido pelo País.

Formou-se em Direito pela Universidade Federal do
Amazonas. Era jornalista, poeta, contista. Morou 11 anos
no Rio de Janeiro e só não se formou em Ciências Sociais
pela Universidade do Brasil porque se desentendeu com um
professor faltando um ano para concluir o curso. Foi
redator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e da Folha de
São Paulo. Voltando para Manaus, trabalhou na Fundação
Cultural do Amazonas. Foi membro do Clube da Madrugada e
um de seus presidentes.

Um dos poetas mais importantes de sua geração. Sua
poesia se situa no contexto dos anos 70 do século passado,
época de opressão e cerceamento das liberdades.
Os textos de Penafort refletem inconformismo diante da
realidade, preocupação humana e anseio de liberdade. O
azul é metáfora de seu fazer poético.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Horas do meu tempo


Eternizei o vento com palavras
abrindo janelas da alma
à procura de um sinal.

Atravessei desertos do mundo
descrevendo as horas dos meus dias
tentando encontrar teu sorriso

Na música que me acompanhou
talvez amanhã te encontre
com jeito provocador
desafiando caminhos

Quando já não eras esperado
ao saber totalmente de mim
poderás partir
pois já levas contigo
a eternidade do amor.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 03/04/11
Código do Texto: T2886664

segunda-feira, 23 de maio de 2011

HORA MEMÓRIA


Há rostos que nunca se irão.
Outros jamais veremos
mas aí estão,
sempre.
Nunca conheceremos todos
os convivas.
Nem os mais próximos.
Sequer o irmão.
A memória retém os
que devem ficar.
Mesmo os que, fugazes,
teimam em partir.
Lembrar é fingir.


Antonio Fernando de Franceschi
— Tarde Revelada

FUGA


Desfez-se da inquietação,
abandonou a luta
e caminhou vagarosamente
para a aceitação...

A realidade do dia-a-dia
sempre foi para ele
desespero e agonia.

Cansado, deitou-se na relva,
olhou para o céu, bebeu azul e paz,
aspirou os aromas silvestres
depois fechou os olhos
e deixou a alma sonhar...

A bela alma foi brincar
no recanto mágico de seus desejos,
lá, onde há luz, música e beijos,
onde ninguém tem motivos para chorar...

Adormeceu sorrindo
ouvindo a flauta do vento
no arvoredo que dançava ali, ao lado...
E, sonhando dormindo
o mesmo sonho que sonhara acordado.


Zoraida H. Guimarães
in Na Passarela do Tempo

sexta-feira, 20 de maio de 2011

POLARIDADES


A vida?
Ora a encontro
Ora a perco
Teço e desfio
Amanheço com promessa
Pássaros
Depois anoiteço
Com desconcerto de gritos...

(Fernando Campanella, trecho do primeira poema que escrevi, em 1982.)

terça-feira, 17 de maio de 2011

A canção do mar


À sombra dos imensos coqueirais,
Ouço as queixas infindas e os tormentos
Do mar que entre gemidos espectrais,
Confessa à solidão seus sofrimentos!


Gosto de ouvir os mares turbulentos,
Que nas suas canções sentimentais,
Tem a monotonia dos lamentos
Que os sinos soltam pelas catedrais. . .


Escuto ao longe entre profundas magoas,
Os soluços monótonos das águas
Que vão aos poucos para o céu crescendo!


Num cenário de dor e convulsão,
Enquanto as ondas preguiçosas vão
Pela areia da praia se estendendo. . .



Jansen Filho
In: Obras Completas

QUALQUER TEMPO


Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.


Carlos Drummond de Andrade,
in 'A Falta que Ama'

Recebido da amiga Amália Catarina.

MADRIGAL


Azul e pontual,
o céu acordou:
cada aurora
em seu horizonte.
Mas a pergunta,
como um gládio
em riste, cravou
seu aço no vazio
— e lá, imóvel, ficou
esperando a resposta
que não raiou.

Ivan Junqueira — Os Mortos
“in” Poesia Reunida
Recebido do amigo e escritor Delores Pires.

sábado, 7 de maio de 2011

Ser Mãe


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Berceuse


A chuva embala as árvores insones
Com baladas e lendas outonais...

Carícia d'água, cândida e piedosa,
Nos braços nus dos troncos espetrais.

Mantilha em que se abrigam tristes frondes,
Saudosas dos diademas estivais.

A chuva dependura pelos ramos
Braceletes de lúcidos cristais

O vento embala as árvores silentes
Com baladas e lendas outonais.

Helena Kolody

quarta-feira, 4 de maio de 2011

INVASÃO DA ALEGRIA


Ah! Que alegria de furtar manhãs! –
Um “venha “ de um tapa azul no sangue!
Tê-la a ensinar ao sol da nossa boca
Uma lição de madrigais meninos!

Brincar o cheiro da manhã molhada
Enxugando-a de amor! Depois gostá-la
Com um circo de prazer de ter achado
Dentro da música o assobio perdido.

Ter a manhã como uma caixa e abri-la
Para afofar seu dispersivo corpo
Até reaver os dedos sujos de asas!

Sorver manhãs com licor de almas dentro,
Num orgasmo castíssimo, surpreso
Que a dor insista em praticar a noite...

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

POEMAS DO VENTO


Gastar-se no tempo
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...

Memória.

Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.

Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...


Menotti Del Picchia

quarta-feira, 15 de junho de 2011

História Leal dos meus amores

(Felipe Daudt de Oliveira)

Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.

Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...

Felipe de Oliveira
in Vida Extinta (1911) (Duas primeiras estrofes)
Do Blog da sobrinha do autor.

Elegia de Maio


Longo, lento, infindável o crepúsculo.
Na larga enseada uma tinta imprecisa
antes do lusco-fusco
insinua-se em tudo, esmaiada.
Corre um brusco arrepio de brisa,
encrespa-se de leve a água vidrada.

Difuso em tudo, o ouro da luz de outono
resiste, como a clara
recordação de um longo dia para
e ainda hesita, antes da noite e o sono.

Escurecer que é quase amanhecer...
Um não sei que de claridade escura
diluído em tudo, em tudo arde e perdura:
já é quase noite o longo dia
a noite espera e sonha: ainda é dia.
Lá no alto, o adeus da tarde que ficou...
É dia ainda, o sol acorda agora
no largo oceano o sono de outra aurora,
mas derrama no seio do meu rio
todo o ouro do dia que passou.
Serena esta luz de ouro em meu outono:
recordação, antes do grande sono...

Augusto Meyer
Poesias, 1957

Augusto Meyer (Porto Alegre, 24 de janeiro de 1902 — Rio de Janeiro, 10 de julho de 1970) foi um jornalista, ensaísta, poeta, memorialista e folclorista brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filologia.

Era filho dos imigrantes alemães Augusto Ricardo Meyer e Rosa Meyer.

Colaborou em diversos jornais do Rio Grande do Sul, especialmente no Diário de Notícias e Correio do Povo, escrevendo poemas e ensaios críticos. Estreou na literatura em 1920, com o livro de poesias A ilusão querida, mas foi com os livros Coração verde, Giraluz e Poemas de Bilu que conquistou renome nacional. Foi diretor da Biblioteca Pública do Estado, em Porto Alegre.

Convidado por Getúlio Vargas para organizar o Instituto Nacional do Livro, transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1937, junto a um grupo de intelectuais gaúchos. Foi diretor do INL durante cerca de trinta anos. Em 1947 recebeu o Prêmio Filipe de Oliveira na categoria Memórias e, em 1950, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra literária.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

NESTA SELVA

Nesta selva selvagem,
o homem persegue nuvens que o perseguem.

Neste reino
de insânia, o homem soluça.

O homem soluça: “Deus!” – e o eco tão longe
vai que talvez nem Deus possa escutá-lo.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

terça-feira, 7 de junho de 2011

A MEDIDA DO AZUL


A medida do azul é o estender-se
do olhar por sobre os seres. Esse arguto
perceber que se tem de não mover-se
o objeto - já por ser absoluto.

A medida do azul é ver um luto
contido em toda flor e o abster-se,
cada qual de assumir seu tom enxuto
e noutro que o não seu absorver-se.

A medida do azul, pelo contrário,
não é ver no horizonte o fim do olhar,
mas o ter desta vida aonde chegar,

pois ali tem o mundo o seu ovário:
e o retorno acontece, sempre estável,
eis que o azul é o início do infindável

Ernesto Penafort

Ernesto Penafort nasceu em Manaus, Amazonas, em 27 de
março de 1936 e faleceu na mesma cidade em 3 de junho de
1992. Na década de 60,estudou Ciências Sociais na
Universidade do Brasil, abandonando o curso devido ao
clima político vivido pelo País.

Formou-se em Direito pela Universidade Federal do
Amazonas. Era jornalista, poeta, contista. Morou 11 anos
no Rio de Janeiro e só não se formou em Ciências Sociais
pela Universidade do Brasil porque se desentendeu com um
professor faltando um ano para concluir o curso. Foi
redator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e da Folha de
São Paulo. Voltando para Manaus, trabalhou na Fundação
Cultural do Amazonas. Foi membro do Clube da Madrugada e
um de seus presidentes.

Um dos poetas mais importantes de sua geração. Sua
poesia se situa no contexto dos anos 70 do século passado,
época de opressão e cerceamento das liberdades.
Os textos de Penafort refletem inconformismo diante da
realidade, preocupação humana e anseio de liberdade. O
azul é metáfora de seu fazer poético.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Horas do meu tempo


Eternizei o vento com palavras
abrindo janelas da alma
à procura de um sinal.

Atravessei desertos do mundo
descrevendo as horas dos meus dias
tentando encontrar teu sorriso

Na música que me acompanhou
talvez amanhã te encontre
com jeito provocador
desafiando caminhos

Quando já não eras esperado
ao saber totalmente de mim
poderás partir
pois já levas contigo
a eternidade do amor.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 03/04/11
Código do Texto: T2886664

segunda-feira, 23 de maio de 2011

HORA MEMÓRIA


Há rostos que nunca se irão.
Outros jamais veremos
mas aí estão,
sempre.
Nunca conheceremos todos
os convivas.
Nem os mais próximos.
Sequer o irmão.
A memória retém os
que devem ficar.
Mesmo os que, fugazes,
teimam em partir.
Lembrar é fingir.


Antonio Fernando de Franceschi
— Tarde Revelada

FUGA


Desfez-se da inquietação,
abandonou a luta
e caminhou vagarosamente
para a aceitação...

A realidade do dia-a-dia
sempre foi para ele
desespero e agonia.

Cansado, deitou-se na relva,
olhou para o céu, bebeu azul e paz,
aspirou os aromas silvestres
depois fechou os olhos
e deixou a alma sonhar...

A bela alma foi brincar
no recanto mágico de seus desejos,
lá, onde há luz, música e beijos,
onde ninguém tem motivos para chorar...

Adormeceu sorrindo
ouvindo a flauta do vento
no arvoredo que dançava ali, ao lado...
E, sonhando dormindo
o mesmo sonho que sonhara acordado.


Zoraida H. Guimarães
in Na Passarela do Tempo

sexta-feira, 20 de maio de 2011

POLARIDADES


A vida?
Ora a encontro
Ora a perco
Teço e desfio
Amanheço com promessa
Pássaros
Depois anoiteço
Com desconcerto de gritos...

(Fernando Campanella, trecho do primeira poema que escrevi, em 1982.)

terça-feira, 17 de maio de 2011

A canção do mar


À sombra dos imensos coqueirais,
Ouço as queixas infindas e os tormentos
Do mar que entre gemidos espectrais,
Confessa à solidão seus sofrimentos!


Gosto de ouvir os mares turbulentos,
Que nas suas canções sentimentais,
Tem a monotonia dos lamentos
Que os sinos soltam pelas catedrais. . .


Escuto ao longe entre profundas magoas,
Os soluços monótonos das águas
Que vão aos poucos para o céu crescendo!


Num cenário de dor e convulsão,
Enquanto as ondas preguiçosas vão
Pela areia da praia se estendendo. . .



Jansen Filho
In: Obras Completas

QUALQUER TEMPO


Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.


Carlos Drummond de Andrade,
in 'A Falta que Ama'

Recebido da amiga Amália Catarina.

MADRIGAL


Azul e pontual,
o céu acordou:
cada aurora
em seu horizonte.
Mas a pergunta,
como um gládio
em riste, cravou
seu aço no vazio
— e lá, imóvel, ficou
esperando a resposta
que não raiou.

Ivan Junqueira — Os Mortos
“in” Poesia Reunida
Recebido do amigo e escritor Delores Pires.

sábado, 7 de maio de 2011

Ser Mãe


Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Berceuse


A chuva embala as árvores insones
Com baladas e lendas outonais...

Carícia d'água, cândida e piedosa,
Nos braços nus dos troncos espetrais.

Mantilha em que se abrigam tristes frondes,
Saudosas dos diademas estivais.

A chuva dependura pelos ramos
Braceletes de lúcidos cristais

O vento embala as árvores silentes
Com baladas e lendas outonais.

Helena Kolody

quarta-feira, 4 de maio de 2011

INVASÃO DA ALEGRIA


Ah! Que alegria de furtar manhãs! –
Um “venha “ de um tapa azul no sangue!
Tê-la a ensinar ao sol da nossa boca
Uma lição de madrigais meninos!

Brincar o cheiro da manhã molhada
Enxugando-a de amor! Depois gostá-la
Com um circo de prazer de ter achado
Dentro da música o assobio perdido.

Ter a manhã como uma caixa e abri-la
Para afofar seu dispersivo corpo
Até reaver os dedos sujos de asas!

Sorver manhãs com licor de almas dentro,
Num orgasmo castíssimo, surpreso
Que a dor insista em praticar a noite...

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

POEMAS DO VENTO


Gastar-se no tempo
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...

Memória.

Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.

Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...


Menotti Del Picchia