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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mulher e Pássaro


Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.


Dora Ferreira da Silva

Chamar Pássaros


Chamar pássaros com o alpiste
de amá-los. Eles pousam nos parapeitos. Nem
sombra de medo nessa aproximação.
Quase me sinto gêmea do que são parados
à beira da janela ou saltando no telhado
recém-chegados.

A cordialidade dos pássaros é

sutil:
afloram o coração de quem os ama.


Dora Ferreira da Silva

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"IX"


Setembro floresce em sapucaias,
vórtice de abelha
em aroma roxo-lilás.
Logo a flor será cumbuca de fruto.
Bendito o tempo entre floração e semente,
doce a amêndoa
do beijo que eu consigo roubar.


Fernando Campanella
da série 'Efemérides'

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

MEU BARCO


Ele sempre chega,
quando meus sonhos canções
florescem verões.


Sempre parte,
quando lágrimas estrelas
escurecem meu poente.


Meu barco hoje,
só quero-o em brinquedo,
namorando em minhas águas. . .
. . . não quero vê-lo navegar!
. . . ilusões p’ra longe levar?
e talvez,
nunca mais voltar?


Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

'TÉDIO'


Tudo se acaba aos nossos olhos perto
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.

E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.

Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.


E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...


Saturnino de Meireles
De Astros mortos (1903)

sábado, 28 de agosto de 2010

RESSONÂNCIA

Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.

Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

GOSTO DA LÍNGUA


Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
aprender.

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para melhor poder
apreender.

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
saber.

Aquilo que ignoro,
escancaro.
Para, na ponta da língua,
avaro sabor todo sentir.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

domingo, 22 de agosto de 2010

SUPOSIÇÕES



I

Suponha que não sei
como a conheço.
Talvez assim
meus olhos amanheçam.

II

Suponha que não sei
do lado avesso.
Talvez assim
minhas mãos o reconheçam.

III

Suponha que não sei
o exato endereço.
Talvez assim
meus ouvidos o traduzam.

IV

Suponha que não sei
o claro caminho.
Talvez assim
minhas pernas me conduzam.

V

Suponha que não sei
do bravo carinho.
Talvez assim
minha boca o descubra em canto.

VI

Suponha que não sei
quando ou como atravessar o rio.
Talvez assim
aprenda a nadar enquanto.

VII

Suponha que nada sei
do amor, viver ou ser.
Talvez assim
meus pés me levem até você.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

'POESIS'


A poesia é algo assim
Como uma dúbia certeza,
Aposta de um tudo
No oco intraduzível do nada,
Algo como a luz-menina dos olhos
Entreabrindo a opacidade,
Sumo delicado
Espremido de alegrias
E enfermidade,
Efemérides
E ainda um certo milagre,
Pérola pescada -
Insípida borboleta dos dias
Pela magia do verbo eterno
Encantada.

(Fernando Campanella)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Cantilena"


solitário cri de um grilo
que se acasala a outros cris
e crispa de sonora eternidade
a sonolência úmida
de um jardim


Fernando Campanella

"Selvagem"


E Deus rogou as pragas.
Braquearas
trevos
ora-pro-nobis:
após as chuvas
um sapo estufa
e a vida estica.

Um pardal corteja
a flor conspícua
da tiririca.


Fernando Campanella

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Da Massa da Alma


XLVII

Tenho a alma feita de soluços
e dádivas sem recompensa
de matérias minerais sem substância
e substâncias sem matéria alguma.
Tenho a alma feita de piedade
da extensa e sobreposta que há no mundo
de destroços de geométricas ilusões
em verazes ferozes descampados.
Tenho a alma feita de meninos
e dos sonhos coloridos dos meninos
da aspiração (por fim) de não ser barro
mas as pedra que erige o tempo e o templo.

junho de 66


Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas"(1984)

Memória


Deixar a memória
cumprir sua parte
juntar os pedaços
compor os seus itens

então reverter-se
do tempo e da carne
tornando-se apenas
um puro fluir

deixar que a memória
performe e execute
e sermos apenas
processing data

(e indeléveis registros).


Rio, outubro de 1972


Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas"(1984)

Nascido em 26 de novembro de 1933, no Piauí, fez os seus primeiros estudos em Teresina, onde concluiu o Curso Ginasial, vindo para o Rio de Janeiro logo em seguida. No Colégio Salesiano Santa Rosa de Niterói fez o Curso Científico e formou-se em Direito em 1958 pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Exerceu a advocacia no Rio de 1957 a 1963.
Reside no Rio de Janeiro desde que saiu do Piauí. [set/1998]

domingo, 8 de agosto de 2010

SONETO AO TEMPO


Na areia, aonde o mar encerra em ondas seu curso,
Fico olhando o horizonte, a brisa é leve, suave,
Meus pensamentos voam, as nuvens brincam no céu,
Sinto a liberdade daquele momento breve, que me leva...

Em poucos instantes, a minha alma leve flutua, nua,
longe das angústias desta vida, de seres camuflados,
mascarados de sorrisos, de palavras sem sentido,
pois sou eu que faço minha sombra, meu castelo na areia.

Ainda de frente ao mar, as lembranças fazem sua dança,
bailam ao meu redor, feito bailarinas em um palco, giram,
entre sorrisos e lágrimas, surgem e como num encanto se vão...

Assim, as marcas do tempo, em minha memória, presentes,
dispersas seguem seu rumo, e fico com um sorriso leve,
Tempo que se foi, na brisa, nas nuvens, nas ondas...em mim.

(Reggina Moon)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

'Mar de solidão'


Aceito a solidão
da partida dos meus encantos,
na cadência monótona dos meus passos
anunciando auroras salpicadas
de orvalhos amargos das manhãs

Ventos errôneos das tardes,
regressam com roupagem cinza outonal,
sem semear fantasias,
convertendo a alma em ocasos
debruçados em seus tons de melodia

Ando sem pressa, sem lembranças
apenas o coração espera
entre o resto e o nada
de viagens profundas
nos desertos por onde passo.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 04/08/10
Código do Texto: T2417359

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mulher e Pássaro


Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.


Dora Ferreira da Silva

Chamar Pássaros


Chamar pássaros com o alpiste
de amá-los. Eles pousam nos parapeitos. Nem
sombra de medo nessa aproximação.
Quase me sinto gêmea do que são parados
à beira da janela ou saltando no telhado
recém-chegados.

A cordialidade dos pássaros é

sutil:
afloram o coração de quem os ama.


Dora Ferreira da Silva

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"IX"


Setembro floresce em sapucaias,
vórtice de abelha
em aroma roxo-lilás.
Logo a flor será cumbuca de fruto.
Bendito o tempo entre floração e semente,
doce a amêndoa
do beijo que eu consigo roubar.


Fernando Campanella
da série 'Efemérides'

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

MEU BARCO


Ele sempre chega,
quando meus sonhos canções
florescem verões.


Sempre parte,
quando lágrimas estrelas
escurecem meu poente.


Meu barco hoje,
só quero-o em brinquedo,
namorando em minhas águas. . .
. . . não quero vê-lo navegar!
. . . ilusões p’ra longe levar?
e talvez,
nunca mais voltar?


Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

'TÉDIO'


Tudo se acaba aos nossos olhos perto
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.

E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.

Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.


E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...


Saturnino de Meireles
De Astros mortos (1903)

sábado, 28 de agosto de 2010

RESSONÂNCIA

Fico a ouvir cada som,
infindo ou fundo,
que me acata ou alcança.

Desconfio, mais e mais,
de cada um. Sem travas,
transam sem fim...


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

GOSTO DA LÍNGUA


Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
aprender.

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para melhor poder
apreender.

Aquilo que ignoro,
alardeio.
Para mais poder
saber.

Aquilo que ignoro,
escancaro.
Para, na ponta da língua,
avaro sabor todo sentir.


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

domingo, 22 de agosto de 2010

SUPOSIÇÕES



I

Suponha que não sei
como a conheço.
Talvez assim
meus olhos amanheçam.

II

Suponha que não sei
do lado avesso.
Talvez assim
minhas mãos o reconheçam.

III

Suponha que não sei
o exato endereço.
Talvez assim
meus ouvidos o traduzam.

IV

Suponha que não sei
o claro caminho.
Talvez assim
minhas pernas me conduzam.

V

Suponha que não sei
do bravo carinho.
Talvez assim
minha boca o descubra em canto.

VI

Suponha que não sei
quando ou como atravessar o rio.
Talvez assim
aprenda a nadar enquanto.

VII

Suponha que nada sei
do amor, viver ou ser.
Talvez assim
meus pés me levem até você.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

'POESIS'


A poesia é algo assim
Como uma dúbia certeza,
Aposta de um tudo
No oco intraduzível do nada,
Algo como a luz-menina dos olhos
Entreabrindo a opacidade,
Sumo delicado
Espremido de alegrias
E enfermidade,
Efemérides
E ainda um certo milagre,
Pérola pescada -
Insípida borboleta dos dias
Pela magia do verbo eterno
Encantada.

(Fernando Campanella)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"Cantilena"


solitário cri de um grilo
que se acasala a outros cris
e crispa de sonora eternidade
a sonolência úmida
de um jardim


Fernando Campanella

"Selvagem"


E Deus rogou as pragas.
Braquearas
trevos
ora-pro-nobis:
após as chuvas
um sapo estufa
e a vida estica.

Um pardal corteja
a flor conspícua
da tiririca.


Fernando Campanella

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Da Massa da Alma


XLVII

Tenho a alma feita de soluços
e dádivas sem recompensa
de matérias minerais sem substância
e substâncias sem matéria alguma.
Tenho a alma feita de piedade
da extensa e sobreposta que há no mundo
de destroços de geométricas ilusões
em verazes ferozes descampados.
Tenho a alma feita de meninos
e dos sonhos coloridos dos meninos
da aspiração (por fim) de não ser barro
mas as pedra que erige o tempo e o templo.

junho de 66


Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas"(1984)

Memória


Deixar a memória
cumprir sua parte
juntar os pedaços
compor os seus itens

então reverter-se
do tempo e da carne
tornando-se apenas
um puro fluir

deixar que a memória
performe e execute
e sermos apenas
processing data

(e indeléveis registros).


Rio, outubro de 1972


Álvaro Pacheco
In "Seleção de Poemas"(1984)

Nascido em 26 de novembro de 1933, no Piauí, fez os seus primeiros estudos em Teresina, onde concluiu o Curso Ginasial, vindo para o Rio de Janeiro logo em seguida. No Colégio Salesiano Santa Rosa de Niterói fez o Curso Científico e formou-se em Direito em 1958 pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Exerceu a advocacia no Rio de 1957 a 1963.
Reside no Rio de Janeiro desde que saiu do Piauí. [set/1998]

domingo, 8 de agosto de 2010

SONETO AO TEMPO


Na areia, aonde o mar encerra em ondas seu curso,
Fico olhando o horizonte, a brisa é leve, suave,
Meus pensamentos voam, as nuvens brincam no céu,
Sinto a liberdade daquele momento breve, que me leva...

Em poucos instantes, a minha alma leve flutua, nua,
longe das angústias desta vida, de seres camuflados,
mascarados de sorrisos, de palavras sem sentido,
pois sou eu que faço minha sombra, meu castelo na areia.

Ainda de frente ao mar, as lembranças fazem sua dança,
bailam ao meu redor, feito bailarinas em um palco, giram,
entre sorrisos e lágrimas, surgem e como num encanto se vão...

Assim, as marcas do tempo, em minha memória, presentes,
dispersas seguem seu rumo, e fico com um sorriso leve,
Tempo que se foi, na brisa, nas nuvens, nas ondas...em mim.

(Reggina Moon)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

'Mar de solidão'


Aceito a solidão
da partida dos meus encantos,
na cadência monótona dos meus passos
anunciando auroras salpicadas
de orvalhos amargos das manhãs

Ventos errôneos das tardes,
regressam com roupagem cinza outonal,
sem semear fantasias,
convertendo a alma em ocasos
debruçados em seus tons de melodia

Ando sem pressa, sem lembranças
apenas o coração espera
entre o resto e o nada
de viagens profundas
nos desertos por onde passo.


Conceição Bentes
Publicado no Recanto das Letras em 04/08/10
Código do Texto: T2417359