Seja bem-vindo. Hoje é

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

DESCONHECIDO


Sou o pensamento
O vento soprando forte
O barco da sorte
O sorriso da alegria
A força da magia
A dor do fraco
O segredo do forte
O medo da vida.


Guimarães Rosa


João Guimarães Rosa
Nasceu em Cordisburgo, 27 de junho de 1908 —
faleceu no Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967,
foi um médico, escritor e diplomata brasileiro.
Autor de contos e livros marcados pela presença do sertão como palco das ações. Sua obra ficou marcada pela linguagem inovadora, utilizando elementos de linguagem popular e regional, com fortes traços de narrativa falada. Tudo isso, unindo à sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. É considerado por muitos críticos um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, ao lado de Machado de Assis.

Solidão


Velha flauta geme e chora,
Ora temas melodiosos,
Ora acordes vigorosos,
Saudando a vinda da aurora.

Todos dormem muito embora
Aqueles sons tão chorosos
Vão morrendo, vagarosos,
Até ficarem de fora.

No horizonte, o sol se ensaia
Tornando belo o cenário,
Nesta manhã junto ao mar.

Como é linda a branca praia,
Por onde assim solitário
Estou desde o madrugar.

Santos, Outubro de 1949.

Ives Gandra

'VI' - Lindolf Bell _


Atravesso compêndios,
currículos, apostilas
de silêncio
e minha sombra pisada
por outra sombra
também feita de tudo
e nada
Atravesso simulacros
e arranco o lacre da palavra

Pois menor que meu sonho
não posso ser

atravesso o avesso
E meu barco de travessias
é a palavra terra
cercada de água por todos os lados

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Estou do lado de lá da ilha
Aqui disponho de mim
e conheço meu próprio acesso
Aqui conheço a face inversa da luz
onde me extravio
e não cessarei jamais

Pois menor que meu sonho
não posso ser.


Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Lindolf Bell nasceu na cidade de Timbó, Santa Catarina, no dia 02 de novembro de 1938, e veio a falecer aos 10 de dezembro de 1998, em Blumenau, Santa Catarina. Ainda criança sua mãe o alfabelizou em alemão. Nos anos seguintes estudou em sua terra natal e em 1953, iniciou o Curso Técnico em Contabilidade de Blumenau, que concluíu em 1955. De volta a Timbó, ao Exército. Fez o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ mas não chegou a concluir. No ano seguinte, retorna a Timbó. Em 1962, iniciou seus estudos no Curso de Dramaturgia na Escola de Arte Dramática de São Paulo, no qual se formou em 1964.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

COM PASSOS DE SONHOS*


(Primeiro Rascunho)

I

...Sobrevoando a floresta,
que acolhe e alimenta seus sonhos,
vislumbro curso e recursos do rio que,
de janeiro às águas de março,
acalentam os animais que povoam,
da minha menina esperta,
toda a fronte e fortes ombros.

II

Sobrepesando a festa,
descubro cobras e ursos,
paturis e gansos, garças e peixes
que habitam o lago à espreita
dos humores de águias e tigres:
que invadem o aquário secreto
da minha mulher, amante, sol, lua,
prima e vera cigana menina.

III

Tanto quanto tão pouco sei,
ela caminha sobre nuvens travessas.
Sobrenado e circundo sua íris, sua boca;
afago seus olhos e seios salgados.

IV

Insone e alerta, eu sei daquilo que poupa
e alimenta seus sonhos!
Então, devoro suas dálias,
dunas, fauna, cartas e cores avessas...

(Portanto, quando ela adormece,
eu Sou - e algo mais Sei!)

*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

sábado, 6 de novembro de 2010

Levam o amanhecer


Partem.
E levam consigo a memória
de nosso amanhecer.


A quem dirigir
a pergunta mágica:
Lembra-se?


Quem,
entre os jovens,
acreditará
que fomos jovens também?



Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

A miragem no caminho


Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.


(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).



Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"XI"


Novembro lava a alma
e as flores do Guapuruvú
respingam na tarde.
Logo, a lua dá o ar da graça
e entre os galhos da árvore
amorosamente se enrosca.
O universo embala então a terra
e os pássaros
sonham abóbodas iluminadas.


F.Campanella
da série 'Efemérides'

Photo 'Guapuruvú' (Schizolobium parahyba)
by Fernando Campanela.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

MEMÓRIA


Na longínqua tarde
ledas conversas de seda
saudades saudades...

Delores Pires
In: O Livro dos Haicais

domingo, 24 de outubro de 2010

'ALMA'


Se eu pudesse fugir à planície da vida...

Como um arranha-céu de fronte de granito,
Iria projetar uma estrutura de aço
Para a cintilação remota das estrelas,
Para a serenidade inefável do espaço.

(1977)

Helena Kolodi
em 'Correnteza'

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

OLHOS D’ESPANHA


Mergulho em seus olhos
um amor de inteira argúcia:
medo, desespero, arte-ofícios.

Mergulho em seus olhos
um mar de nomes inéditos:
cometas, algas, êxtase, suicídios.

Mergulho em seus olhos
uma língua afiada em riste:
verbos, substantivos, pronomes;
oceanos de silêncio e silício.

Mergulho em seus olhos
arcanjos de nuvens e neve:
retalhos, letras, sussurros;
restos avessos da inútil paixão.

Submerso em seus olhos,
desnudo e descubro seu corpo:
então, sua beleza me resgata
do pântano das sobras e sombras.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 19 de outubro de 2010

TRAVESSURAS DO TEMPO


Ronco
de trovões.
Coriscos
cruzam
a atmosfera.
Um clarão
morre
no além . . .
Vento
que balança
as arvores.
Pássaros
fugidios.
Pessoas
fogem
no tempo . . .



Delores Pires
In: A Estrela e a Busca

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Saudades


saudades não morrem, envelhecem
no peito
nas gavetas
nos baus... nas estantes...
as dores passam, as saudades ficam
no fundo da gente
em algum cantinho escondido
exalando aquele cheiro de musgo verde.

£una

"X" da série Efemérides

(Caesalpinia peltophoroides-Sibipiruna)

Outubro in memoriam:
coração ebuliente de amor.
Sibipirunas então floridas
davam o tom.

Outubros,
a premência dos ciclos,
Sibipirunas em reflor.

Mas o tempo, o tempo
Vai colhendo distância
E esculpindo eternidade.


F.Campanella
Poema da série 'Efemérides'.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

'SONHO'


Da tua branca e solitária ermida
Por caminhos de céu que a lua esmalta-
Desces –banhada dessa luz cobalta-
O linho d’asa abrindo sobre a vida.

Nada,teu passo calmo,sobre-salta
E quando a mágoa as almas intimida
Das ilusões,a turba renascida,
Em rondas espalha pela noite alta.

E a claridade que se faz é tanta
Que logo a terra fica cheia dessa
Sonora e estranha luz que alegra e canta.

E iluminada de um luar de outono
A alma feliz e impávida,atravessa
A vasta e longa escuridão do sono.


Mário Pederneiras
Rondas Noturnas-1.906

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Delores Pires


Francisco, de Assis,
a ecologia terrestre
roga por clemência...

Delores Pires
4 de outubro – Dia de São Francisco

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

DESCONHECIDO


Sou o pensamento
O vento soprando forte
O barco da sorte
O sorriso da alegria
A força da magia
A dor do fraco
O segredo do forte
O medo da vida.


Guimarães Rosa


João Guimarães Rosa
Nasceu em Cordisburgo, 27 de junho de 1908 —
faleceu no Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967,
foi um médico, escritor e diplomata brasileiro.
Autor de contos e livros marcados pela presença do sertão como palco das ações. Sua obra ficou marcada pela linguagem inovadora, utilizando elementos de linguagem popular e regional, com fortes traços de narrativa falada. Tudo isso, unindo à sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. É considerado por muitos críticos um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, ao lado de Machado de Assis.

Solidão


Velha flauta geme e chora,
Ora temas melodiosos,
Ora acordes vigorosos,
Saudando a vinda da aurora.

Todos dormem muito embora
Aqueles sons tão chorosos
Vão morrendo, vagarosos,
Até ficarem de fora.

No horizonte, o sol se ensaia
Tornando belo o cenário,
Nesta manhã junto ao mar.

Como é linda a branca praia,
Por onde assim solitário
Estou desde o madrugar.

Santos, Outubro de 1949.

Ives Gandra

'VI' - Lindolf Bell _


Atravesso compêndios,
currículos, apostilas
de silêncio
e minha sombra pisada
por outra sombra
também feita de tudo
e nada
Atravesso simulacros
e arranco o lacre da palavra

Pois menor que meu sonho
não posso ser

atravesso o avesso
E meu barco de travessias
é a palavra terra
cercada de água por todos os lados

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Estou do lado de lá da ilha
Aqui disponho de mim
e conheço meu próprio acesso
Aqui conheço a face inversa da luz
onde me extravio
e não cessarei jamais

Pois menor que meu sonho
não posso ser.


Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Lindolf Bell nasceu na cidade de Timbó, Santa Catarina, no dia 02 de novembro de 1938, e veio a falecer aos 10 de dezembro de 1998, em Blumenau, Santa Catarina. Ainda criança sua mãe o alfabelizou em alemão. Nos anos seguintes estudou em sua terra natal e em 1953, iniciou o Curso Técnico em Contabilidade de Blumenau, que concluíu em 1955. De volta a Timbó, ao Exército. Fez o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ mas não chegou a concluir. No ano seguinte, retorna a Timbó. Em 1962, iniciou seus estudos no Curso de Dramaturgia na Escola de Arte Dramática de São Paulo, no qual se formou em 1964.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

COM PASSOS DE SONHOS*


(Primeiro Rascunho)

I

...Sobrevoando a floresta,
que acolhe e alimenta seus sonhos,
vislumbro curso e recursos do rio que,
de janeiro às águas de março,
acalentam os animais que povoam,
da minha menina esperta,
toda a fronte e fortes ombros.

II

Sobrepesando a festa,
descubro cobras e ursos,
paturis e gansos, garças e peixes
que habitam o lago à espreita
dos humores de águias e tigres:
que invadem o aquário secreto
da minha mulher, amante, sol, lua,
prima e vera cigana menina.

III

Tanto quanto tão pouco sei,
ela caminha sobre nuvens travessas.
Sobrenado e circundo sua íris, sua boca;
afago seus olhos e seios salgados.

IV

Insone e alerta, eu sei daquilo que poupa
e alimenta seus sonhos!
Então, devoro suas dálias,
dunas, fauna, cartas e cores avessas...

(Portanto, quando ela adormece,
eu Sou - e algo mais Sei!)

*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

sábado, 6 de novembro de 2010

Levam o amanhecer


Partem.
E levam consigo a memória
de nosso amanhecer.


A quem dirigir
a pergunta mágica:
Lembra-se?


Quem,
entre os jovens,
acreditará
que fomos jovens também?



Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

A miragem no caminho


Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.


(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).



Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"XI"


Novembro lava a alma
e as flores do Guapuruvú
respingam na tarde.
Logo, a lua dá o ar da graça
e entre os galhos da árvore
amorosamente se enrosca.
O universo embala então a terra
e os pássaros
sonham abóbodas iluminadas.


F.Campanella
da série 'Efemérides'

Photo 'Guapuruvú' (Schizolobium parahyba)
by Fernando Campanela.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

MEMÓRIA


Na longínqua tarde
ledas conversas de seda
saudades saudades...

Delores Pires
In: O Livro dos Haicais

domingo, 24 de outubro de 2010

'ALMA'


Se eu pudesse fugir à planície da vida...

Como um arranha-céu de fronte de granito,
Iria projetar uma estrutura de aço
Para a cintilação remota das estrelas,
Para a serenidade inefável do espaço.

(1977)

Helena Kolodi
em 'Correnteza'

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

OLHOS D’ESPANHA


Mergulho em seus olhos
um amor de inteira argúcia:
medo, desespero, arte-ofícios.

Mergulho em seus olhos
um mar de nomes inéditos:
cometas, algas, êxtase, suicídios.

Mergulho em seus olhos
uma língua afiada em riste:
verbos, substantivos, pronomes;
oceanos de silêncio e silício.

Mergulho em seus olhos
arcanjos de nuvens e neve:
retalhos, letras, sussurros;
restos avessos da inútil paixão.

Submerso em seus olhos,
desnudo e descubro seu corpo:
então, sua beleza me resgata
do pântano das sobras e sombras.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 19 de outubro de 2010

TRAVESSURAS DO TEMPO


Ronco
de trovões.
Coriscos
cruzam
a atmosfera.
Um clarão
morre
no além . . .
Vento
que balança
as arvores.
Pássaros
fugidios.
Pessoas
fogem
no tempo . . .



Delores Pires
In: A Estrela e a Busca

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Saudades


saudades não morrem, envelhecem
no peito
nas gavetas
nos baus... nas estantes...
as dores passam, as saudades ficam
no fundo da gente
em algum cantinho escondido
exalando aquele cheiro de musgo verde.

£una

"X" da série Efemérides

(Caesalpinia peltophoroides-Sibipiruna)

Outubro in memoriam:
coração ebuliente de amor.
Sibipirunas então floridas
davam o tom.

Outubros,
a premência dos ciclos,
Sibipirunas em reflor.

Mas o tempo, o tempo
Vai colhendo distância
E esculpindo eternidade.


F.Campanella
Poema da série 'Efemérides'.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

'SONHO'


Da tua branca e solitária ermida
Por caminhos de céu que a lua esmalta-
Desces –banhada dessa luz cobalta-
O linho d’asa abrindo sobre a vida.

Nada,teu passo calmo,sobre-salta
E quando a mágoa as almas intimida
Das ilusões,a turba renascida,
Em rondas espalha pela noite alta.

E a claridade que se faz é tanta
Que logo a terra fica cheia dessa
Sonora e estranha luz que alegra e canta.

E iluminada de um luar de outono
A alma feliz e impávida,atravessa
A vasta e longa escuridão do sono.


Mário Pederneiras
Rondas Noturnas-1.906

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Delores Pires


Francisco, de Assis,
a ecologia terrestre
roga por clemência...

Delores Pires
4 de outubro – Dia de São Francisco